Direção, prazer e medo

Sobre Rodas / 28/10/2017 - 06h00

É cada vez maior o número de motoristas que afirmam ter perdido o prazer em dirigir por conta das mudanças no trânsito das grandes cidades e rodovias. O que não é de se estranhar, considerando que o número de veículos nas ruas cresceu de modo exponencial e, com isso, vieram vários problemas a reboque: congestionamentos constantes, mais dificuldades para encontrar vagas de estacionamento, o interminável para e anda, sem contar o comportamento nada elogiável de quem insiste em ignorar as regras e o que é ensinado nos centros de formação de condutores. 

Como já citei em outra coluna, os motoqueiros – não diz respeito ao tipo ou à cilindrada da moto, mas o comportamento ao guidão –, puxam a fila e, como diz a gíria, gostam de "tocar o terror". Mas a turma das quatro rodas também se supera a cada dia, desconhecendo regrinhas básicas como sinalizar as mudanças de direção ou respeitar as preferências. A famosa turma que também já foi tema deste espaço que, em vez da humildade de reconhecer o erro, prefere mostrar o famigerado dedo do meio. Nas estradas, o mau exemplo vem dos mais pesados, comandados única e exclusivamente com a preocupação do lucro, de perder o menor tempo e entregar a carga o mais rápido possível.

O problema é que hoje, mais do que nunca, o trânsito se tornou uma daquelas peças de esculturas de dominó: basta derrubar uma e todas as outras caem em seguida. Um pequeno erro ou demonstração de 'esperteza' provoca um efeito em cadeia muitas vezes com consequências tristemente devastadoras. E o que chama a atenção é o fato de que as condições gerais de ruas e rodovias melhoraram bastante (embora ainda a anos-luz do ideal). Seria para registrar um número menor de acidentes, o que não é o caso.

Muitos dos que se assustam com o cenário acabam encostando o carro, limitando seu uso aos pequenos deslocamentos, aos finais de semana e feriados, quando a situação, ao menos na teoria, é mais tranquila. Mas há quem precise insistir e acabe piorando o quadro. O amigo leitor já deve ter se deparado com alguém que demonstra insegurança a cada gesto, guarda distância maior do que a necessária de quem vai à frente, pensa em excesso até executar uma mudança de faixa ou conversão e, quando o faz, normalmente surpreende a todos que estão em volta.

Traduzindo, só aumentam o risco em um trânsito que cada vez menos dá margens a erro. Como a formação nunca será a ideal – muitas vezes ensina-se não a dirigir, mas a passar no exame –, fico pensando qual seria a solução. Há quem ofereça cursos para motoristas habilitados, o que é uma saída. O ideal mesmo seria a combinação entre um trânsito perfeito, sinalizado e fiscalizado; motoristas e motociclistas conscientes e cumpridores das regras, sem jeitinho. O que, infelizmente, não passa de utopia. Por essas e outras é que o medo vai levando a melhor sobre o prazer de dirigir...

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