Os gestos, peculiares, podem causar estranheza ao espectador (ou praticante) pouco familiarizado com o tema, mas nada que uma hora de aula não resolva. Caracterizado por movimentos corporais bastante específicos – feitos com olhos, pescoço, braços, pernas, mãos, pés e até com a coluna –, o Método Feldenkrais, ainda pouco conhecido no Brasil, é um processo de aprendizagem somática com vastos benefícios para corpo e mente. 

Melhoria da respiração e da postura, redução do cansaço, aprimoramento de movimentos cotidianos e eliminação da tensão muscular e de dores crônicas são alguns deles. Além disso, aumenta a espontaneidade, melhora a autoestima, ajuda na reabilitação de lesões e ainda aumenta a consciência corporal de pessoas acometidas por doenças degenerativas. 

Uma das premissas é desenvolver a atenção plena, diz a uruguaia Jimena Castiglioni, integrante do trio Feldenkrais BH. Em grupo, as vivências são conduzidas por ela e outros dois profissionais credenciados pelo Feldenkrais internacional. Num ambiente silencioso, com voz baixa e suave, um deles indica os movimentos e sensações que devem ser experimentados por cada aluno, começando pela percepção do corpo sobre o solo e partindo, então, para os movimentos de cada membro, começando da cabeça e chegando até os pés. 

“Hoje em dia, qualquer técnica de meditação tem o mindfulness como pano de fundo. É uma prática que cresceu muito rapidamente. As pessoas estão precisando parar, se concentrar e se perceber. Esse é um dos objetivos do Feldenkrais, que, independentemente do motivo da busca, promove conscientização e o despertar para uma nova qualidade de vida”, define Jimena. 

Redescoberta

Praticante desde 2013, a aposentada Cibele Fonseca de Morais Caporalli, de 63 anos, diz que “descobriu a coluna” ao iniciar as vivências em grupo. “É uma malhação inconsciente. Descobri reflexos da minha coluna sobre o corpo e passei a ter mais respeito por ele. Além disso, comecei a experimentar uma sensação de relaxamento que, até então, desconhecia”, revela. 

A psicóloga Juliana Ferreira, de 44 anos, buscou o método como tratamento complementar para uma lesão no quadril. “Participei de um workshop de uma semana e experimentei um bem-estar geral. Sentia detalhes da fisiologia do corpo e o percebia por completo. No dia a dia, os resultados foram mais flexibilidade na execução dos movimentos, melhorara nos desconfortos físicos, uma postura mais alinhada e uma entrega total ao relaxamento”, detalha. 

Nas vivências individuais, ao contrário das coletivas, em que o aluno é autor da própria experiência, há manipulação do corpo e condução dos movimentos pelo profissional habilitado no método

Tomada de consciência

“A aula, em grupo, é chamada de consciência para o movimento. Conduzimos a experiência verbalmente com o objetivo de levar o aluno a explorar suas direções e tomar consciência sobre como as coisas estão acontecendo dentro de si mesmo”, detalha o coreógrafo e dançarino Alex Dias, outro integrante do Feldenkrais BH. 

Após uma primeira “rodada” de dinâmicas, os participantes são levados a retomar os movimentos iniciais com o objetivo de perceber eventuais mudanças geradas pela consciência individual.

“O método acaba se transformando em um trabalho terapêutico, em função de um processo de aprendizagem, ou seja, não é ele que vai curar, mas a forma como cada indivíduo desperta para a própria consciência”, esclarece Bárbara Penido, a terceira integrante do grupo de Belo Horizonte.

Bárbara ressalta que as vivências possibilitam transformações de padrões posturais, de pensamentos e até das emoções experimentadas pelos praticantes.

“Entendemos corpo e mente como uma unidade, daí o motivo de tantas mudanças positivas”, enfatiza.

O método também pode ser experiência do em vivências individuais, denominadas Integração Funcional. Nelas, o paciente é diretamente conduzido pelo profissional. 

Método Feldenkrais
Professor não ensina os movimentos, apenas conduz os praticantes por meio da fala

Formação profissional tem duração de quatro anos

A formação profissional no Método Feldenkrais tem duração de quatro anos. No Brasil, cerca de 80 pessoas estão aptas a conduzir as vivências, três delas em Belo Horizonte. Não há, no entanto, treinadores, ou seja, pessoas aptas a facilitar novas formações. 

Na capital mineira, Alex Dias, Bárbara Penido e Jimena Castiglioni formam o trio de certificados na prática. Apesar de não haver uma cartilha ou um manual que deva ser seguido, nem uma sequência progressiva entre uma aula e outra, os profissionais usam diferentes planos para conduzir as práticas em grupo. 

“A experiência é completamente individual, logo não há uma sequência, o que permite que o aluno comece quando quiser. O foco é sempre a vivência de cada um e o que ele extrai dali. É uma troca com as percepções do aluno”, explica Alex Dias, coreógrafo, bailarino e professor de dança em BH.

Cada aula, porém, obedece uma progressão de movimentos, cujo objetivo é fazer com que o aluno perceba a evolução do próprio corpo naquele dia.
“A ideia é fazer cada aluno perceber como, aos poucos, ele foi capaz de chegar em determinado movimento com mais facilidade e menos gasto de energia. Como em diferentes momentos esse ou aquele gesto se tornou mais natural”, detalha Bárbara Penido. 

Experiência individual

Diferentemente do que ocorre em outras práticas e aulas coletivas, no Feldenkrais os treinadores não demonstram os movimentos, apenas explicam verbalmente o que deve ser feito em cada momento da vivência em grupo. Assim, cada aluno se sente livre para conduzir sua própria experiência sem ser levado a replicar ou se espelhar na performance do colega ou do professor. 

“Não existe certo e errado nem movimentos que devam ser feitos dessa ou daquela maneira. O objetivo do método é realmente fazer com que cada pessoa tenha condições para ir em direção ao movimento que é capaz de fazer”, detalha Dias. 

Além disso:

O Método Feldenkrais carrega consigo o sobrenome do criador Moshé Feldenkrais. Nascido na Rússia, ele imigrou para Israel aos 13 anos e lançou mão de um profundo conhecimento nas áreas de engenharia, física, artes marciais, biomecânica, neurologia, cibernética e ainda desenvolvimento humano e psicologia para criar a técnica. 

Em função de uma lesão crônica no joelho, Moshé utilizou os conhecimentos em física, mecânica do corpo, neurologia, teoria da aprendizagem e psicologia para ter uma nova compreensão da função humana. As investigações resultaram na formulação de uma síntese que, mais tarde, ficou conhecida como Método Feldenkrais.

O processo de aprendizagem somática pode ser realizado em grupos como as chamadas ATM (Consciência pelo Movimento, na tradução para o português de Awareness Through Movement) ou em sessões individuais chamadas de IF (Integração Funcional).

Israel, Argentina, Canadá, Estados Unidos e alguns países europeus, como Alemanha e Áustria, são alguns dos locais pelo mundo onde o método é praticado. Em Belo Horizonte, as vivências coletivas são realizadas em uma casa na rua Chefe Pereira, 29, e no espaço Viva Bem, ambos no bairro Serra, Zona Sul da cidade. Atendimentos individuais devem ser agendados com um dos três profissionais aptos a ensinar o método.

Mais informações pelo site feldenkraisbh.com ou facebook.com/feldenkraisbh. 

“Busquei como uma ferramenta de autoconhecimento, consciência corporal e para entender melhor as funcionalidades do meu próprio corpo” - Ana Rita Nicoliello, dançarina

 

Método Feldenkrais

Jimena, Bárbara e Alex são os únicos, em Belo Horizonte, com formação no método