Até quando a imprudência vai continuar matando ?

Sobre Rodas / 11/11/2017 - 06h00

Por mais que se tome os devidos cuidados, fatalidades fazem parte do cenário de nosso trânsito. Mesmo quando se adota um comportamento defensivo, deixando de lado o celular, respeitando a sinalização e evitando o consumo de bebida alcoólica, a quebra de um componente (o furo de um pneu, por exemplo), uma mancha de óleo ou a ação da natureza ­podem levar a acidentes com consequências trágicas. Diante do imponderável, realmente não há muito que se possa fazer.

O problema é que uma percentagem cada vez maior das estatísticas da carnificina nossa de cada dia nas ruas e estradas diz respeito à imprudência. Dois casos recentes, ambos em São Paulo, são exemplo: o de uma motorista de 28 anos que, depois de ingerir álcool, atropelou e matou três pessoas que tentavam resolver um problema em seu veículo no acostamento. E, no último fim de semana, o do manobrista de um bar conhecido na esquina mais famosa da cidade (Ipiranga com São João) – a bordo do SUV de luxo de um cliente, e também alcoolizado, atingiu um carro que prestava serviço para o Uber e matou um dos passageiros, um jornalista de 36 anos.

A reação mais imediata é a da indignação – a primeira responde em liberdade, apesar de todos os agravantes, enquanto do segundo espera-se toda a tramitação judiciária. E sempre é bom lembrar que esses são casos que ganharam notoriedade, diante de vários outros que não recebem o mesmo destaque. 

Há quem lembre, com toda a razão, que basta um momento de descuido para que uma pessoa de bem se torne protagonista de uma tragédia. Por outro lado, alguém que bebe e dirige, ou trafega falando ao celular, assume comportamento de risco. Na Itália, por exemplo, situações do gênero são automaticamente configuradas como tentativa ou homicídio doloso, em que há a intenção de atentar à vida de outro, sem atenuantes.

Com a experiência de quem sentiu na pele a dor da imprudência alheia – perdeu um filho atingido pelo então deputado estadual no Paraná Carli Filho, e fez da segurança no trânsito sua bandeira, a hoje deputada federal Cristiane Yared, do PR, apresentou projeto de lei que mantém o flagrante para os casos de motoristas alcoolizados que causarem mortes, mesmo que sejam detidos muito tempo depois. Nove anos depois da tragédia familiar, ela ainda espera por justiça.

Uma proposta louvável, embora ainda uma gota no oceano. Entupir as já superlotadas prisões de condenados por crimes no trânsito não necessariamente será a solução. A Justiça esbarra na lentidão e a legislação, além de pouco rigorosa, nem sempre é cumprida. Falta adotar medidas drásticas como a suspensão definitiva do direito de dirigir, ou a prestação de serviços comunitários e a compensação financeira, que não atenua a dor, mas ajuda quem fica a seguir a vida. A sensação de impunidade é o maior estímulo a desrespeitar a lei, ao passo que vê-la sendo cumprida a melhor forma de obrigar os cidadãos a andar na linha. Urgente, para que vidas e mais vidas não continuem sendo ceifadas em circunstâncias lamentáveis.

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