A adição de um vegetal nativo no Norte de Minas a um dos sanduíches mais apreciados pelos brasileiros promete solucionar, ou no mínimo amenizar, um problema de saúde recorrente sobretudo em crianças. Pesquisadores do Instituto de Ciências Agrárias (ICA) da UFMG, em Montes Claros, incrementaram o preparo de um hambúrguer de frango com óleo de buriti, a fim de suplementar dietas pobres em vitamina A e evitar doenças de pele e nos olhos. 

Feito com duas concentrações do óleo (4% e 8%), o experimento mostrou que ao consumir apenas uma unidade diária da carne, crianças conseguiriam obter entre 53% e 100% do total de vitamina recomendado por dia. Em homens adultos, o alimento funcional poderia suplementar o nutriente em até 31% e em mulheres, em 40%. 

Responsável pelo estudo, a nutricionista Luana Leão explica que o próximo passo é aprimorar a receita – feita inicialmente somente com carne de frango, cebola e alho desidratados –, aumentando a aceitação do público, e buscar incorporá-la à merenda em escolas municipais da cidade e da região. 

Buritizeiros podem chegar a 35 metros de altura; as árvores desenvolvem-se em terrenos com grande oferta de água, 
às margens de rios e em áreas inundadas

“Fizemos uma receita bem básica, com poucos ingredientes, justamente para facilitar a reprodução por quem desejar. Se a pessoa tiver a carne de frango em casa e o fruto, já vai conseguir um preparo mais saudável e evitar doenças. Ainda assim, o óleo modificou sensorialmente as propriedades do hambúrguer”, detalha a pesquisadora.

Óleo de buriti no hambúrguer

Receita criada pela nutricionista Luana Leão (à direita) alterou pouco o sabor do preparo original

Baixo custo

Engenheiro agrônomo e professor no ICA, o orientador da pesquisa, Ernane Ronie Martins, diz que a receita é uma opção de suplementação de baixo custo e, portanto, acessível. 

“A ideia é propor uma alternativa regional e que possa ser usada na alimentação especialmente de crianças. A carne de frango, além de saudável, é barata. Já o óleo e pequenas concentrações do óleo são bastante acessíveis”, afirma. 

De acordo com a nutricionista e pesquisadora Luana Leão, crianças devem consumir de 300 a 600 microgramas de vitamina A por dia – o equivalente a uma cenoura média. Homens adultos, 900 microgramas, e mulheres, 700. 

A adição de 4% de óleo em cada hambúrguer foi capaz de fornecer 160 microgramas do nutriente, e de 8%, o dobro. Por ser um antioxidante natural, o óleo de buriti dispensou a adição de conservantes sintéticos à receita. 

O óleo de buriti adicionado à receita ajudou a retardar a deterioração da carne, que leva à alteração de sabor 

Óleo de buriti no hambúrguer

Receita levou duas concentrações diferentes do óleo: 4% e 8%

Atividade fortalece cadeia produtiva no Norte de Minas

Matéria-prima de cosméticos voltados para proteção e hidratação da pele e poderoso antioxidante natural, o buriti – palmeira nativa no Norte de Minas – tem se mostrado polivalente quando o assunto é saúde.

Professor no Instituto de Ciências Agrárias (ICA) na UFMG, em Montes Claros, Ernane Ronie Martins diz que um dos principais motivos para o uso do insumo na pesquisa é dar apoio à cadeia produtiva no Estado. 

“O fruto in natura tem alto valor nutricional, mas dificilmente chega às cidades por ser muito perecível. Escolhemos, então, utilizar o óleo como forma de apoiar a cadeia produtiva iniciada na região para atender, inicialmente, à demanda da indústria de cosméticos”, explica. 

O engenheiro agrônomo reforça que o uso do insumo na confecção dos hambúrgueres é uma alternativa à atividade da indústria cosmética na região. “Poucas vezes damos valor à nossa biodiversidade, pois temos uma alimentação muito dependente de espécies exóticas. Essa é uma chance imperdível de aproveitar algo que é nosso”. 

Óleo

Orientador da pesquisa, Ernane Martins explica que o uso do óleo e não do fruto na receita foi uma decisão tomada com vistas à aceitação do gosto e do aspecto do hambúrguer. “A polpa seca ou a raspa afetariam a textura, devido à grande quantidade de fibras presentes. Também seria necessário adicionar um percentual mais alto para ter a natureza de um alimento funcional”, detalha.

Conforme o pesquisador, o óleo concentra todas as substâncias desejadas e é de fácil manipulação, contribuindo para a conservação do produto por ser antioxidante.

Buriti palmeira

Fruto é abundante nas regiões Norte e Nordeste do país, além do Distrito-Federal e de Minas

Além disso:

Nutriente indispensável para garantir não só a boa visão, mas o crescimento adequado e a diferenciação dos tecidos que recobrem os órgãos do corpo humano, incluindo os olhos, a vitamina A não é produzida pelo organismo. Por este motivo, é necessário ingeri-la por meio de uma alimentação equilibrada e rica em alimentos como os de cor alaranjada, fontes de betacaroteno. 

A deficiência clínica do nutriente pode acarretar problemas visuais, como a xeroftalmia, conhecida como doença do olho seco. O principal sintoma da enfermidade é a produção alterada (ou a falta) de lágrimas e, portanto, a secura da pele do olho e da córnea. O problema é mais comum em crianças. 

A doença provoca, principalmente, a cegueira noturna, situação em que o paciente não consegue se adaptar a ambientes com pouca luz. Já a deficiência sub-clínica do nutriente pode se manifestar por meio de diarreias e problemas respiratórios.

Dentre as principais fontes de vitamina A estão fígado de boi, gema de ovo, folhas verde-escuro, como espinafre e couve, além de vegetais e frutas alaranjados, como manga, mamão, cenoura, pequi, dendê e o próprio buriti. Uma das estratégias utilizadas pelo Governo federal tem sido a fortificação de alimentos consumidos no dia a dia. Em Minas Gerais, por exemplo, a Embrapa Milho e Sorgo faz o melhoramento genético em feijão, enriquecido com ferro e zinco, e milho, mandioca e batata-doce, que têm dose extra de betacaroteno.

17 milhões de crianças brasileiras com menos de 5 anos têm deficiência de vitamina A, segundo estudo da Unimontes e da Faculdade Ibituruna, de Montes Claros