Um olhar sobre si

Simone Demolinari / 28/12/2017 - 06h00

Final do ano nos convida à reflexão. Refletir sobre nós mesmos não é fácil, sobretudo pelo fato de nos tornarmos míope quando precisamos perceber nossos próprios defeitos. É sempre mais fácil e cômodo, aponta-los nos outros.
Umas das melhores auto-reflexões que já li, e escrevi sobre, foi guiada por um discurso muito sábio, feito pelo papa Francisco à cúria Romana. Ele chama de “doença” alguns comportamentos que precisam ser avaliados e modificados. Vale a releitura e a analise para verificar se estamos contaminados por essas enfermidades. 
–A doença do sentir-se imortal, imune ou indispensável: esta é a enfermidade daqueles que se sentem superiores aos outros. Muitas vezes, deriva do poder e do narcisismo que fixa à sua imagem. A estes, uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar. Ver os nomes de tantas pessoas que já partiram, algumas das quais pensaram talvez ser imortais, imunes ou indispensáveis, mas terminou a vida igual a todos. 
–A doença da má coordenação: quando os membros do corpo perdem a comunhão entre si, este perde a funcionalidade harmoniosa. É como uma orquestra que desafina quando seus membros não cooperam uns com os outros. Um diz: “não preciso de você para nada”; outro diz: “quem manda aqui sou eu”. Essa desarmonia pode ocorrer na família, entre amigos, entre cônjuges, etc. 
–A doença da esquizofrenia existencial: é a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica dos fracos. Criam, assim, um mundo paralelo, onde colocam à parte tudo aquilo que ensinam severamente aos outros, mas vivem uma vida oculta e dissoluta. 
–A doença das bisbilhotices, das murmurações e da fofoca: tudo começa com uma “inocente” troca de palavras, mas termina em difamação, intriga, e homicídio da fama dos colegas. É a doença das pessoas covardes que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas. 
–A doença do “endeusamento” dos superiores: é  a doença daqueles que cortejam os chefes, esperando, assim, obter vantagens. Vivem do oportunismo. Esta doença também pode ocorrer inversamente, quando os chefes cortejam alguns colaboradores para obter deles submissão, lealdade e dependência psicológica.
–A doença da indiferença para com os outros: quando alguém pensa somente em si, perdendo o calor das relações humanas. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde para si, ao invés de partilhar positivamente com os outros. Quando, por ciúme ou por astúcia, sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo.

Fim de ano somos estimulados à confraternizar e praticar caridade, duas atividades muito importantes. Porém, tão importante quanto, é conseguir confraternizar interiormente, buscando perceber, de forma sincera e honesta, nossos próprios defeitos, no intuito de avançar emocionalmente. 

Quando nos tornamos pessoas melhores, damos ao outro o melhor presente. 

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