A nutricionista Raphaella Cordeiro, de 36 anos, e a universitária Júlia Reis, de 22, não se conhecem, mas guardam algo em comum. Por cerca de quatro anos compartilharam um medo extremo de andar de avião, que as fez, inclusive, recusar viagens de lazer e programas em família. Elas não são exemplares únicos e representam bem quem padece de um mesmo mal, a aerofobia.

Muita gente minimiza o problema, subestimando-o ou até ignorando, mas fato é que a fobia de avião não é frescura nem bobagem. E precisa ser tratada. Foi exatamente por ter essa consciência do incômodo que sentia que a estudante buscou ajuda.

“Comecei a cismar com coisas bobas. Não conseguia nem chegar perto do aeroporto que já imaginava algo de ruim. Percebi que aquilo estava ficando sério e procurei uma psicóloga”, relembra Júlia, que deixou de ir para o Chile e para Miami com a família temendo uma catástrofe.

Após iniciar acompanhamento psicológico, aos 17 anos, ela foi diagnosticada com síndrome do pânico – gatilho para a fobia de avião. Foram necessários quatro anos de tratamento até que a jovem pudesse retomar a vida normal, encarando as viagens aéreas. 

Ela conta que, certa vez, estava de malas prontas para Florianópolis quando teve um ataque de pânico. “Comecei a chorar muito e tive uma crise de desespero. Falei que não ia mais. A sensação era de que iria morrer”, relata. “Forçada” pelos pais, ela acabou embarcando. Uma viagem para apagar da memória.

Atualmente, Júlia, cujo namorado mora em Cabo Frio, faz viagens frequentes de avião para o litoral carioca. Sempre na companhia de alguém, já que somente o medo extremo foi superado. 

“Sinto-me curada. Considero normal e até saudável o medo que tenho hoje”, comenta, revelando, porém, que não fica 100% tranquila quando está nas alturas.

Pessoas muito ansiosas e controladoras são mais suscetíveis a fobias; dependendo do grau, o medo pode levar ao rompimento de aneurismas e a problemas cardíacos graves
 

Medo desproporcional

A psiquiatra e psicanalista Marília Brandão Lemos de Morais Kallas explica que as fobias integram os transtornos de ansiedade. Diferentemente do medo, controlável, elas não precisam de fatores externos para vir à tona. Ou seja, não é preciso que o avião esteja na iminência de cair ou passando por uma turbulência, por exemplo. “É um medo desproporcional, que vem de dentro, do aparelho psíquico”, diz.

Ela reforça a importância do tratamento, mas desaconselha o uso de remédios para relaxar ou dormir, a menos que tenham indicação médica. Recomendação seguida à risca pela nutricionista Raphaella Cordeiro. Aerofó-bica de carteirinha, ela vem, aos poucos, superando o medo incontrolável. Vez ou outra, no entanto, ainda recorre a medicamentos prescritos por um profissional. 

“Uma vez, numa viagem para Londres, tomei um remédio para dormir. Na escala em Portugal, saí do avião, tomei café, fui ao banheiro, escovei os dentes, mas só me lembrei de tudo quando já estava no hotel, no destino final”, detalha a moça, que “apagou” durante o voo para evitar as consequências do pavor de estar ali. 

Hoje em dia, Raphaella, que passou quatro anos sem pisar num avião, tenta superar o medo. Para ficar mais tranquila, ela observa a reação dos tripulantes, se distrai com o serviço de bordo e com o celular. “Tento colocar na cabeça que aquele pânico e a sensação de que o avião vai cair são só um sentimento meu. As coisas não acontecem assim. Todos os dias, as pessoas vão e voltam e tudo termina bem”, diz. 

Tratamento inclui psicoterapia e até simulação de voo

Superar o pânico de estar nas alturas pode parecer, mas não é impossível. Fundadora da Voe Psicologia – primeira empresa brasileira especializada no medo de voar –, localizada em São Paulo, a psicóloga Fernanda Queiroz explica que existem três níveis de fobia e tratamentos distintos para cada um. Em alguns casos, inclusive, há indicação de voo simulado e até de aula com piloto. 

O motivo da individualização do tratamento, explica, é que para cada nível de medo extremo há um tipo de comprometimento da saúde e vida social do paciente. “A fobia de voo se difere do medo quando oferece limitações à pessoa, quando passa a impedir de fazer algo ou quando até conseguimos fazer, mas desencadeamos sintomas físicos e mentais, como uma crise de pânico por exemplo”, detalha. 

Segundo ela, é a partir da “leitura” do medo e dos prejuízos acarretados por ele que o plano de tratamento é traçado. Na Voe Psicologia, os pacientes podem ser submetidos a aula com piloto profissional, para tirar dúvidas e esclarecer mitos, e até colocados em voo simulado. “Tudo respeitando os limites de cada um e promovendo uma mudança real e duradoura”, diz.

Importante ressaltar também que quem sofre de aerofobia nunca deve ser forçado a enfrentar o medo a qualquer custo, lembra a psiquiatra Marília Brandão, de Belo Horizonte. “É uma situação avassaladora. Uma experiência emocional catastrófica”, justifica.

Cinetose

Quando mais do que pânico e medo de morrer, viajar de avião provoca enjoos, náuseas e vômitos, o problema pode ser outro. Causado por um conflito sensorial entre as informações visuais e as registradas pelo sistema vestibular, no ouvido, a cinetose é também chamada de mal ou enjoo do movimento.

Os incômodos também não se restringem àqueles provocados durante os deslocamentos de avião, podendo ser desencadeados em quaisquer outros trajetos, de navio, ônibus, de carro ou até em brinquedos como roda-gigante. 

Para tratar a doença, causada, principalmente, por problemas neurológicos, como a enxaqueca, são usados medicamentos antieméticos (que aliviam enjoos, náuseas e vômitos) e/ou supressores vestibulares. Os remédios servem tanto para prevenir quanto para eliminar os sintomas, explica a otorrinolaringologista Camila Carneiro, da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial (Aborlccf).

“Exercícios de reabilitação vestibular, um tipo de fisioterapia para o equilíbrio, também podem promover uma habituação aos sintomas”, acrescenta a especialista. 

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Aerofobia