Placares que só Freud explica

Thiago Pereira / 01/12/2017 - 06h00
6 a 1

Gol de placa a matéria feita pela equipe deste caderno no início da semana, relembrando dois momentos marcantes do futebol mineiro. Um mais que o outro, evidentemente: não é possível comparar seriamente o 6 X 1 aplicado pelo Cruzeiro no rival com o tal 9 X 2, realizado em 1900 e nada-existia-ainda, contra o Palestra Itália. 

A questão é simples de resolver: um “inventou” o outro, o que já dá a devida importância para os acontecimentos.

Veja bem: sou cruzeirense há 35 anos. Boa parte deles, convivendo pacificamente e caridosamente com gente (alguns, grandes amigos) que fizeram a escolha esportiva errada. E, dono de memória razoável, até meados de novembro de 2011, NENHUM deles sequer tinha noção da existência de tal jogo. Natural, já que se trata de algo disputado na idade média do ludopédio nacional, e estamos falando de uma memória que existe apenas a partir de 1971. Claro, me refiro a minha geração, mas, honestamente, mesmo convivendo com algumas pequenas enciclopédias, de ambos os lados, NUNCA, em nenhum papo, se registrava esse placar.

Curioso, mas como diria a canção de Zé Ramalho: Freud explica. Um dos conceitos centrais da psicanálise, que interessava muito ao velho teórico austríaco, é a noção de recalque. E recalque é palavra-chave no glossário rival.

Numa definição bem grosseira, trata-se de uma espécie de defesa do sujeito em relação à algo que oprime seu ego. A rejeição de determinados acontecimentos– por exemplo, acreditar que a tarde mágica em Sete Lagoas se deu porque o time era “vendido”, ou porque o jogo foi “comprado”, etc– seria uma forma de negá-los inconscientemente, bloqueando, assim, os conflitos geradores de angústia. 
Conflitos, neste caso, que tem nomes: Roger, Wellington Paulista, Leandro Guerreiro, Everton, Fabrício e Anselmo Ramon. Juntos, compõem a maior humilhação já presenciada na história do futebol mineiro, o argumento definitivo (junto com a coleção de taças) de que existe apenas um grande time na cidade. Acontece que, o inconsciente é foda, amigo, e não é possível se esquecer daquele dia. Não se apaga do cérebro o maior e mais dramático clássico de todos. A chance única de Davi derrubar Golias. 

Só que Davi terminou o dia chorando na cama, que, todos sabem, é lugar quentinho. 

O inconsciente então, berrou. Como não especialista, peço assessoria teórica-celeste ao querido amigo psiquiatra Fernando Siqueira (aproveito para indicá-lo para os alvinegros que necessitam tratar dessa questão), que me diz que “o recalcado volta a partir de um momento de trauma; ‘faz sintoma’, como diria Freud”. Uma das formas de sintomatizar é “relembrar experiências infantis, por exemplo”. 

Assim se dá o chamado retorno do recalcado, uma forma de obter algum tipo de satisfação, por vezes nos sonhos ou na neurose histérica. Transtornados mentalmente, a forma de se apoiar no real é buscar satisfação em um placar que, até então, simplesmente não existia. Foram todos buscar, na alvorada do futebol mineiro, na infância dos dois times, algo para se consolar. 

Encontraram, em árduo (mas habitual) trabalho arqueológico, o que estava escondidinho no rodapé da história, que, assim, do nada, retorna, gloriosamente, vestido como um argumento tosco que, sabemos todos, não cola e não colará. Já a grafia 6aIo é eterna e mora num mundo onde já existe registro em vídeo e YouTube. Que, pra falar de questões psiquicas, anti-depressivo melhor não há. 

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