“É libertador. É fazer do que a sociedade define como fraqueza, o ponto forte de cada um”. A frase do artista performático Guilherme Morais dá o recado: o Vogue vai muito além de do estilo de dança que impressiona pelos movimentos, flexibilidade e poses expressivas inspirado em revistas de moda e que, podemos traduzir livremente como “carão”.

Como cultura, ele também se configura como um importante espaço de expressão, empoderamento, acolhimento e resistência das minorias, principalmente para a comunidade LGBTQI. “Uma mulher trans, que é tratada com opressão pela sociedade, é celebrada como uma rainha dentro do Vogue. Um gay afeminado, tratado com homofobia, é exaltado nesse espaço, que é um lugar de empoderamento das minorias”, explica Maria Teresa Moreira, professora e pesquisadora de Vogue e integrante do Trio Lipstick.

Ela reforça, inclusive, a relação entre a força ganhada pelo movimento e o contexto vivido pelo país. “Dentro do Vogue, as minorias conseguem mostrar sua arte. Por isso acredito que as pessoas estão se encontrando cada vez mais no estilo. Nesse momento em que o debate sobre os preconceitos está crescendo, as pessoas estão tendo mais empatia, mas que também, o discurso de ganha força, as pessoas acabam se sentindo confortáveis nesse espaço”, pontua.

A chegada em BH

Surgido nas comunidades LGBTQI, negras, latinas e periféricas de Nova Iorque, o movimento ganhou o mundo em 1990, quando Madonna lançou a música “Vogue”. Hoje, internacional, o estilo se firma cada vez mais e tem os pés fincados em Belo Horizonte, que já se firma como a capital brasileira do estilo, segundo Morais.

Apesar da importância da cidade no cenário do Vogue, a história mineira do estilo é recente. Tudo começou em 2013, quando o artista  resolveu produzir a festa Dengue. “Nossa ideia não era fazer um evento periódico como é hoje. Queríamos produzir uma festa performática, que trouxesse toda a manifestação da comunidade LGBTQI”, lembra. “Apesar de ter sido uma edição menos técnica da dança, o evento acabou atraindo pessoas que estudavam o estilo. Nele conheci as meninas do Lipstick e nos tornamos parceiros”.

Com duelos mensais e uma cena que se tornava cada vez mais consolidada, BH deu um passo ainda maior, quando em 2015, recebeu o BH Vogue Fever, o primeiro festival brasileiro do estilo, que aconteceu no Galpão Cine Horto. “Depois dessa edição, vimos que acendemos a chama do Vogue no Brasil”, lembra Maria Teresa Moreira, uma das produtoras do evento, que acontece anualmente na capital e já trouxe nomes como o bailarino Dashaun Wesley, que já trabalhou com Rihanna, Archie Burnett e Lasseindra Ninja, ambos considerados ícones do estilo.

Vogue BH

BH recebe ícones mundiais do Vogue em evento dedicado exclusivamente a esta cultura

Mais do que nunca, os últimos dias marcaram o importante status da capital mineira na cena Vogue. Isso porque desde quinta-feira, a cidade recebe a 3ª edição do BH Vogue Fever, que reúne estudantes de vários lugares do país em workshops ministrados por grandes nomes do estilo, que assumem também o júri nas batalhas que encerram o evento.

Nessa edição, Archie Burnett, ícone do Vogue que apadrinhou o evento mineiro, Aviance Yamamoto e Lea Vlamos – que substitui a artista Leoimy Maldonado, que não compareceu por questões pessoais – marcam presença. “Estamos recebendo gente de todos os cantos do Brasil e muitos também da América do Sul. As aulas esgotaram 15 dias antes de começar e, mesmo agora, com o cancelamento da vinda da Leoimy, todo mundo está sendo muito compreensivo, então está muito legal a energia”, comemora Maria Teresa Moreira, produtora do evento.

Com o tema de Translumbrante, um trocadilho com a palavra trans , o evento tem encerramento hoje, quando reúne vogueiros de vários lugares do país para disputas no que é conhecido como Ball – festa que reúne competições de diversas categorias, que incluem dos mais novatos aos mais experientes na cultura do Vogue. “Como o tema desse ano é translumbrante, ele traz muito essa ideia do brilho, aquilo que brilha até ofuscar o olho”, explica Moreira.

Uma figura que também marca presença na Ball é Cristal Lopes, rainha do Vogue na capital e competidora já consagrada. Jurada na competição, ela destaca a importância do estilo. “Para mim, o Vogue é uma dança de empoderamento, trabalha muito a autoestima. Por isso, acho que se tornou essa sensação que é hoje”, afirma.

Ela destaca, inclusive, a importância do estilo para a capital. “Ele te dá mais força para enfrentar as lutas diárias. Numa cidade tradicional, é importante ter essa inovação para que as pessoas abram a mente e comecem a lidar bem com as diferenças”, acredita.

Serviço: Translumbrante Ball, sábado, às 21h, no Odara (Rua Arthur Sá, 380 - Bairro União). Ingressos disponíveis no Sympla