Caminhamos na contramão daquilo de que necessitamos: sentir mais, pensar menos, ser mais, ter menos. Autor mais lido da última década, com obras publicadas em mais de 70 países e mais de 25 milhões de cópias vendidas só no Brasil, Augusto Cury conversou com exclusividade com o Hoje em Dia. Em passagem breve por Belo Horizonte, onde ministrou um mini-curso sobre como educar filhos e alunos, falou sobre importância do foco na gestão emocional – chave para o desenvolvimento intelectual e da personalidade humana.

Em tempos de tantos manuais – como criar crianças com limites, educadas, felizes, prósperas, que sejam menos ansiosas –, onde os pais estão errando?
Estão errando porque não trabalham as ferramentas mais importantes de gestão de emoção. Não há uma forma correta, não há leis rígidas. O que há são ferramentas para que o eu, que representa a capacidade de escolha e a consciência crítica, se torne autor da própria história. Nós, no Brasil e em mais de 70 países, não estamos preocupados com as habilidades mais importantes para que o ser humano se torne diretor do seu próprio script, para que ele possa proteger sua emoção e gerenciar sua ansiedade. Portanto, não adianta dar broncas, criticar, ser um manual de regras.

O segredo é evitar boicotar ou bloquear as emoções da criança, seja filho ou aluno?
É vital que os pais aprendam as habilidades do Programa Escola da Inteligência, habilidades clássicas, como por exemplo pensar antes de reagir, se colocar no lugar do outro, filtrar estímulos estressantes, ser altruísta, ser solidário, aprender a se reinventar no caos, desenvolver resiliência e dirigir o seu próprio script. Quando aplicamos o programa Escola da Inteligência, que talvez seja o primeiro programa mundial de gestão da emoção para crianças e adolescentes até o ensino médio, o resultado é surpreendente. 

Do que se trata o Programa Escola da Inteligência e em que pé está a aplicação dele nas salas de aula das escolas brasileiras?
O programa implementa nas instituições de ensino uma cultura para o desenvolvimento da inteligência, da saúde emocional e da construção de relações saudáveis, a partir da aplicação de 1 hora por semana dentro da grade curricular. Ele é fundamentado na Teoria da Inteligência Multifocal, que analisa o funcionamento da mente e a formação de pensadores. Atualmente, temos 500 escolas conveniadas com mais de 250 mil alunos e mais de 1 milhão de pessoas impactadas. Estamos trabalhando junto à Polícia Federal, adotando algumas das escolas mais violentas do país para dar gratuitamente o programa. Já são mais de cem instituições, incluindo orfanatos, onde o programa é aplicado gratuitamente. Inclusive abrimos mão dos direitos autorais. Nosso sonho é alcançar todos os orfanatos do Brasil e do mundo. Mas falta braço, dinheiro e tempo. Nossa equipe tem cerca de 40 psicólogos. Somos o maior time do mundo de psicólogos especialistas em educação sócio-emocional e de gestão da emoção. 

Quais são os benefícios desse tipo de direcionamento educacional, que leva em conta e prioriza a inteligência emocional da criança?Depois de três meses de aplicação do programa, uma criança de 7, 8 anos diz para os pais: “papai, você perdeu o autocontrole”, “mamãe, você não está pensando antes de reagir”. É disso que os pais precisam: conhecer ferramentas a partir da mais complexa fronteira da ciência, que é o processo de construção do pensamento e o processo do eu como gestor da mente humana. Caso contrário, fala-se muito em habilidades sócio-emocionais, em educação emocional, mas tudo é como uma nuvem que se dissipa, nada é concreto.

Augusto Cury

"A escola não pode ser mais responsável apenas pelo desenvolvimento cognitivo, pelo raciocínio, pelo pensamento lógico, estratégico, capacidade de resolver problemas, de observar e intuir"


As escolas reclamam muito que os pais estão terceirizando a criação dos filhos. Por outro lado, pais se queixam de, muitas vezes, caber a eles papéis que deveriam ser da escola. Como resolver esse choque, tirando o máximo proveito da função da família e da escola?
O choque é tão grande que alguns diretores de escola dizem que é melhor lidar com mil alunos do que com dez pais. Há um conflito baseado na responsabilidade compartilhada ou na falta de educação compartilhada. A escola não pode ser mais responsável apenas pelo desenvolvimento cognitivo, pelo raciocínio, pelo pensamento lógico, estratégico, capacidade de resolver problemas, de observar e intuir. A escola precisa educar a emoção, ensinar os alunos a não serem escravos dos medos, a lidarem com a impulsividade, a reciclarem o sentimento de culpa, a reorganizarem a autopunição, a timidez, a dificuldade de ouvir não e de lidar com limites. Escolas que não conseguem educar a emoção dos alunos não estão preparadas para formar mentes brilhantes, apenas para formar repetidores de informação. Qualquer computador, por mais medíocre que seja, consegue reter mais informações e repetir essas informações nas provas do que os melhores alunos. A repetitividade de dados não é fundamental para formar mentes brilhantes. 

Quem é calmo, mais paciente e tolerante consegue dar respostas mais produtivas e ricas do que quem é ansioso e impulsivo

E o papel dos pais, também mudou? Qual passou a ser?
Os pais não podem ser cartesianos. Se eles são pessoas que apontam falhas, apenas, estão aptos a lidar com máquinas. Se são alguém que eleva o tom de voz, que critica excessivamente ou que repete comportamentos, se converterão em pessoas entediantes, que traumatizarão os filhos. Quem eleva o tom de voz, critica excessivamente e, reitero, quem repete informações, aciona um fenômeno inconsciente, da minha área de pesquisa, chamado Fenômeno RAM (Registro Automático da Memória). Ele é um biógrafo não autorizado, que arquiva todos os comportamentos agressivos, impulsivos, indelicados e traumatizantes dos pais, gerando janelas killer ou traumáticas. Consequentemente, desertificam o processo de formação da personalidade dos filhos. 

A partir dessa lógica, o ideal, portanto, seria não criticar? Como lidar com isso sem deixar de educar?
É quase inacreditável que mais de 90% das correções que os pais fazem para com seus filhos os piora, porque eles criam comportamentos que estimulam esse biógrafo do cérebro a formar janelas traumáticas. Quem repete, por exemplo, duas vezes a mesma coisa, costumo brincar, é um pouco chato. Quem repete três vezes é medianamente chato e entediante. Quem repete quatro vezes é insuportável. Está cheio de pais insuportáveis, executivos insuportáveis, casais insuportáveis. Porque eles não têm autocontrole, não são elegantes, não conseguem elogiar quem erra para depois tocar no erro. Não conseguem dizer para um aluno que acabou de falhar: “Aposto em você. Você não é mais um número nessa classe. Sou um privilegiado de ser seu professor. Agora, reflita sobre o tom de voz com que se dirigiu ao seu colega ou a mim”. 

A chave é saber gerenciar a própria emoção ao invés de tomar decisões impulsivas que podem acabar comprometendo a forma de reagir do outro?
Quando nós somos gestores da nossa emoção, nós damos respostas inteligentes nas situações estressantes e arquivamos janelas saudáveis ou light e não killer ou asfixiantes. Por isso mais de 90% das correções que os pais fazem para com seus filhos, os professores para com seus alunos, executivos com seus colaboradores e casais entre si pioram quem eles amam. Nós pioramos as pessoas mais caras a nós porque nosso eu não é autor da própria história. 

Se os pais apontam falhas, elevam o tom de voz e criticam demais estão aptos a lidar com máquinas, tornam-se entediantes e traumatizam os filhos 

Existe um movimento chamado slow parenting que preconiza a desaceleração dos pais e, consequentemente, das crianças. A questão é que na “vida real”, no mundo lá fora, essas crianças são cobradas de outra forma, de maneira muito acelerada, diferentemente de como aprenderam a viver em casa. Como equilibrar a leveza da criação à cobrança do vestibular, da escolha profissional, cada vez mais precoce, e de um mercado de trabalho extremamente acirrado e competitivo? Não existe um risco grande de se criar um confronto mais tarde, quando a criança virar adulto?
Está mais do que provado que uma pessoa calma é uma pessoa que tem tendência para produzir mais raciocínios brilhantes do que quem é estressado. Quem é mais paciente e tolerante consegue dar respostas mais produtivas e ricas do que quem é ansioso e impulsivo. Quem se interioriza, viaja pra dentro de si mesmo, é alguém que tem um raciocínio esquemático, complexo, melhor, mais penetrante do que quem vive mentalmente agitado e tenso. 

Esses pais desacelerados não têm com o que se preocupar, então?
uem é calmo, paciente e tolerante, com alto nível de habilidades para suportar frustrações, é um ser humano que se prepara para ser um profissional feliz e mais produtivo, um pai feliz e mais rico educacionalmente, um marido ou esposa capaz de ter um romance sustentável. Quem é muito agitado pode ser ótimo para a sociedade. Quem é muito ansioso pode ser excelente para sua empresa, mas será um carrasco de si mesmo, carrasco, inclusive, da construção de pensamentos notáveis que podem fazê-lo ser uma pessoa dotada de sucesso, embriagada com uma felicidade e uma emocionalidade sustentável e inteligente. 

O mundo moderno nos obriga a consumir uma quantidade enorme de informações novas o tempo todo. É possível viver integrados à realidade, mas de forma tranquila, mais conectados às nossas emoções? 
Descobri uma síndrome que está acometendo 70%, 80% das pessoas no mundo todo: a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Pensar é bom, mas pensar demais é uma bomba contra a saúde emocional. Uma criança de 7 anos tem mais informações do que o imperador romano no auge de Roma. Isso não é suportável. Estamos assistindo ao assassinato coletivo da infância das crianças. Elas têm tempo para tudo, menos para ter infância e formar janelas saudáveis, dar sustentabilidade ao processo de formação da personalidade. 

Augusto Cury

"Crianças precisam aprender a gerenciar a ansiedade, a trabalhar perdas e frustrações, a ousarem, a libertar o imaginário e desenvolver criatividade"


E quais são os sintomas dessa síndrome?
Acordar cansados, ter dores de cabeça, musculares, sofrer por antecipação, dificuldade de conviver com pessoas lentas, baixo limiar para frustração, transtorno do sono, déficit de memória ou esquecimento e assim por diante. Esses sintomas refletem a falência da espécie humana, das sociedades modernas. Por isso, precisamos gerenciar nossa emoção, as crianças precisam aprender a gerenciar a ansiedade, a trabalhar perdas e frustrações, a ousarem, a libertar o imaginário e desenvolver criatividade. Saber proteger a mente e gerenciar a ansiedade é vital para ter uma mente saudável numa sociedade altamente estressante.