Moraleida, arte e resistência

Wadson Ribeiro / 12/10/2017 - 06h00

Uma onda de censura e perseguição à cultura toma conta do país. Um movimento obscurantista que já condenou exposições de artes plásticas, peças de teatro e outras manifestações artísticas. Não é algo espontâneo, faz parte de uma bem articulada ação conservadora que se sustenta por mentiras propagadas nas redes sociais. Um objetivo mais rasteiro é disseminar o ódio para ser transformado em dividendos eleitorais por alguns políticos oportunistas, religiosos fundamentalistas e grupos assumidamente reacionários.

O primeiro sinal da intolerância assombrando a arte veio de Porto Alegre. Uma exposição de arte foi cancelada, após uma onda de protestos de conservadores. Dali pra frente, dezenas de outras perseguições aos artistas se espalharam pelo Brasil afora. Em Belo Horizonte, este movimento intolerante se voltou para a exposição ArteMinas, em que participam obras de artistas como Pedro Moraleida. É realizada no Palácio das Artes, local adequado para as manifestações artísticas.

A obra de Moraleira, elaborada quando tinha 20 anos, é uma surpreendente e realista explicitação das angústias, incertezas e temores, perante este mundo em mutação e as fragilidades do adolescente com suas pulsões humanas. Se tem imenso valor como reflexão importante e atualíssima, mais ainda, pelo que acarreta de discussões e reflexões sobre sua temática e suas denúncias. Classificá-la de pornográfica é uma visão primária, tosca e desprovida de qualquer capacidade de compreensão, de solidariedade humana, de negação das idéias e recusa do entendimento das dimensões espirituais e de criatividade da arte.

O que vimos em Minas é uma reação forte de vários setores, artistas plásticos, jornalistas, produtores de cultura dos diversos segmentos que, em grande número, acorreram ao Palácio das Artes em defesa do livre pensar, da liberdade de criar, sem o que não ocorre a arte. Na verdade, a polêmica em curso serve para aclarar o fenômeno conservador de setores fundamentalistas religiosos como de outros integrantes de grupos de orientação política que podemos classificar como fascistoides, pelo radicalismo de suas posições e idéias. Torna-se claro, até pelo caráter destas manifestações conservadoras, que elas se aproveitam do momento vivido pelo País no pós-golpe, que coloca em curso uma pauta regressiva e que tem como um dos seus aspectos mais perversos o ataque aos direitos humanos.

Mas, e certamente, estes setores não sabem disto, que não é possível calar a arte tanto quanto não é possível sufocar o pensamento ou atropelar o curso da história. Sem arte e livre pensar não há evolução humana, em quaisquer campos de atividade. A arte é que conforma as leituras do mundo, exerce a função crítica inerente às mutações, formula novas concepções e permite avanços e transformações. A reação de Belo Horizonte se transforma em exemplo e paradigma.

O momento exige solidariedade com artistas, criadores e produtores de cultura, certos de que sua reação é exemplo de consciência crítica, de cidadania, de exercício pleno da democracia, mas também em nome da boa discussão e do diálogo produtivo, quando exercidos em bases de uma indispensável racionalidade e boa fé. De resto, esta resistência é fundamental para contribuirmos para superar a onda reacionária e anti-patriótica que hoje nos leva a um retrocesso político e cultural.

Na sua tricentenária História, Minas Gerais se distingue, em vários episódios de sua luta por afirmação, autonomia e construção da nacionalidade, pelo caráter libertário e irredentista. A liberdade tem sido lembrada por muitos como a síntese de Minas e define muito bem a identidade dos mineiros. Há que se defender o direito à mostra de Moraleida contra qualquer censura obscurantista. 

 

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