A vida é desafio, a vida é loka

Thiago Pereira / 06/04/2018 - 06h00
Racionais MC's

Um dos meus discos favoritos em todos os tempos é “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia”, obra-prima dos Racionais MC´s. Muito além de sua força lírica (Mano Brown é um dos maiores letristas da música brasileira, desde sempre) e dos beats inesquecíveis depositados no álbum, reside ali uma espécie de mensagem que permeia todo o trabalho.

Trata-se de um potente tratado à esperança. 

Quem conhece a versão original do CD, sabe, por exemplo, que os dois discos são batizados de “Chora Agora” e “Ri Depois”. A primeira voz que escutamos no trabalho é Brown convocando o público a “acordar”. Logo mais, vem o hino “Vida Loka” que começa com os arrepiantes versos “Fé em Deus que ele é justo irmão, nunca se esqueça, na guarda guerreiro, levanta a cabeça”. Já no final do disco, vem com “Tudo vai, tudo é fase, irmão, logo mais vâmo arrebentar no mundão”; “É só questão de tempo, o fim do sofrimento” e por aí vai.

É uma coleção de cânticos negróides, de louvações periféricas, de hinos à fé e a crença no impossível–porque esse impossível parecia alcançável quando o disco foi lançado em 2004, num Brasil que parece cada vez mais distante. Era a fala do povão sintetizando séculos da cultura musical afrodescendente (o gospel religioso, o blues sofrido, a celebração funk, soul) na batida de quem tá ali, firmão, enfrentando o dia a dia. 

“Nada Como Um Dia Após o Outro Dia” é urgente para os dias de hoje. Para todos que acreditam que, mesmo estando numa merda sem fim, num poço que parece sem fundo, tudo tem um jeito, tudo tem um fim, tudo tem redenção.

Você sabe do que estou falando, não sabe, caro leitor? 

Esta foi a pior semana do ano. Deu tudo errado, não é?

Deu tudo errado, Ariel Cabral, volante de raça e técnica. O que está acontecendo, irmão?

Deu tudo errado, Henrique, eterno termômetro deste time. O que está acontecendo, líder?

Deu tudo errado, Egídio. Ah, Egídio...

Deu tudo errado, Fábio, Arrascaeta, Murilo, Léo, Thiago Neves, Romero, Sassá, Robinho, Rafinha, deu tudo errado todo mundo. 

Portanto, sugiro aos manos e ao Mano Menezes duas coisas para a preleção para o jogo no domingo. Primeiro, que ela comece hoje. Não há tempo para perder, não tem lágrima pra chorar. 

E segundo, coloque esse trabalho em loop, no repeat, sem parar. Tipo lavagem cerebral. Recolha as playlists dos jogadores, aquela seleta básica de sertanejão, funkzão, pagodão, gospelzão e até mesmo os rockões que o Rafael Sóbis deve escutar isolado da turma. 

Deixe de lado os esquemas táticos (bem, guarde uns minutinhos para montar uma guarda contra o Otero), as gritarias, os esporros, as estratégias psicológicas, a falação de todos. Deixa só o Brown falar.

Vamo acordar! Vamo acordar! Vamo acordar! 

O tempo não cansa, vocês pediram mais uma oportunidade, mais uma chance. Sou mais vocês nessa guerra. A preguiça é inimiga da vitória, o fraco não tem espaço e o covarde morre sem tentar. Cabeça erguida, olhar sincero, estão com medo de que? 

Nunca foi fácil. Juntem seus pedaços e desçam pra arena. 

Lembrem-se: aconteça o que aconteça, nada como um dia após o outro dia. 

E toda nova semana começa num domingo.

 

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