Seja protagonizado pelo bacalhau, como já é a tradição, ou por outro prato com peixes ou frutos do mar, o almoço de Páscoa sempre proporciona um leque de sabores capaz de deixar qualquer paladar com gostinho de quero mais. Na hora de pensar os alimentos que irão compor a refeição do domingo, é importante refletir sobre o casamento equilibrado de comidas e bebidas.

Para realizar uma boa harmonização com vinhos, por exemplo, é importante, além de saber as características do mesmo, entender os sabores da comida. “Toda vez que sugerimos uma harmonização, colocamos-nos na posição do cliente, imaginando como será a degustação do alimento. A harmonização perfeita se dá com um prato e um vinho bem produzidos”, explica Felipe Lins, sócio da Mon Caviste Importadora de Vinhos.

Sócios da Mon Caviste, Patrick Bonnefond (E) e Felipe Lins (D)

Sócios da Mon Caviste, Patrick Bonnefond (E) e Felipe Lins (D) pensam no sabor do alimento na hora de indicar o melhor vinho

No caso de um Bacalhau à Gomes de Sá, Lins indica um vinho branco, mais cremoso, de uva chardonnay, ou “mesmo um espumante brut, que harmoniza com qualquer tipo de prato”, ensina. 

Já para compor com uma moqueca de peixe com camarões, uma receita mais condimentada, a indicação é um vinho mais estruturado. “Um rosé mais escuro, da casca da uva. Com acidez um pouco mais elevada, ideal para pratos mais temperados e apimentados”, expõe.

“O Bacalhau a Gomes de Sá combina com vinho tinto de uva pinot noir ou vinho branco feito com uva chardonnay. O tinto não vai abafar o bacalhau e o branco trará frescor ao prato”
Frederico Divino
Professor de Enologia das Faculdades Promove

Percepção

Professor de Enologia das Faculdades Promove, Frederico Divino dá a dica para uma harmonização adequada. “Basta olhar a quantidade de gordura do prato para ver o peso do vinho. Quanto mais gordura, mais tanino ou mais ácido a bebida deve ter. Isso vai cortar a percepção da gordura. É uma regra geral”, coloca.

Segundo Divino, uma opção para quem não gosta de vinhos é casar o bacalhau com uma caipirinha. Para a moqueca, ele sugere um coquetel à base de frutas com vodka e bastante gelo, bem refrescante.

Bacalhau drink

Bacalhau pode ser harmonizado com caipirinha, vinhos tinto e branco, espumante ou mesmo cervejaa

Apreciada por grande parte dos brasileiros, a cerveja também é uma bebida que vai bem no almoço de Páscoa. Para o bacalhau preparado de forma tradicional, com batatas e azeite, o ideal é uma pilsen, lager ou mesmo uma de trigo mais leve, indica o sócio fundador da Cervejaria Sátira, Eduardo Gomes.

“No final, o lance da harmonização é uma conversa da bebida com o alimento. Para não roubar o sabor e até o aroma da comida”, revela.

Para outros peixes, se estes forem empanados ou com um molho de camarão ou com temperos mais marcantes, as cervejas escolhidas podem ser amber ou pale ale. “Essas opções conversam entre si, a harmonização é uma sugestão, uma orientação, não uma obrigação”, pondera Eduardo.

Cervejas escuras de maltes torrados são ideais para saborear junto com sobremesas

Cervejas escuras de maltes torrados são ideais para saborear junto com sobremesas

Doces

Apesar de todos os peixes e frutos do mar presentes no almoço de Páscoa, a parte doce da história é que acaba sendo a mais interessante para muitos. E não precisa ser água o acompanhamento número 1 das sobremesas.

Doces comumente servido nas casas de todo o Brasil são mousse e pavê de chocolate. Para harmonizar com ambos, o professor das Faculdades Promove Frederico Divino indica conhaque, vinho do Porto ou mesmo um espumante moscatel, que também é o ideal para sobremesas com frutas.

Já Felipe Lins, da Mon Caviste, sugere vinhos licorosos de colheita tardia, como os de uva sémillon, que são mais doces e de coloração amarelo palha.

Pratos mais condimentados como a moqueca vão bem com vinhos mais encorpados

Pratos mais condimentados como a moqueca vão bem com vinhos mais encorpados

Cerveja

Para Eduardo Gomes, da Cervejaria Sátira, a quantidade da cerveja é menor quando se fala em acompanhar a sobremesa, “é mais para brincar, quase em um copo de licor, porque a ideia é bebericar”, diz. 

Cervejas escuras, de maltes torrados, como as porters, stouts ou brown ale, para sobremesas a base de chocolate, por exemplo.

Sabor de menu alternativo ao bacalhau pode surpreender

Para fugir do tradicional almoço de Páscoa, que tem o bacalhau como personagem principal, a chef de cozinha Cidinha Lamounier, professora do curso de Gastronomia das Faculdades Promove, sugere um menu inspirado na culinária espanhola.

“Vinhos franceses oriundos da Côtes du Ventoux, que têm frescor, mas também um peso na boca, são ideais para casar com arroz de polvo”, diz Felipe Lins, da Mon Caviste

Como entrada, uma salada de folhas com tomates confitados, azeitonas pretas, cogumelos e manjericão, temperada com alho. “Bem fresca, remetendo à cozinha mediterrânea”, lembra a chef.

O prato principal é o arroz de polvo, cuja receita pode ser conferida logo abaixo. Cidinha ressalta que cozinhar o molusco é algo complexo e requer atenção. Fique atento às dicas. “O visual do prato é de um arroz cozido, mas não desmanchando”, observa a professora.

Para encerrar o menu, a Torta de Santiago, uma receita típica da Galícia, criada em homenagem a Santiago de Compostela. As amêndoas são a base dessa delícia de sobremesa. 

Menu sugerido pela chef de cozinha Cidinha Lamounier

Menu sugerido pela chef de cozinha Cidinha Lamounier

Receita

Arroz de Polvo

– Ingredientes:
1 kg de arroz cozido
1 kg de polvo
2 sachês de tempero paellero
300 g de pimentão amarelo picado em cubos
300 g de pimentão vermelho picado em cubos
400 g de ervilhas congeladas
100 ml de azeite extra virgem
100 g de cebola picada em cubos
30 g de alho picado
1 maço de salsa fresca

– Modo de preparo:
Cozinhe o polvo
Cozinhar o polvo em uma panela inox tampada em fogo baixo. O segredo do cozimento é colocar uma cebola inteira dentro da panela. Assim que for possível espetar a cebola com a faca e esta transpor o vegetal, o polvo está cozido. Em seguida, dê o choque térmico no polvo, para não “emborrachar”. Corte-o na diagonal ou em rodelas, do tamanho que preferir.

Monte o prato
Aqueça o azeite, coloque o tempero e salteie cebola, pimentões e ervilhas. Acrescente o polvo e o arroz. Finalize com a salsinha repicada.

– Rendimento:
10 porções

As azeitonas pretas na salada combinam bem com os vinhos da região francesa de Côtes du Rhône, segundo o sócio da Mon Caviste

Como a Torta de Santiago não é muito doce, “harmoniza com vinhos brancos doces não muito licorosos”, diz Felipe Lins