Hipocrisia, a máscara social

Simone Demolinari / 07/12/2017 - 06h00

Hipocrisia é uma palavra originalmente usada para qualificar atores que ocultavam a realidade por trás das máscaras. Vem do grego, “hypokrisía” qualificação dos artistas de teatro com habilidade para imitar a fala, fingir gestos e modos de outra pessoa.

Atualmente, hipocrisia é o ato de forjar sentimentos, comportamentos e virtudes que não se possui. Ocorre quando uma pessoa, incapaz de ser verdadeira, simula condutas e exige do outro aquilo que nem ela mesmo possui. Aos poucos esse comportamento se torna um padrão, chegando num nível onde a máscara vira rosto, ficando praticamente impossível separá-los.

Nicolau Maquiavel, no seu livro “O Príncipe”, descreve com genialidade a base do pensamento hipócrita: “Os homens em geral formam suas opiniões guiando-se mais pela vista do que pelo tato, pois a todos é dado ver, mas a poucos é dado sentir. Cada qual vê o que parecemos ser, mas poucos sentem o que realmente somos”.

Maquiavel sugeria o simulacro como a forma ideal de causar uma boa impressão. Ele contava com a superficialidade da percepção alheia: a maioria não enxerga além do óbvio. Assim sendo, era mais fácil fingir ser aquilo que não é. Mas parece que os ensinamentos de Maquiavel seguem atuais. Muitos lançam mão desse truque para manter uma boa imagem.

Um indivíduo hipócrita consegue enganar muitas pessoas por muito tempo. Somente os mais próximos conseguem observar melhor sua conduta. Geralmente são pessoas contraditórias que condenam o outro pelo mesmo crime que comete; tem duplo padrão de valores: aplica ao outro penalidades não aplicáveis a si; e possuem discursos de humildade no auge da sua prepotência.

É curioso perceber que, mesmo com esses comportamentos díspares, a sociedade ainda acolhe muito bem o hipócrita. Basta observar como as pessoas mais verdadeiras são julgadas e condenadas duramente. Muitas vezes, dentro da própria família, a hipocrisia parece ser bem vinda. Por exemplo: uma adolescente que assume aos pais que faz sexo com o namorado e é penalizada. Caso ela fosse hipócrita e fizesse discursos sobre a virgindade, nada aconteceria.

A mentira parece ser mais agradável aos ouvidos. Uma espécie de “me engana que eu gosto”. A política é outro exemplo. Ganha as eleições quem mente mais, promete mais, ilude mais. E mesmo quando descoberto, se reelege fazendo uso dos mesmos artifícios. No país da hipocrisia, sinceridade é grosseria.

O campo espiritual também não escapa desse mecanismo. Há quem se diz espiritualizado, mas no dia a dia vive de forma preconceituosa, desvia dinheiro, rouba, mente, trai, mas se gaba de ir à igreja semanalmente e julga quem não o faz.

A hipocrisia define uma óbvia falha de caráter visto que tem como única intenção a obtenção de vantagem, seja ela financeira, emocional ou moral.
Vale lembrar que quem mantém o ator hipócrita é a platéia que aplaude. Ambos entusiastas da farsa, mesmo afirmando ser praticantes da verdade.

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