Essa estranha mania de ter fé na vida

Thiago Pereira / 13/04/2018 - 12h56

Enquanto escrevo essas linhas, encaro o pôster do Cruzeiro campeão de 2018, encartado na edição de segunda-feira do jornal. Ele faz companhia a outro, já meio amarelado, do dia 28 de setembro do ano passado, que celebra nosso penta na Copa do Brasil. Há muito cultivo esse hábito, de guardar as fotos impressas e jornalísticas de nossas glórias. Naturalmente, é uma coleção considerável, e que poderia ser ainda mais volumosa se eu considerasse os títulos mineiros. Esses, deixei de contar lá pelos idos de 1997. 

Mas fiz questão de guardar o jornal do começo da semana– mas do que isso, saí recolhendo uns exemplares que estavam meio soltos por aqui e empilhei pôsteres para presentear amigos, alunos e se bobear, até rivais. 

Porque esse foi especial, todos sabemos. Como disse meu colega Evaldo Magalhães, valoroso repórter deste jornal e celeste apaixonado, o jogo de domingo era uma oportunidade única, rara, de sermos “épicos”, como há muito não éramos. Fomos!

E olha: é do cacete a sensação de ser épico. Ser campeão é bom demais: somos uma nação que comemora títulos, e não jogos. Colecionamos taças, e não baboseiras de efeito (“Quando tá valendo...Blábláblá”) ou subpoéticas (”Enquanto houver uma camisa...Zzzz”) sonolentas para “mitificar” o imitificável. 

Mas, porra, ser campeão, sendo épico...aí é demais. Melhor perspectiva. Bobagem se ater aos detalhes do jogo, do que aconteceu no campo – em síntese, foi um baile. 

O que valeu no último domingo foram os entornos. A tensão de toda a semana, que atrapalhou o jogo que era realmente importante, pela Libertadores. A opção de todos nós em acreditar que aquele gol do Arrascaeta no Independência seria o primeiro da virada definitiva. A escolha da torcida em lotar o Mineirão sem pestanejar, e empurrar no grito os necessários gols que fizemos. 

Mas, principalmente, as veias saltando dos braços do Egídio (grande Egídio!) ao atravessar o cinturão popular celeste que cercava a entrada do Mineirão para saudar nossos guerreiros. A genial ideia do maestro Thiago Neves foi a materialização de tudo que o time precisava naquele momento; basicamente entender que a raiva é uma energia. 

Porque, do outro lado, falaram demais. 

Alguns jogadores até chegaram de fone de ouvido, mas tenho certeza que estavam escutando Racionais, como os leitores deste espaço bem sabem. Choramos antes, mas rimos depois. Coisa de Maria, gente que mantêm essa estranha mania de ter fé na vida, e sabe que isso garante uns pôsteres nas segundas-feiras mais difíceis. 

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