O pior cego é o que só vê a bola (e perde a dança)

Thiago Pereira / 22/12/2017 - 06h00

A coluna desta semana deveria, naturalmente, tratar do esperado sorteio de grupos da Libertadores da América, que aconteceu na quarta-feira e nos “premiou” com adversários do quilate do argentino Racing e da Universidad do Chile. Seria o segundo capítulo da série “Libertadores Ainda Que Tardia”, que pretendemos seguir aqui até dezembro de 2018, amém sejam todos os santos louvados.

Mas não é de futebol que falaremos aqui. 

Falaremos de balé.

Na última segunda-feira, o marketing celeste marcou um gol de placa, escalando para a posse do novo presidente do clube, a apresentação de “Tirambaço”, espetáculo de dança coreografado por Cassi Abranches, do Grupo Corpo, na cerimônia realizada no Cine Teatro Brasil. Não estive presente no evento, não sei como foram as reações da platéia que lá estava e nem é disso que se trata. 

Os aplausos automaticamente vão para a iniciativa. Muito além de qualificar a coisa toda como “ação de marketing” (justificativa semelhante foi dada à camisa rosa lançada pelo Atlético-MG alguns anos atrás) como se a proposta fosse apenas buscar polêmicos holofotes, unir Corpo artístico e corpo futebolístico é nada mais do que trazer à tona o óbvio: ambos se encontram no espetáculo e na capacidade do ser humano transformar o físico em expressão artística. 

E, no futebol, o pior cego é o que só vê a bola, já diria Nelson Rodrigues, cronista histórico do esporte.

E, infelizmente, o óbvio hoje vem precedido por cegueiras e violências de toda ordem.

Afinal, o encontro proposto na cerimônia apenas confirmou o que qualquer apaixonado pelo esporte sabe: futebol também é cultura, é cultivo da alma. É ver o gol, o drible, a defesa como arte e de sua dimensão humana, civilizatória e também mística e mágica. O futebol que prende o sujeito “comum” em casa ou no estádio na tardes de domingo é o mesmo que fez o brilhante artista plástico Rubens Gerchman pintar uma série inspirada em sua estética; é o mesmo que inspirou Nick Hornby a escrever o delicioso romance autobiográfico “Febre de Bola”; é o mesmo que fez de Tostão, Sorín ou Alex, com suas jogadas, parecerem seres de outro mundo.

Ou seja, sublinho aqui a percepção oposta à reação que pudemos acompanhar nas redes sociais à iniciativa do Cruzeiro.

Desnecessário fazer uma seleção do que foi repousado nas caixas de comentários, mas você já pode imaginar que os insultos tinham como centro temático “Balé é coisa de viado”, e todas as suas possíveis variações neste contexto –entre elas uma profusão de “Marias”, “Lourdinhas” e demais caracterizações que sinalizam inferiorizar o feminino, típicas de nossa fragilíssima masculinidade. 

Naturalmente, tais declarações vieram de atleticanos em festa, cruzeirenses revoltados e muitos mais. A bestialidade veste confortável o manto de qualquer clube: é o típico espelhamento online do que vemos, frequentemente, nas ruas após os jogos, nas batalhas campais, no sangue derramado fora de campo antes de cada clássico em BH. 

“No futebol é assim mesmo”, me sopra o fácil argumento da “História”. Mas já gastamos muito tempo guardando o futebol na gaveta da imbecilidade, como se a única coisa que ele tivesse a oferecer fosse o circo para uma população bárbara. Sempre é tempo de mudar. Com mais Cruzeiro, mais balé, mais espetáculo, sempre.

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