A difícil arte de escrever sobre futebol

Thiago Pereira / 09/03/2018 - 13h51

Hoje a coluna assume um tom diferente, para falar de, bem, tom. Quem teve um bom último domingo de manhã (BELLUCCI & MARCOS, 2016), sabe que voltar ao jogo é apenas tentar recuperar a magia de superar os rivais, diante de todo aquele contexto. Falar de Campeonato Mineiro 2018 é tão simples que basta um desenho com a classificação atual.

Vamos em busca de desafios maiores, portanto, e o que proponho aqui é grande: escrever sobre escrever sobre futebol. 
Escrever, a gente sabe, tem a ver com uma porrada de ‘regras’, uma delas é evitar a redundância (tão fundamental para a TV ou o rádio), coisa que, como percebem, não estou fazendo aqui. Um dos motivos que justificam a escrita é o seu caráter de permanência. O texto impresso fica, e em vários suportes. A escrita merda, categoria em plena ascensão no mercado, fica mais ainda. E, como diria um professor de biologia: humanos conferem. Especialmente em tempos de sanitários digitais.

Aliás, na era da reprise, da reapresentação em youtubes, zapzaps, etc, tudo que é sólido não se desmancha mais pelo éter. O som ecoa por muito tempo, que o diga famoso crítico estabelecido de cinema que andou falando borrachas na transmissão do Oscar. Aí já viu: caiu na rede é peixe, leleá, a polícia memética vai golear!

Como eu estava falando, escrever exige picaretagens como essa, de arranjar conectivos cretinos para voltar a falar do tema central: escrever sobre futebol. Que aliás, é coisa difícil pra cacete, por aquele motivo que todo mundo sabe: num país onde o esporte faz noivas mudarem a data do casamento por causa de jogos decisivos, todo mundo sabe escrever sobre futebol. Se fazer jornalismo é também a tolerante (e por vezes intolerável) arte de ouvir “isso aí qualquer um faz”, evidentemente, quando o futebol entra na área, a coisa fica ainda mais difícil (ou mais fácil, depende do ponto de vista).

Ressalto aqui que não estou falando do chamado jornalismo informativo ou investigativo e sim do opinativo, aquele espaço nem sempre ocupado por especialistas da área, e que é visto frequentemente como uma cagação de regra abalizada, já diria meu amigo carioca. A coisa fica ainda mais complicada quando é o coração que orienta nossos textos, caso dos colunistas dedicados à um clube de futebol.

É aí que entra a maior tentação de todas: cruzar a linha que separa uma certa “suspensão moral” que plana, silenciosa, nos bares e nos estádios, dos obrigatórios – está lá nos manuais–, códigos de conduta informativos, tecidos para garantir a sua fidelidade a nós, caro, caríssimo, leitor. Em suma, geralmente começo mentalmente os textos dessa coluna colocando, logo de início, um pleno e delicioso ‘tomar no sul Galô’. Tem dias que, apenas pelo prazer do texto, como diria Barthes, até escrevo e deixo decantando na tela do computador.

Apago logo depois. Nem tudo que se sente, escreve. E nem tudo que se pensa, é um sentimento verdadeiro. 

Típico capricorniano, sou feito de pequenas porcentagens de racionalidade e 99% de rancor e desejo de vingança. Mas aquele 1% (BELLUCCI & MARCOS, 2017) sabe, mesmo desgostoso, que a beleza do futebol é também a rivalidade. Mais do que isso, é reconhecer que eu também “sou” meu oponente. Como lindamente provaram os colombianos no episódio da Chapecoense: a morte do meu rival é minha morte também.
Quero a vida sempre assim, com ele abaixo de mim. Mas preciso dele, de alguma maneira, e isso se materializa nas doses mínimas de respeito, que dão o tom ao escrever.

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários