Por que não nos sentirmos completos?

Simone Demolinari / 19/10/2017 - 11h47

Somos estimulados, desde novos, a buscarmos conquistas profissionais, pessoais, afetivas e familiares, como ideal de felicidade. Contudo, é estranho imaginarmos que mesmo aqueles que estão com todas as metas conquistadas ainda tenham uma sensação de que lhes falta algo. Uma espécie de “buraco” difícil de ser preenchido. A dúvida que fica é: tenho tudo que sempre sonhei, por que ainda assim não me sinto completo?

Penso que essa sensação de incompletude deriva de questões subjetivas inerentes à existência humana. São elas:

– Ausência de controle sobre os fatos da vida: temos que lidar com as incertezas, dúvidas e com a finitude da existência; não conseguimos conhecer nem controlar nosso futuro; somos incapazes de garantir o sentimento das pessoas que nos cercam. Todas essas áreas importantes, que não conseguimos controlar, nos deixam grande sensação de desamparo e vazio. Algumas pessoas, sobretudo aquelas que não lidam bem com essa impotência, tendem a se tornar indivíduos autoritários, ciumentos e dominadores: não conseguem controlar as grandes coisas da vida, acabam descontando nas pequenas.

– Medo da solidão: é outro fator que c<CW0>ontribui para nossa sensação de incompletude. Precisamos do outro para garantir que não estamos sós. O curioso é que parece que este medo está mais ligado à ansiedade do imaginário do que à real possibilidade de isso acontecer; a prova disso é que o medo persiste mesmo quando se está rodeado de pessoas. O medo da solidão desnuda uma importante faceta da fragilidade humana que, sem ter como suprir a própria necessidade, acaba por transferi-la `a outras pessoas.

– Medo da rejeição: se tem algo de que o ser humano tem verdadeiro pavor é da rejeição. Nesse quesito, parece que todos se igualam; ninguém quer ser rejeitado. Uns lidam um pouco melhor, mas outros sofrem profundamente quando saboreiam o gosto amargo de não serem aceitos. Muitos tentam diminuir a possibilidade de ser rejeitados dobrando a doação de afeto e tornam-se pessoas extremamente prestativas, solícitas, simpáticas, “boazinhas”. Mesmo quando não são.

– Necessidade de ser aceito: o conceito de “ser aceito” está ligado ao desejo de reconhecimento, que tem a ver com a vaidade. Indivíduos com essa necessidade possuem algumas características: falam muito de si, são sedutores, tem discurso de auto afirmação e exibicionismo, ainda que sutis.

Quanto mais maduro emocionalmente for um indivíduo, mais livre dessas “prisões” ele estará. Isso porque já se libertou da necessidade de controlar o mundo e os outros. Quando é surpreendido pelo destino, tolera melhor as frustrações sem culpa e sem despender energia desnecessária. Gosta de si e têm real dimensão do seu valor – por isso, a opinião alheia não lhes causa nem vaidade nem desconforto. Acaba tornando-se uma pessoa resignada e em paz, e isso é o que mais se aproxima da sensação de felicidade tão almejada.
 

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