Dolly, Mindy e Susy são nomes de três dos dez animais de estimação da universitária Karoline Michele Vieira, de 22 anos. Poderia, sim, ser um trio de cachorros ou gatos, considerando que, quando se fala em bichinho de estimação, geralmente são os que vêm à cabeça. Mas a belo-horizontina contraria as estatísticas. Diferentemente dos 74 milhões de brasileiros que, conforme o IBGE, têm em casa dois dos bichos domésticos mais comuns em território nacional, ela escolheu cuidar de... ratas! E não está sozinha quando o assunto são pets, digamos, fora do convencional. 

Em Belo Horizonte já tem até clínica especializada no atendimento dos “diferentões”. A procura, garante o proprietário da Zoovet, tem crescido. “Grande parte deles se adapta muito bem a espaços pequenos, compatíveis com a criação em apartamento e casas cada vez menores. O aumento é notável, tanto que montei uma clínica”, explica Pablo Pezoa, médico veterinário especialista em animais exóticos.

Karoline endossa a praticidade no trato do trio de ratinhas e, para completar o time, mantém em casa seis galinhas e um galo, o mascote da casa – um garnizé de 4 anos. O amor pelos pets é tanto que, recentemente, a estudante desembolsou sem pensar duas vezes cerca de R$ 2 mil num tratamento de saúde para Luffy, galinha de 5 anos. 

“Sempre gostei dos bichos que as pessoas rejeitavam. O Nicky e as galinhas são super carinhosos e é nítido o vínculo que têm comigo. Já as ratazanas são diferentes entre si, mas muito especiais. Dormem no meu colo, atendem pelo nome e vêm no ombro”, comenta a jovem, que planeja aumentar a família. 

Os cios das ratas acontecem a cada cinco dias, daí a importância de mantê-las longe de machos

Pets exóticosEstudante de medicina veterinária, Karoline prefere animais "rejeitados" por outras pessoas: "as ratas são especiais, atendem pelo nome, vêm no meu ombro e sinto que têm um vínculo comigo"

Higiene

Para quem ficou curioso sobre a higiene das “meninas”, Karoline avisa: “São parecidas com os gatos, se limpam e são super higiênicas”, afirma. Manter a casa em ordem não é tarefa difícil, diz ela. As ratas ficam em gaiolas, limpas ao longo do dia, e são soltas por algumas horas, sob supervisão. 

As aves, por sua vez, passam boa parte do tempo no quintal. Exceções são Luffy, isolada enquanto se recupera do problema de saúde, e Nicky, que dorme até na cama.

Controlar a higiene de animais exóticos e socializar com eles pode parecer trabalhoso. Só para quem não tem intimidade com o assunto, garantem os tutores. “Filho” único da engenheira civil Sheila Sousa Magalhães, de 28 anos, Algodão, de 2, é um “coelho diferenciado”. Ao contrário dos bichos da mesma espécie, não deixa sujeira por onde passa. “Só faz xixi e cocô numa chapa de aço vazada, revestida com feno”.

Pets exóticos"Mãe" de Algodão, coelho de 2 anos, Sheila garante que o animal é limpinho: "só faz xixi e cocô no banheirinho dele, uma chapa de aço revestida com feno

No dia a dia, é fácil de conviver, não fosse o ciúme e a desconfiança. “Ele gosta de receber carinho, mas quando percebe que está perdendo espaço, fica bravo, assim como quando muda a rotina”, comenta Sheila, acrescentando que “ um lugarzinho que seja só dele é suficiente para o pet.

Tanto ratos quanto galinhas e galos devem ser alimentados com ração específica para as espécies

Chinchilas são independentes, práticas e convivem bem com outros bichos de estimação

Donas de um dos pelos mais cobiçados e caros do mundo, as chinchilas também são desejadas como bichos de estimação, sobretudo por quem gosta de animais independentes e práticos. Caso da enfermeira Karina Monteiro Vieira Machado, de 41 anos, que tem um casal – Houdini e Ivory, de 8. 

Dentre as qualidades destacadas por ela no roedor originário dos Andes estão personalidade forte e higiene. Com temperamento muitas vezes parecido com o dos gatos, aceitam carinho somente enquanto querem e dispensam excesso de zelo com banho e limpeza. “Eles até sobem no colo, mas no tempo deles. Gostam mesmo é de explorar. Sobre o banho, é a seco, com pó de rocha, pelo menos duas vezes por semana”, detalha. 

Convivência

De fácil convivência, se dão bem também com outros pets, a exemplo do quarteto de calopsitas que vive com Karina e o marido, Alexandre. A escolha das aves, adquiridas recentemente, conta a enfermeira, foi um caso de amor à primeira vista. “Fomos à clínica comprar uma só e acabamos saindo com as quatro. O veterinário explicou que são aves super sociáveis e que levar mais de uma faria bem para elas”, relembra. 

Igualmente práticas, requerem alimentação adequada – ração específica e água –, além de um recinto limpo. Quando acostumadas desde cedo à convivência com humanos, são dóceis e podem, inclusive, ficar soltas em casa.

Pets exóticos

Chinchilas e calopsitas, pets eleitos pela enfermeira Karina, são fáceis de lidar, dóceis e econômicos

Animais devem receber alimentação e cuidados especiais, além de ir anualmente ao veterinário

Especialista em animais exóticos e proprietário da Zoovet Clínica e Consultoria, em Belo Horizonte, o veterinário Pablo Pezoa reforça a importância do conhecimento antes de adquirir um animal não convencional como pet. Alimentá-los com produtos adequados à espécie, ficar atento às necessidades específicas de cada um e levá-los a consultas pelo menos anuais são alguns dos cuidados fundamentais.

Coelhos, por exemplo, apresentam crescimento permanente de todos os dentes e não somente dos incisivos, explica o profissional. Daí a importância de ter conhecimento sobre a melhor forma certa de nutri-los, do contrário podem, inclusive, parar de comer. 

Nos ratos, somente os dentes da frente têm desenvolvimento permanente. Para esses casos, há brinquedos vendidos em petshops e que ajudam a desgastá-los. 

No trato com as galinhas (e galos), vale o mesmo cuidado. Diferentemente das poedeiras, criadas com objetivo financeiro, as pets devem ser alimentadas com ração específica para animais domésticos da espécie. “A abordagem é completamente diferente da que temos com animais de granja”, reforça Pezoa, que chega a atender cem pets exóticos por mês na clínica no bairro Santo Agostinho, Zona Sul de BH.

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Roedores, como as chinchilas, apresentam crescimento permanente dos dentes, por isso precisam ser examinadas por um especialista, recomenda o veterinário Pablo Pezoa, da Zoovet, em BH

Como humanos

Dia a dia mais populares em função, principalmente, do comportamento dócil e amistoso, as calopsitas podem, ou melhor, devem receber tratamento humanizado dos donos. O motivo, explica o médico veterinário, é que elas costumam reproduzir os hábitos do local onde vivem. Isso explica, por exemplo, porque não voam. 
“Pode ser interessante que elas tenham um outro animal semelhante para conviver, mas não é fundamental, pois elas provavelmente ainda vão preferir a companhia dos donos”, enfatiza Pablo Pezoa. 

Além disso:

Registrada ou não pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), qualquer espécie animal tem direito a atendimento médico veterinário, conforme resolução publicada em 2006 pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).

De acordo com o texto, tutores de animais não legalizados devem ser orientados pelo profissional a fazê-lo e informados também sobre a proibição de manter em cativeiro espécies em extinção ou ameaçadas – todas listadas pelo órgão federal. 

Espécies exóticas oriundas de outros países também requerem autorização específica do Ibama para serem criadas em território nacional, caso da cobra snake (ou cobra do milho), originária dos Estados Unidos, e do hedgehog (tipo de ouriço), da África do Sul. Chinchilas custam entre R$ 200 e R$ 600 e vivem cerca de 15 anos. Mansas, devem ser mantidas em gaiolas e soltas algumas horas por dia

Chinchilas custam entre R$ 200 e R$ 600 e vivem cerca de 15 anos. Mansas, devem ser mantidas em gaiolas e soltas algumas horas por dia