Responsáveis pela produção de quase 80% dos alimentos que chegam à mesa dos mineiros, os agricultores familiares enfrentam obstáculos quando o assunto é atender à demanda crescente de maneira sustentável. Para solucionar o descompasso entre necessidade financeira, social e ambiental, entra em cena um projeto de alcance nacional financiado pelo governo britânico e que tem como principal pilar o respeito ao meio ambiente.

O Rural Sustentável busca promover o desenvolvimento equilibrado do agronegócio brasileiro, recuperando florestas e solos degradados e reduzindo danos à natureza por meio de práticas sustentáveis. Os agricultores contemplados também recebem um patrocínio financeiro e têm à disposição tecnologias simples e de baixo custo.

Dentre elas, a integração entre lavoura, pecuária e floresta, a recuperação de áreas degradadas para total aproveitamento da capacidade produtiva da terra, plantio de florestas para fins comerciais e adoção de práticas agrícolas de baixa emissão de carbono.

A ideia é equacionar a escassez de recursos por parte dos agricultores à necessidade de um retorno financeiro imediato com a produção – demanda crescente no mundo todo. 

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), até 2050, com o crescimento exponencial da população mundial, a demanda por alimentos deve crescer 70%. 

“O objetivo é facilitar o acesso dos produtores a créditos destinados à tecnologia de baixa emissão de carbono e incentivar também a adoção de práticas mais adequadas de uso da terra e manejo florestal responsável nos dois biomas”, explica o coordenador técnico estadual do projeto, Gelson Soares Lemes, da Emater-MG. 

Em Minas, o órgão participa como responsável técnico assistindo 22 produtores.

R$ 72 milhões

Ao todo, sete estados brasileiros cobertos por Mata Atlântica e Amazônia foram contemplados pela parceria entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e o Governo do Reino Unido. O incentivo financeiro no valor de R$ 72 milhões é distribuído entre produtores rurais e agentes de assistência técnica. Parte do montante é repassada levando em conta o resultado alcançado, conforme informações do BID, o Banco Interamericano de Desenvolvimento. 

Até o fim deste mês, nova chamada pública será lançada para contemplar produtores nos 70 municípios onde o projeto já foi lançado na fase piloto.

Ao todo, 3.710 produtores rurais – 350 proprietários de unidades demonstrativas e 3.360 de unidades multiplicadoras, que servem como exemplo para cidades vizinhas – foram beneficiados.

Araçuaí, Capelinha, Itambacuri, Franciscópolis, Malacacheta, Novo Oriente de Minas, Padre Paraíso, Poté, Setubinha e Teófilo Otoni são os municípios mineiros com propriedades rurais contempladas pelo projeto financiado pelo governo do Reino Unido

As metas do programa incluem redução da emissão de carbono nas propriedades dos dois biomas, a diminuição do desmatamento, aumento da restauração de florestas e solos e contribuição às metas de redução da emissão de gases do efeito estufa – estabelecidas na Política Nacional Sobre Mudança do Clima. 

Produtor adota manejo sustentável do pasto e engorda a renda 

Em uma propriedade familiar de Novo Oriente de Minas, no Vale do Jequitinhonha, um dos dez municípios mineiros que integram o Rural Sustentável, a implantação do sistema de pastejo rotacionado, que permite a rebrota adequada da grama, foi ponto de partida não só para ingresso no projeto, como estímulo para o incremento das atividades, que devem ganhar um upgrade financeiro até o fim deste ano.

Vivendo em Minas desde 2013, quando deixou o Espírito Santo, o produtor rural Montalvani Sena, criador de gado leiteiro, passou a adotar uma rotina mais sustentável nas terras das quais cuida com a família e expandiu, inclusive, as atividades que mantém no terreno. Além de organizar a produção leiteira, entre 120 e 150 litros por dia, ele passou a plantar pimenta do reino. 

A integração entre atividades agrícolas, pecuárias e florestais em uma mesma área visa à sinergia entre os cultivos, a adequação ambiental, a valorização do homem e a viabilidade econômica – um dos pilares do projeto nacional.

437 mil é número de agricultores familiares em minas gerais; no brasil, são 4,4 milhões, conforme dados do IBGE

Mais opções

A produção de pimenta do reino foi ideia “importada” do Espírito Santo. O Estado é o segundo maior exportador do condimento no país. A expectativa do agricultor é de que até o fim do ano os 2,5 mil pés semeados passem a gerar lucro.

Sena ainda planeja implantar um sistema de irrigação para o capim e fazer novas divisões em piquetes no pasto do gado. Pelo sistema, que respeita o ponto de crescimento do pasto, o capim fica sempre no ponto ideal de consumo sem comprometimento da rebrota.

O produtor é um dos mais de 3.700 agricultores familiares premiados pela iniciativa financiada pelo governo britânico. Assim como outras propriedades, a fazenda Renascer, distante 500 quilômetros da capital mineira, servirá como polo de transferência de tecnologia para municípios vizinhos.

Além de Minas, Bahia, Paraná e Rio Grande do Sul, que também possuem áreas de Mata Atlântica, e cidades do Pará, Mato Grosso e Rondônia, cobertas pelo bioma Amazônia, integram as ações do Rural Sustentável; ao todo, são 70 municípios brasileiros

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