O que está por trás das pessoas “boazinhas”

Simone Demolinari / 23/11/2017 - 06h00

Dedicar-se a ajudar o próximo, é, sem dúvida, um ato de generosidade, sobretudo nos dias de hoje onde o egoísmo prepondera. Contudo, há de se pensar com cautela sobre isso. Muitas vezes, o nobre ato de ajudar, pode não ser tão nobre assim. “Tal qual as questões físicas, as psíquicas não são necessariamente aquilo que parecem ser”, assim disse Freud. É preciso enxergar além daquilo que se vê.

Não podemos desprezar as pessoas cujo o dom genuíno é o altruísmo. Estes, dedicam-se ao próximo abnegando suas próprias necessidades e abstendo-se de qualquer benefício. A própria doação retro-alimenta a reciprocidade.

Contudo, nem todos os generosos estão a serviço do altruísmo genuíno. Boa parte deles aprenderam a priorizar o outro em detrimento do si. Portanto uma pessoa “boazinha”, na verdade, pode estar sendo vítima das suas próprias fraquezas, embora nem sempre não se dê conta disso.
Alguns motivos que estimulam um indivíduo a ser “bonzinho”:

1- Dificuldade em falar não: essa dificuldade está diretamente ligada à culpa. Negar um pedido de alguém, gera, equivocadamente, um sentimento de culpa, como se houvesse uma obrigatoriedade em fazê-lo. Há quem chegue à situação extrema de comprar coisas das quais não gostou só pela dificuldade em dizer “não” ao vendedor. Uma lógica invertida onde um vira o “bonzinho” para atender a demanda do outro.

2- Medo da rejeição: Viver evitando a rejeição é um caminho curto para se tornar um “bonzinho”. A lógica é: quanto mais eu agradar, menor a possibilidade do outro me largar.

3- Necessidade de ser aceito: Não basta evitar a rejeição, é preciso ser aceito. Receber o aval do outro faz surgir um sentimento de mais valia. Por isso, quanto mais “bonzinho” maior a chance de ser imprescindível na vida do outro.

4- Insegurança: A insegurança é a ausência de convicção. Pessoas inseguras, além de não confiarem em si, se sentem, por vezes, inadequadas. Frente a isso, costumam se tornar “boazinhas”, divertidas e solícitas – uma maneira inconsciente de compensar sua insegurança.

5- Carência afetiva: Os carentes estão sempre tentando “comprar” afeto. Por isso tornam-se “bonzinhos” e exímios doadores. O tamanho da carência é proporcional à doação. Ofertar ao outro, nesse caso, revela uma tentativa de “garantir” uma retribuição em forma de afetividade.

6- Baixa autoestima: autoestima é o juízo de valor que eu faço a meu respeito, portanto, se me avalio por baixo, acabo sendo permissivo aos abusos e ainda continuo “bonzinho”.

7- Vaidade: ainda que seja difícil admitir isso, algumas pessoas se tornam “boazinhas” para serem reconhecidas como tal. Praticam o bem, fazem favores, ofertam ajudas, lideram campanhas sociais, porém arrumam um jeito de divulgarem sua bondade na internet.

Se reconhecer “bonzinho” por fraqueza, não é tarefa fácil. A autocrítica nem sempre está ao alcance de todos. A anomalia se desenvolve à espreita: despoja o afetado de lucidez deixando-o acreditar que ser “bonzinho” é bom. Nem sempre é.

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