Pequeno inventário afetivo celeste: Boiadeiro

Thiago Pereira / 15/12/2017 - 06h00
supercopa

Dia desses um dos meus programas esportivos favoritos na televisão, o Resenha ESPN, teve a ótima ideia de convidar um dos maiores ícones da história relativamente recente do Cruzeiro, o que me inspirou a fazer aqui mais um capítulo das minhas memórias afetivas. 
Salve Marco Antônio Boiadeiro!

Meia extremamente talentoso, que combinava técnica apurada, visão de jogo e raça, hum, bovina, Boiadeiro nasceu para jogar no time celeste. Afinal, poucas odes à um jogador de futebol são tão perfeitas quanto “Boi, Boi, Boi/ Boi, Boiadeiro/ Vê se faz um gol/ Pra torcida do Cruzeiro”. Pensando bem, acho que apenas “Eu vou beber/ Beber até cair/ Montillo vem aí”, saudando a chegada do argentino, tempos depois, é páreo para este cântico.
Campeão brasileiro pelo Vasco em 1989, Boiadeiro chegou ao Cruzeiro dois anos depois, e se tornou um dos maiores símbolos de uma década que pode ser vista como a reconstrução da moral do time. Com ele, levantamos duas míticas Supercopas, um Estadual e nossa primeira Copa do Brasil. 

O meia foi responsável por alguns dos passes e lançamentos mais bonitos e precisos que minha infância celeste presenciou. Grudado na retina está uma jogada genial, contra o temido Racing, no campo rival, em que ele saí do campo de defesa e saí deixando argentinos (e suas chuteiras e carrinhos letais) para trás, pra finalizar com um chute de cobertura que–ah– o goleiro pegou. 

Mas o grande momento da minha história com Boiadeiro é, na verdade, um capítulo triste. Para os dois. No dia 27 de junho de 1993, eu estava vivendo um dos maiores momentos da minha então gloriosa carreira de pivô de futebol de salão. No campeonato da minha escola, o saudoso Tropical, comandei com garra um time que era francamente inferior aos adversários. 

É possível que colegas de vadiagem do Minas Brasil, bairro onde cresci e que sediava este que era meu templo sagrado, meu Camp Nou suburbano, venham a ler esta história e a desmintam, mas não dê crédito a estes bastardos fiel leitor. 

Inspiradíssimo, fui marcando gols e mais gols, até chegar ao que parecia impossível: o jogo final. Partida duríssima, zero a zero no placar. Penâltis, que grande merda. A arquibancada da quadra estava lotada, com pais (os meus inclusos) e possíveis paixonites da quinta série, torcendo por seus pequenos craques e futuros namorados. 

Metido à líder, coube a mim a última cobrança, o desempate final. Olhos fechados, isolei a pelota para o teto da bagaça. Silêncio mortal no lugar, que só acabou com meu choro de desespero. Na frente de todo mundo. 

Foi, basicamente, um spoiler: minha vida tem sido uma grande repetição desde episódio, basicamente.

Juro que, no mesmo momento, a TV da cantina mostrava Marco Antônio Boiadeiro desperdiçando um penal contra a Argentina, que nos eliminaria da Copa América daquele ano. De novo, um maldito goleiro portenho (no caso, o impressionante Goycochea) defendeu o chute, que possivelmente, definiu as chances do talentoso Boiadeiro fazer parte da campanha do tetra, na Copa do ano seguinte.

Como essa história merece um final feliz–pelo menos para ele– adivinhe o que nosso herói se tornou, gastando seus merecidos capilés da aposentadoria, depois de honrar nossa sagrada camisa? 

Dono de fazenda, ora bolas!

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