Laços de família significam laços de amor?

Simone Demolinari / 28/09/2017 - 06h00


Família é um ambiente propício para vivenciar emoções. É entre familiares que degustamos as mais diversas experiências, desde as afáveis como amor e ternura, até aquelas que tentamos evitar, como inveja e ódio. 

Essa pluralidade de sentimentos ocorre porque os vínculos biológicos não garantem laços de afinidade. 

Nos sentimos afins quando nosso jeito de ser e modo de pensar encontram seus semelhantes. Desta forma, torna-se perfeitamente possível existir uma afinidade maior entre pessoas amigas, do que entre familiares. Alias, podemos ter, dentro da nossa casa, modelo de conduta completamente diferente da nossa, fazendo com que sintamos intensa repulsa. 

Quando essa diferença é grande, não há como negar que a admiração - sentimento primário do amor - fique comprometida. E aí nos deparamos com uma realidade cruel: a fraqueza dos laços sentimentais em relação aos nossos familiares. 

Essa, é uma constatação muito penosa, sobretudo pelo fato dela vir acompanhada de um forte sentimento de culpa. Mas, é preciso entender melhor essa questão. 

O amor é um sentimento retroalimentado, ou seja: minha capacidade de amar aumenta à medida que me sinto amado. Porém, quando não há essa via de mão dupla os laços afetivos se enfraquecem. 

Mas, por que alguém pode não se sentir amado pelos seus familiares?

Explico melhor. Percebemos o amor através de dois componentes fundamentais: um objetivo e o outro subjetivo. O primeiro tem a ver com a parte prática da vida: cuidados básicos, apoio financeiro, assistência, etc. Já o segundo componente é percebido de forma particular através do  acolhimento que recebemos - me sinto acolhido quando o outro me compreende através da minha ótica e consegue me proporcionar sensação de aconchego. 

Para nos sentirmos completamente amados é preciso a existência desses dois componentes. Apenas um não basta. Na infância não temos a consciência disso, afinal de contas, enquanto crianças, recebemos o que precisamos. Com o passar do tempo, nossas necessidades deixam de ser apenas as de natureza básica. Queremos mais. Queremos ser ouvidos, acolhidos, apoiados, reconhecidos.

Mas, nem sempre encontramos esse amparo na família.  

Muitas vezes temos pais, mãe ou irmãos biológicos, mas não necessariamente emocionais. Essa lacuna deixa a sensação de amor a meio mastro, causando decepção tristeza e até afastamento. 

Quando isso ocorre, não adianta dizer “eu te amo” ou enviar mensagens de natureza amorosa sem que elas venham acompanhadas de atitudes compatíveis. Isso só faz parecer demagogia. 
Aos que pretendem cultivar a união em família é necessário ter em mente que apenas o elo original não é suficiente, é preciso amor (em sua completude) para que haja uma troca emocional equilibrada, justa e verdadeira. 
 

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