Populismo sem limite: A exploração da tragédia alheia

Mateus Simões / 19/02/2018 - 06h00

O Carnaval de BH, que correu melhor do que todas as previsões poderiam imaginar, teve um fecho trágico com o acidente no Barreiro que custou a vida de vários passageiros e do próprio motorista.

As investigações ainda vão ter de caminhar muito antes de se fechar a compreensão sobre quem são os responsáveis, mas fico boquiaberto ao perceber o oportunismo populista de vários políticos que, às custas da tragédia alheia, fazem de toda oportunidade uma banqueta para discurso, normalmente vazios e cheios de chavões, misturando temas e elevando a si mesmos como verdadeiros profetas que anteviram a chegada da tragédia, tendo lutado para tentar evitá-la sem conseguir.

Assisti quem dissesse ser o problema causado pela falta de cobradores nos coletivos, alegando que tem lutado meses por isso.

Outros andaram usando microfones de plenários e imprensa para alardear que tem acompanhado a situação grave das tarifas de ônibus em BH e que a falta de atenção para a questão tem sido grave.

A exploração da tragédia alheia, nesse movimento de abutre, é pratica velha da adoecida política brasileira, que adora propor leis e medidas em resposta a tragédias já ocorridas, mas venho percebendo um agravamento da falta de elo entre as tragédias e os temas “elevados” à atenção da população. É que o neopopulista vai mais longe e não usa a tragédia para se promover a partir da pauta do desastre, ele usa o desastre para promover a sua própria pauta.

Como é que problemas mecânicos poderiam ser evitados pela presença de um cobrador dentro do ônibus? Pior, como é que tarifas altas podem ser causa de acidentes? (o contrário faria algum sentido, se a tarifa estivesse tão precária que faltasse dinheiro para manutenção, mas também não me parece ser esse o caso).

Ninguém falou sobre a vistoria dos veículos, uma das poucas atribuições relevantes da BHTrans e que ela, como de resto em quase tudo que lhe toca, não consegue exercer de forma eficiente. É que esse tema demandaria ação efetiva e, provavelmente, se tratado, não renderia votos a ninguém. Por isso, melhor fazer circo com o tema e esquecer a responsabilidade efetiva de um homem público: zelar pelo funcionamento eficiente da máquina estatal, ao invés de perseguir sua reeleição.

Em meio a isso um movimento evidente de pressão sobre prefeitura e empresários de ônibus, mas que em grande parte não busca melhoria do serviço, mas a negociação de condições eleitoralmente favoráveis: tarifas mais baixas, cobradores empregados...

Estão todos muito preocupados com suas próprias agendas, esquecidos dos mortos e dos que ainda hão de morrer pelas mesmas mãos assassinas do estado e seus gestores.

 

 

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