Os feios que me perdoem, mas beleza é fundamental

Thiago Pereira / 16/02/2018 - 17h14

Nada como inaugurar– e ao mesmo tempo respeitar –uma tradição logo no começo do ano, início de temporada. Campeonato mineiro é, tradicionalmente, aquele remédio genérico, meio paliativo, para curar a imensa ausência que é ficar sem ver o Cruzeiro jogar durante alguns dias em dezembro e janeiro. Apenas nesta época do ano o coração bate mais forte, a cerveja desce mais gelada e os ânimos conseguem se exaltar diante de partidas do esquadrão azul contra alguns times do interior.


Todo respeito a eles, friso. Para mim, são a segunda grande justificativa de existir o Estadual. Futebol também deve ser democracia, espaço e chance de visibilidade para todos. Entendo que este calendário do primeiro semestre é vital para eles, por isso defendo-os. Mas obviamente, não dá para comparar com um domingão glorioso de Brasileirão, menos ainda com os confrontos mágicos que a Libertadores proporciona.

Nem colocarei muita pilha na campanha que o Cruzeiro está fazendo no Mineiro: depois chegam os mata-matas e sabemos que tudo pode acontecer. E na real, na real mesmo, o coração celeste está sintonizado é com o dia 27 de fevereiro, quando estrearemos na Argentina contra o Racing, nossa campanha que batizei aqui de “Libertadores Ainda que Tardia”. Tenho confiança que mudaremos o lema da bandeira de Minas gerais no final.

Mas, cá pra nós, 2018 tem sido especial, desde o início. Veja bem: nossa última partida foi numa ingratíssima sexta feira pré-carnaval, nove e meia da noite. E mesmo ali, num joguinho que tinha tudo para ser esquecido, nosso Cruzeiro nos deu diversão e alegria. Lembremos da partida que o Fábio fez, daquelas para cimentar ainda mais nossa convicção de que ele protagoniza uma das maiores injustiças da história do futebol brasileiro, sua ausência da seleção. E lembremos, principalmente, dos gols do jogo. Justamente de dois novatos. Mancuello, com um belo chute de fora da área, o famoso de primeira. Nem o desvio no adversário conseguiu macular a beleza do tento. O segundo, de Marcelo Hermes, lembrou as genialidades que seu xará de nome e colega de posição lá de Madrid costuma fazer. O famoso foi indo, foi indo e só parou com a bola na rede.

Mas o atento leitor já sabe exatamente do que vamos falar aqui. O título da coluna de hoje não descansa impunemente no alto da página. Este começo de ano já vale muito, só por causa do gol do Arrascaeta contra o América. Vamos combinar: é um dos gols mais espetaculares de nossa história, forte candidato ao tento mais sensacional que alguém marcou com a camisa celeste nos últimos, sei lá, dez anos? Compete com aquela placa que o Everton Ribeiro soldou no Mineirão contra o Flamengo, em 2013, ou aquele golpe de karatê transfigurado de gol que o Niltão anotou contra o Botafogo, no mesmo ano.

O que o uruguaio fez foi o que a geração nutella de hoje chamaria de “gol de videogame”, aquelas coisas que moleque acredita que só vai assistir em um dia que estiver inspirado jogando em frente à TV, queimando os dedos nos consoles.

O que Arrascaeta fez, foi driblar a física, modificar a relação espaço-tempo que habitualmente nos rege. Flutuou no ar, enquanto todo o mundo mantinha os pés no chão; modificou a rotação do relógio, como se por aqueles micro-segundos, os ponteiros se locomoviam em slow motion, só para ele. 
Encerrado o momento, aplaudimos, atônitos, como se faz com toda obra que possuí beleza demais. Placa no estádio é pouco: pode pendurar aquele gol no Louvre e rebaixar a Mona Lisa!

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