Foi no quintal de uma senhora, que ensinava pintura para pequenas turmas aos sábados, que a multiartista Zi Reis deu suas primeiras pinceladas. “Foi assim que aprendi a pintar e isso mudou completamente a trajetória da minha vida e o que eu enxergava enquanto horizonte e enquanto possibilidade de sonhar”, lembra.

Hoje, formada pela Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a artista segue os passos de sua mestre e mantém o Ateliê Pé Vermelho, no bairro Nacional, em Contagem. O local funciona não somente como um espaço de produção artística, mas também como ambiente de formação, discussão e fomento da cultura e da arte na região. “Se esse espaço puder incentivar e mostrar outros horizontes e outras possibilidades para quem está vindo, mesmo que seja uma, duas ou três pessoas, acho que o trabalho já está realizado”, diz Reis.

A ideia para o espaço surgiu em 2015, quando a proprietária do imóvel que abrigou o ateliê no início da empreitada ofereceu o local para que a artista pudesse produzir seu trabalho. “Levei meu material de pintura para lá e aos poucos fui percebendo que aquilo seria mais do que um ateliê individual e mais que um espaço de produção. Procurei outros artistas do bairro e começamos a pensar nesse lugar como um ambiente de arte e de resistência da periferia, como um espaço que reunisse a produção dos artistas locais, mas também onde a gente pudesse se encontrar para se fortalecer, oferecer formações e compartilhar nosso conhecimento”, afirma Reis. Foi pensando nessas configurações que em 2016 o trabalho floresceu. “A gente experimentou diversos formatos no ateliê, tanto de residências artísticas, como oficinas, vivência, momentos culturais de poesia e música”, conta a artista.

Zi Reis

ORGULHO – O apelido pejorativo “pé vermelho”, dado aos trabalhadores da região, foi ressignificado por Zi no Ateliê

Em transição – o “Pé Vermelho” passou a funcionar em uma loja ao lado do imóvel onde iniciou sua trajetória – a nova programação e o novo espaço devem ser inaugurados ainda em abril. “Fizemos coisas muito interessantes na casa, mas começamos a refletir que estava para além das nossas pernas, porque não temos um financiamento direto de ninguém”, explica. “Em alguns momentos a gente conseguiu um incentivo, já ganhamos material”, conta. “Acreditamos que agora o ateliê vai estar mais próximo das pessoas, por ser uma loja, onde é só abrir a porta para ter um contato mais direto com a galera do bairro”, infere.

Ao lado dela na empreitada, a artista visual Gilmara Oliveira, que vive no bairro há 20 anos, avalia a iniciativa. “Vejo esse trabalho muito como uma oportunidade de fomento de todas as linguagens artísticas e até mesmo como uma tentativa de naturalizar isso no bairro”, diz. “Assim como aconteceu na história do blues, onde eles se reuniam para dar voz ao sofrimento, a gente quer poder oferecer também um pouco desse conforto, desse lugar de expurgo. Não que a arte só fale de sofrimento, mas é uma das possibilidades”, conclui.


Saraus se firmam e espalham cultura, arte, poesia e música

Das periferias de Belo Horizonte às cidades da Região Metropolitana, os saraus são figuras importantes na difusão da cultura urbana e da arte. Na região do Barreiro, esse tipo de evento acontece desde 2008, quando começaram a ser organizados pelo Coletivoz – Sarau de Periferia. “Na época existiam poucos acontecendo. Demos início ao nosso no bar do meu pai, onde já existia um sarau, mas não com o foco na poesia marginal”, explica Rodrigo Coelho, fundador do projeto.

COLETIVOZ

COLETIVOZ – Acontecendo na região do Barreiro desde 2008, o Sarau de Periferia foi uma das primeiras iniciativas a colocarem como foco a poesia marginal em eventos culturais no local

A iniciativa rendeu tantos frutos, que hoje o coletivo possuiu uma Casa de Cultura na região. “Ano passado realizamos o Coletivoz Oficinas de Sarau, junto do Eduardo DW, em três centros culturais do Barreiro, trazendo estudantes, durante três dias. Essas oficinas geraram saraus que eles reproduziram dentro das escolas”, conta. Para ele, um dos objetivos do coletivo é reforçar a produção local. “A importância disso é fazer o espectador enxergar que há potência na periferia, fazê-lo frequentar não só pelo entretenimento, mas principalmente para criar ali um ponto de referência cultural, com a produção ali existente e permitir o trânsito entre outras redes e fortalecer o desenvolvimento cultural da periferia”, pontua.

Em Sarzedo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, os saraus também se firmam como uma potência de divulgação de cultural. “Quando começou, a galera tinha um pouco de receio, mas com o tempo foram entendendo. Quem desenhava, começou a levar a produção. Outros começaram a escrever e a se sentir à vontade para apresentar. O pessoal da música começou a levar instrumentos, o pessoal do hip-hop também começou a colar com a gente”, lembra Bim Oyoko, um dos membros do coletivo Nosso Sarau, que há quatro anos articula movimentos culturais na cidade.

Hoje, o projeto – que ocupa a praça da estação da cidade sempre no último domingo do mês – se estende por vários âmbitos, que vão além da poesia e da música. “Uma das coisas que trouxemos foi uma biblioteca, já que a municipal tinha sido fechada. Levamos os livros e quem está lá e quer ler, pode pegar e devolver no próximo sarau. Também sorteamos livros, CDs, tudo para que a galera possa ter acesso a isso também”, destaca.

Nosso Sarau
CRESCIMENTO - Em Sarzedo, os saraus foram atraindo cada vez mais pessoas e incluindo vários tipos de manifestações artísticas, da poesia e artes visuais à música

Além disso

Não dá para negar a potência dos saraus espalhados por Belo Horizonte e pela Região Metropolitana. Tanto que a cultura poética tão propagada nos eventos se expande também nos chamado Slams, que são competições de poesia falada. “Cada participante tem três minutos para falar, tem que ter pelo menos três poesias autoras”, explica Rogério Coelho. Ele, que organiza o Slam Clube da Luta em Belo Horizonte, conta que trouxe a iniciativa de São Paulo, em 2014. “Agora são pelo menos 14 slams em Minas, juntando Sarzedo, Ibirité, Timóteo, Juiz de Fora, Teófilo Otoni”, sublinha o organizador.

A força da atividade em Minas Gerais rendeu a configuração de uma disputa estadual, que credencia o vencedor para a competição nacional. “O vencedor dessa disputa viaja para Paris para representar o Brasil”, afirma Coelho, que conta que Belo Horizonte já teve um representante na capital francesa. “O João Paiva foi o primeiro a vencer o Slam Br. Ele é da região do Olaria. É professor de educação física e tem uma atividade com o rap também”, destaca ele, que na ocasião acompanhou o mineiro na disputa internacional.

Mas essa movimentação se estende para além desses locais. Ele conta que as disputas tem sido levadas também para escolas. “Temos feito o Slam Interescolar por meio do programa Valores de Minas. No ano passado, 12 escolas estaduais participaram”, destaca. Na ocasião, os alunos tiveram oficinas de poesia sobre escrita criativa, o que rendeu a organização do Slam. “Isso acabou rendendo também um campeonato nacional, feito no Plug Minas, com jovens do Espírito Santo, de Uberaba, Juiz de Fora, além de Belo Horizonte e Região Metropolitana”.