Mito da maternidade perfeita_Rachel Leão Gomes e Matias

Mãe de Matias, de 1 ano e 2 meses, Rachel frustrou-se com o parto: “Cria-se magia em torno de tudo”

Um ano atrás, ao entrar na sala de parto onde planejou dar à luz Matias, a administradora Rachel Leão Gomes, de 33 anos, mal podia imaginar que naquele momento nascia, além do primogênito, uma nova mulher. No lugar da magia de uma concepção considerada perfeita, a frustração de um parto que não aconteceu como o planejado e que trouxe as primeiras revelações do que é ser mãe de verdade, na vida real. A demora para o bebê nascer e a impossibilidade de registrar em imagens a chegada do primeiro filho derrubaram o mito da maternidade perfeita, apresentando à genitora de primeira viagem o que lhe esperaria dali em diante. 

“A gente sente como se não fizesse parte daquele mundo perfeito mostrado nas redes sociais. Tinha contratado uma fotógrafa (para acompanhar o parto). Ela chegou às 8h, mas, às 21h, cancelei. Estava cansada, não queria mais. Comecei a desmistificar tudo ali mesmo”, lembra Rachel, que logo se viu diante do “enclausuramento surreal” imposto pelos primeiros meses de vida do filho. “Até então, idealizava muito, imaginava que ficar com ele em casa seria ótimo. Não que ele tenha dado trabalho, mas é muita responsabilidade”. 

Visão deturpada

Assim como ela, milhares de mulheres se deparam, todos os dias, com decepções, sensação de fracasso e impotência construídos a partir de uma visão deturpada do que é gerar, parir e criar um filho. Diretora científica do Instituto Nascer – clínica de Belo Horizonte focada no cuidado integral e humanizado à mulher e à criança –, a ginecologista e obstetra Quésia Villamil diz que o cenário, idealizado, é fruto mais da cobrança das mulheres consigo mesmas do que da sociedade.

“A brasileira quer ser boa profissional, boa mãe, linda, ter um corpo perfeito, a vida organizada e programar tudo o que quer. Então, vai em busca de realizar esse sonho (de ser mãe) da forma como deseja, esquecendo que há muitas variáveis: o corpo da mulher, o próprio bebê, o ambiente social onde vive, os amigos e a família que tem”, argumenta. Na opinião da profissional, que é mãe de Paulo, de 5 anos, Estévão, de 3, Rebeca, de 1 mês, e de Esther – que morreu ao nascer –, é preciso ter maturidade e resiliência. “A gente não faz só o que quer. É claro que podemos escolher, mas é preciso equilibrar, pois o mundo, a casa, nosso corpo têm regras. Maturidade é se adaptar, diminuir as exigências, deixar a casa suja, a roupa sem lavar”, pontua. 

“Não existem receitas nem regras, cada mulher sabe o que deseja. Tudo passa por um processo de autoconhecimento” - Quésia Villamil, ginecologista e obstetra

Mãe de Matias, que hoje tem 1 ano e 2 meses, Rachel concorda. “Sobre o parto (normal), no início pensei tanto se deveria ter feito, e recebi tantas críticas pela decisão, mas depois foi passando e assimilei. Já quero ter outro filho logo e espero que seja diferente. Ou não! A gente acaba sempre criando expectativa, mas tenho certeza de que a maternidade será mais leve. A intensidade toda do início passa rápido”. 

Mito da maternidade perfeita_Grayce Helena Lima da Costa com os filhos

Maior problema de Grayce, que não conseguiu amamentar os filhos, foi o julgamento alheio: “Tentava provar a qualquer custo que seria uma mãe como as outras”

Compartilhar experiências alivia angústias comuns às mulheres

Percorrer os nove meses da gestação e, mais ainda, enfrentar os outros muitos que virão sem se frustrar ou decepcionar fica mais leve com o compartilhamento de experiências semelhantes, é o que defende a psicóloga Daniela Bittar, especialista em reconstrução familiar com a chegada dos filhos. 

Segundo ela, o não julgamento, pessoal ou do outro, começa ao se falar abertamente sobre os problemas comuns à maternidade da vida real. “As pessoas se baseiam no que percebem dos outros. Se a mulher tem um filho e passa pelas dificuldades que todas passaram, não se sente sozinha nem inadequada. O mito é a gestação maravilhosa, o parto perfeito, a amamentação sem problema. Isso é o que se vê nas redes sociais, nas fotos bonitas. Mas quando nos aprofundamos, entramos na casa da mulher, percebemos que todas passam pelas mesmas dificuldades”, analisa. 

Grayce Helena Lima da Costa, de 42 anos, viveu na pele o julgamento alheio por não conseguir amamentar nenhum dos três filhos – Izabella, de 22 anos, João Victor, de 20, e Arthur, de 5. Para ela, era uma questão de honrar nutrir as crias no próprio peito. “O maior problema eram as críticas. Todo mundo falava ‘mas toda mãe amamenta, é da natureza da mulher’. Então eu me esforçava, afinal, se todo mundo conseguia, por quê comigo seria diferente?”, relembra a assistente social, revelando o sofrimento pelo qual passou. 

A servidora pública Carine Esther Muniz Tavares Branco, de 34 anos, também acredita que é por meio da empatia que se derruba mitos e se constrói realidades. Mãe de Felipe, de 1 ano e meio, e de Guilherme, de 2 meses, ela se desdobra na atenção aos pequenos e nos conflitos que vivencia no dia a dia. 

“A maternidade é bem romantizada, mas escuto de praticamente todas as mães as mesmas queixas. Sofreríamos muito menos julgamento se todas falassem abertamente sobre o que sentem. Porque nem sempre é gostoso ou perfeito, e não há mal em falar sobre isso, não deixamos de amar nossos filhos por isso. Estresse, desafios, desgaste, privação de sono vale para todo mundo”, opina.

“A vivência e as escolhas de cada uma devem ser respeitadas. É um processo individual, não merece julgamento” - Grayce Lima da Costa, mãe de três; nunca conseguiu amamentar

Além disso:

Todas as segundas-feiras, a psicóloga Daniela Bittar coordena um bate-papo sobre maternidade realizado pelo Grupo de Apoio às Mães, o Gamas. Nos encontros, que reúnem mais de 50 mulheres, são abordadas histórias comuns que envolvem o universo feminino, os desafios emocionais e financeiros da maternidade, mudanças no casamento e na vida afetiva, dentre outros.

Segundo ela, o grupo é um canal aberto para que as mulheres troquem experiências e informações e passem a entender que são iguais em diferentes aspectos. “Passamos pelas mesmas coisas, cada uma dentro de sua história, mas todas sofremos, choramos e nos desesperamos e não há nada de errado nisso”, enfatiza.

A partir do ano que vem, as reuniões, gratuitas, serão realizadas num espaço maior de Belo Horizonte. As novidades podem ser acompanhadas pelas redes sociais. 

 

Mito da maternidade perfeita_Carine Esther Muniz Tavares Branco com os filhos

Ficha de Carine, que se desdobra na criação dos filhos, de 1 ano e meio e 2 meses, só caiu após dar à luz: “fala-se muito pouco sobre o pós-parto, sobre a solidão que sentimos e o medo da reprovação”