Comer uma cebola imaginando ser uma maçã, perder a voz involuntariamente ou ficar com os pés “grudados” no chão por alguns segundos são resultados, digamos, mais conhecidos, da chamada hipnose de rua ou de palco. Mas o que pouca gente sabe é que a técnica, quando aplicada por um hipnoterapeuta, pode gerar benefícios que vão do tratamento de fobias, ansiedade e depressão à superação da timidez e até da gagueira. Uma das grandes diferenças entre as duas “variedades” é o estado consciente ou não do paciente. 

Hipnoterapeuta em Belo Horizonte com mais de dez anos de experiência, Thiago Porto explica que, em consultório, os clientes são induzidos ao transe, mas mantidos conscientes. Num intervalo de aproximadamente duas horas, são levados a revisitar problemas e a encontrar os gatilhos dos conflitos apresentados.

“É um estado bom e a pessoa não se sente incomodada, mesmo visitando problemas”, pontua o profissional, certificado pela OMNI Hypnosis Training Center – primeiro instituto de hipnoterapia do mundo com certificação ISO 9001. 

Libertação

Fisioterapeuta e empresário, Diego Marques, de 34 anos, é prova de que o método, que promove uma reprogramação da mente, pode funcionar. Há um ano, ele buscou a hipnoterapia para tratar um desconforto extremo que sentia ao falar em público. “Tinha segurança, estava bem preparado, mas o sofrimento era grande”, relata o rapaz, que, na época, era professor e palestrante.

Levado ao transe – estado de elevada concentração em que a mente se desliga de estímulos periféricos – e em apenas uma sessão, conseguiu desbloquear a tensão que o impedia de falar publicamente com tranquilidade. “Não imaginava o que ia acontecer e estava com o pé atrás, mas fiz o possível para dar certo. Lembro de tudo, de estar tranquilo e relaxado”, relata. 

Na próxima semana, BH sediará a Convenção Brasileira de Hipnose, no hotel Ouro Minas. O evento terá mais de 25 palestrantes brasileiros e estrangeiros 

Professor de hipnose e diretor do Hi-Brain Institute, em BH, Alberto Dell’isola lembra que o consentimento do paciente é essencial. ‘Ninguém tem a alma sugada nem fica à mercê do hipnotista. A pessoa quer que aconteça e, por isso, acontece”, diz.

Dell’isola é um dos organizadores da primeira Convenção Brasileira de Hipnose, de 25 a 28 de janeiro, na capital mineira.

Na saúde

Presidente do Instituto Brasileiro de Hipnose Clínica (IBHC), do qual é fundadora, a psicóloga Cláudia Maia é referência nacional quando o assunto é a hipnose aplicada à saúde. Ela explica que a técnica pode auxiliar desde a realização de uma endoscopia, passando pela facilitação de exercícios de fonoaudiologia até o tratamento de depressão, só para ficar em alguns exemplos.

Paciente dela, a estudante Myllena Carvalho Santana, de 20 anos, livrou-se da fobia de cachorros. Cláudia explica que foram necessárias quatro sessões de hipnose até que a jovem chegasse ao consultório mostrando fotos abraçada a cães.

De acordo com a profissional, o resultado tem relação direta com o transe. “É ele que leva a pessoa a um estado especial de consciência, mais profundo. Nessa condição, o inconsciente fica mais presente, facilitando o acesso aos recursos e potenciais que todos nós temos guardados”, detalha. 

Hipnose psicóloga e hipnoterapeuta Cláudia Maia

Myllena tratou uma fobia de cachorros com a técnica aplicada nas consultas com a psicóloga Cláudia Maia

Técnica permite superar vários ‘traumas da maternidade’

A baixa tolerância a dor, o contato frequente com situações traumáticas de sofrimento materno e o episódio doloroso de ter dado à luz um bebê anencéfalo, que morreu minutos após o parto, levaram a ginecologista e obstetra Quésia Villamil, de 37 anos, a recorrer ao HypnoBirthing® na gestação da caçula, Rebeca, de 2 meses. 

Baseada em métodos de auto-hipnose, a técnica, que surgiu nos Estados Unidos na década de 1990 e chegou ao Brasil há quatro anos, reúne instruções de relaxamento e respiração, que induzem a um parto tranquilo e sem grandes sofrimentos para a mãe. O objetivo é que o momento seja confortável e que a ansiedade não atrapalhe o nascimento do bebê.

“A técnica trabalha com o fortalecimento da mulher, tirando o foco da patologia e colocando no prazer de parir. Trabalha-se o cerne da questão, que é a nossa mente, responsável por controlar tudo”, detalha Quésia, que se preparou lendo livros específicos sobre a metodologia e assistindo a vídeos disponíveis na internet.

A primeira consulta com o hipnoterapeuta Thiago Porto custa R$ 100. Nela, é feita uma anamnese do paciente e traçado o plano de tratamento, cujo preço pode variar de R$ 500 a R$ 3 mil

Entrega total

Segundo ela, a técnica consiste basicamente em um treinamento para modulação da dor. A ideia é que a mulher perceba as contrações não como um incômodo, mas como ondas de prazer.

“Não posso dizer que foi zero dor, porque em certo momento me desconectei, mas tive uma relação muito íntima com meu corpo, como se, apesar de intensas e até desconfortáveis as sensações, eu não quisesse sair dali. Estava num processo de entrega”, diz Quésia.

O site brasileiro destinado ao assunto define o método em três pilares: relaxamento, visualização e respiração. A partir deles, a mulher torna-se capaz de confiar no processo natural do nascimento, relaxa e colabora, permitindo que o corpo faça o que é necessário e melhor para ela e para o bebê.

Em português

Depois da experiência positiva no quarto parto, Quésia planeja trazer a técnica a Belo Horizonte e compartilhar os benefícios da auto-hipnose com outras mulheres, inclusive estrangeiras. Para isso, pretende traduzir o material sobre HypnoBirthing®, disponível somente em inglês, e criar cursos online que possibilitem uma difusão maior do conteúdo.

Hipnose ginecologista e obstetra Quésia Villamil

Quésia usou o HypnoBirthing® no parto da caçula: "trabalhamos a nossa mente, que controla tudo"

Curiosidades sobre hipnose:

  • O transe é um estado de consciência alterado ao qual o paciente/cliente é induzido e que o leva a acessar mecanismos do inconsciente, onde estão memórias e gatilhos de questões emocionais ou físicas. Essa condição pode durar de minutos (mais comum na hipnose de rua ou de palco) a horas. Dentre os “sintomas” comuns do transe estão globo ocular voltado para o alto e fibrilação das pálpebras e ainda calor nos membros e frio nas extremidades do corpo. 
  • O mecanismo usado pelo hipnoterapeuta baseia-se na reprogramação da mente, ou seja, consiste em desconstruir a forma como a pessoa estava acostumada a enxergar certa situação, em função de trauma ou condição aprendida, e reprogramá-lo com um viés positivo. 
  • Hipnoterapeutas não contra-indicam profissionais nem tratamentos. A técnica também não cura problemas nem doenças, apenas trata os motivos que os ocasionaram. 
  • Além dos mecanismos usados para levar ao transe, profissionais que empregam a ferramenta terapeuticamente usam estratégias específicas de comunicação, como fala mais lenta, rápida ou pausada, para atrair e manter a atenção dos pacientes, conforme o que deseja.
  • Tratamento varia de uma a quatro semanas, conforme o perfil do paciente e método usado pelo profissional. 

Além disso:

Dentista há 30 anos e odontopediatra há 23, Mônica Barreto aplica a linguagem hipnótica ou transe informal para auxiliar nos tratamentos de crianças e adolescentes. Por meio de histórias, analogias, frases especiais e até de música, ela leva o paciente a desviar o foco, ou melhor, a atenção consciente, e escutar mais com a mente inconsciente – menos crítica e sem julgamentos. “Esse movimento distancia a criança dos medos e dificuldades, levando-a a fixar-se mais nas novas possibilidades que estão sendo apresentadas”, explica. 

Mãe de Anne, de 8 anos, e de Ivan, de 2 anos e 9 meses, a administradora Érika Goldschmidt Costa compartilha com entusiasmo as experiências positivas que os filhos já tiveram no consultório da dentista. “Ela trabalha com o encantamento. Quando os meninos estão na cadeira, sentem-se num escorregador. E o que poderia ser um momento ruim e traumatizante transforma-se em grande alegria e aprendizado”, comenta. Érika conta que, recentemente, o caçula passou por um tratamento de canal que, graças à hipnose, foi realizado sem anestesia. 

A odontopediatra explica que o transe informal nada mais é do que uma maneira especial de comunicação com o paciente. Segundo ela, o uso constante da linguagem ajuda a criar e manter o vínculo e a empatia já estabelecidos entre profissional, pacientes e família. “Contribui, ainda, para estabelecer com novos pacientes a mesma relação de confiança”, completa. 

Hipnose Odontopediatra Mônica Barreto

Linguagem hipnótica usada pela odontopediatra Mônica Barreto ajuda pacientes-mirins, como Anne e Ivan, a perderem (ou não desenvolverem) medo do consultório do dentista

Eu experimentei - Por Patrícia Santos Dumont

Quando decidi escrever esta matéria, a única certeza que tinha é de que queria passar por uma sessão de hipnose. Fui sem nenhuma desconfiança nem medo de que pudesse ficar fora de mim ou fazer algo que não concordasse - situações e receios comuns a quem de fato não conhece a ferramenta. Depois de muita conversa e de uma entrevista (quase aula) que durou mais de 1 hora, o hipnoterapeuta Thiago Porto me propôs a técnica da fascinação. Nela, o hipnotista usa apenas os olhos para induzir ao transe e ninguém fala nada.

Como me queixei de uma dor leve no trapézio, ele sugeriu, então, usar a hipnoterapia para tratar o desconforto. O combinado era o seguinte: olhar fixamente no centro da testa dele e esperar que desse o "comando" (uma respirada mais forte) para que eu voltasse do transe. "Tudo" isso durou menos de dois minutos. Na volta, perguntada sobre como me sentia, relatei um certo calor na região dos ombros e frio nas mãos e pés - o ar condicionado da sala marcava 21°C. Mais nada.

Para minha surpresa, já que fiquei sem saber, de fato, se a dor havia passado ou se eu queria pensar que ela havia passado, Thiago me contou e mostrou em um dos livros que usa que um dos sintomas do transe é justamente tronco aquecido e extremidades frias. E eu não fazia ideia disso. Ponto positivo: eu entrei em transe. Ah! Poucos segundos antes de retomar o meu estado de consciência normal, depois da "respirada forte" dele, também dei umas boas piscadas bem rapidinhas, talvez porque estivesse de olhos abertos há algum tempo. Ou não. Segundo ele, esse é outro sintoma do estado de consciência alterado.

Não sei dizer com certeza se vi a hipnose acontecer e se o problema que pretendia resolver foi realmente resolvido. A dúvida que ficou foi se havia sido sugestionada a pensar que estava sem dor ao final do processo. E a resposta do hipnoterapeuta foi justamente: sim, foi isso mesmo! A ideia, segundo Thiago, é exatamente essa: reprogramar o cérebro para que ele mude a forma de reagir ou sentir as coisas. No meu caso, a dor. Portanto, pelo que entendi, não há como desvincular estar sugestionado a estar hipnotizado. Uma coisa é inerente à outra. Bem, valeu a pena experimentar! De todos os benefícios possíveis, na minha opinião, o maior deles é ter certeza de que hipnose não é nenhum bicho de sete cabeças. Pelo sim, pelo não, não custa tentar!

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