Mariana* buscou ajuda psicológica para resolver um problema com o marido. Fernanda* procurou o mesmo caminho para entender a relação conflituosa com o pai. Dois cenários distintos e um objetivo comum: compreender, reconstruindo e honrando a história dos antepassados e do próprio pertencimento ao círculo familiar, os motivos que, de alguma forma, levaram ao enfraquecimento das relações. Nos dois casos, a ferramenta usada foi a constelação familiar.

Criada pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, a técnica envolve uma espécie de reconstrução da árvore genealógica do paciente a partir da criação de “esculturas vivas”. Partindo da premissa de que muitas dificuldades pessoais e de relacionamento resultam de confusões no sistema familiar, o método pode ser aplicado em sessões individuais ou coletivas. 

A fim de identificar e superar bloqueios que estejam impedindo o fluxo natural dos sentimentos por qualquer geração ou membro da família, estimula-se uma representação dos envolvidos no conflito. Nas sessões coletivas, essa representação dos membros da família do paciente constelado (é possível se inscrever também só para assistir) é feita por alguns dos demais presentes. Os que se sentirem à vontade. 

Psicoterapeuta há 20 anos e consteladora há quase dez, Solange Rolla explica que todos os presentes usufruem dos benefícios.
“Quando trabalho o não julgamento, isso reverbera para todo mundo. Quanto mais eu conseguir me manter nessa energia, mais resolvo meus problemas. É um processo de reeducação da consciência e do campo espiritual. Simples, mas não é fácil”, diz.

Representação

Mais comuns, as constelações em grupo duram cerca de 45 minutos, conforme a complexidade do tema trabalhado. O paciente apresenta o conflito e a terapeuta inicia o processo com a ajuda de outros participantes, imersos na energia da representação. 

O gatilho do conflito é identificado e “revivido” pelos participantes. Assim, é possível descobrir bloqueios, traumas ou até causas mais amplas – e desfazê-los. A técnica pode ser empregada para todo tipo de conflito pessoal, interpessoal, ligado a problemas de saúde, a vícios ou a temas profissionais.

“Não se trata de resolver o problema da maneira que se deseja, mas de abrir a energia para que aquela situação seja transmutada. É uma forma de enxergar a realidade mesmo ela não sendo exatamente o que eu quero que seja”, explica Solange Rolla. 

A superação do problema relatado, segundo ela, pode levar uma ou várias sessões e até mesmo não ser solucionado, mas minimizado. “Às vezes não se resolve aquela questão, mas torna-se mais leve. Coloca-se o paciente para caminhar rumo a uma mudança de consciência”, explica. 

*Nomes fictícios de pacientes que participaram de sessões coletivas com a consteladora Solange Rolla.

'Fui convidada por uma amiga e, desde então, tenho participado de muitas constelações. Os benefícios são reais. Assisti a uma constelação e percebi que tudo o que era falado era idêntico às questões que eu vivia em meu casamento. Eram mais do que coincidências de fatos e posturas. Era como se lentes fossem ajustadas e eu pudesse ver claramente a minha situação. As alegrias e tristezas humanas, na essência, são muito parecidas. O que senti foi revelador. Houve compreensão, perdão, respeito, aceitação. Minhas atitudes mudaram" - Arlene Vidal, psicóloga

 

Constelação familiar

Juliana usa papéis para representar os conflitos nas sessões individuais

Método é usado em outras áreas profissionais como forma de modificar o olhar sobre o outro

Além de ser usada por psicólogos e terapeutas como forma de atenuar os conflitos dos pacientes, a constelação familiar (ou sistêmica, como também é chamada) é aplicada cada vez mais por profissionais de outras áreas de atuação que desejam transformar o próprio olhar sobre o conflito do outro e sobre as vivências do dia a dia. 

Em Belo Horizonte, a assistente social Juliana Rodrigues da Costa utiliza os conhecimentos adquiridos com a ferramenta a serviço dos clientes mirins. “Não uso a constelação propriamente dita, mas a teoria que aprendi com ela. Trabalho no núcleo de crianças e por meio da prática consigo ampliar meu campo de visão e não olhar para uma pessoa somente, mas para todas que estão por trás: pais, avós, bisavós, ex-parceiros de pai ou mãe, irmãos”, explica a profissional, referindo-se ao método da terapia ancorada numa espécie de árvore genealógica dos pacientes. 

Visão sistêmica

De acordo com Juliana, que é também consteladora e atende em BH e no Espaço Florescer – terapias integrativas, em Contagem, na Grande BH, a constelação familiar ajuda a ter uma visão ampliada da vida, possibilitando encontrar respostas nas experiências do outro e não somente nas de si mesmo. 

“Criança com dificuldade de aprendizado pode estar carregando um peso de família e isso repercute na disponibilidade dela para estudar ou não. Ela pode estar olhando para um irmão que faleceu ou assumindo uma dor que não é dela, mas da mãe. Oriento-as a buscar ajuda, a elaborar melhor a questão. Isso ajuda na compreensão da dificuldade”, explica. 

"Constelação não é mágica. Algumas coisas acontecem sim com rapidez, mas é uma tomada de consciência. Aquilo que você nem imagina vem à tona. É como se estivesse vendo a essência da pessoa, sentimos com o coração e vemos o que ela passou, o que viveu. Tenho notado que estou mais aberta para a vida. Tenho renovado muitas coisas no meu dia a dia e ficado mais presente no aqui e agora. Tenho me sentido melhor para tomar decisões, para pensar, para estar em contato comigo mesma" - Teresinha Edina Oliveira Couto, psicóloga

Saiba mais:

Na Justiça brasileira, o método vem sendo utilizado em situações que envolvem dramas de origem familiar, tais como violência doméstica, guarda de filhos, divórcios litigiosos, inventários, adoção e abandono. Além do Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Rondônia, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, Alagoas e Amapá aplicam a técnica, conforme informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). 

A medida está em conformidade com uma resolução federal de 2010. O texto estimula práticas que proporcionam tratamento adequado aos conflitos de interesse do Poder Judiciário. Nesses casos, a técnica é empregada como uma espécie de reforço anterior às tentativas de conciliação. A ideia é esclarecer para as partes o que há por trás do conflito que gerou o processo judicial.

Na Vara de Infância e Juventude de Brasília, por exemplo, constelados que estavam afastados entre si conseguiram recuperar a boa relação com a família. O método ajudou a amenizar o conflito, sobretudo quando se tratava de famílias adotivas, ajudando, inclusive, na reaproximação com os pais biológicos.

Na Bahia, um juiz de Itabuna, um dos primeiros a lançar mão dos benefícios da constelação no âmbito judicial, conseguiu resultados satisfatórios na resolução de conflitos familiares. Das 90 audiências nas quais pelo menos uma das partes participou das constelações, houve 91% de conciliação. Nos processos com as duas partes envolvidas, o resultado foi 100% positivo.

 

EU EXPERIMENTEI - Por Patrícia Santos Dumont

Participar de uma constelação, mesmo sem ter sido constelada, para mim, foi passar a ver a vida e o meu pertencimento nela de uma maneira muito mais respeitosa e até grata. Há cerca de um mês, presenciei experiências tão maravilhosas sobre a vida de cinco pessoas que eu sequer conhecia, que algo dentro de mim mudou também. No princípio, confesso, rolou um certo receio e até uma dúvida sobre até que ponto aquela representação toda (as constelações propriamente ditas) era verdadeira ou teatral. Mas com o tempo, a gente - da "plateia" - vai vendo que é tudo uma questão de energia.

Antes de a sessão começar, é preciso desligar os celulares (não basta colocar no silencioso), pois eles interferem na vibração energética de todos. Na sequência, a consteladora explica um pouquinho sobre a terapia, mesmo que a maioria dos presentes ali já conheçam sobre ela. Dos mais de 40 participantes daquele dia, apenas quatro ou cinco, e me incluo nesse grupo, eram marinheiros de primeira viagem. E daí, parte-se para a primeira constelação, que durou uns 30 minutos. É preciso se inscrever antes para ser constelado.

Não é que eu tenha vivido algo parecido com o que foi colocado pela paciente - um problema no relacionamento com o pai -, mas estar ali e ouvir (e ver) toda aquela história, que envolvia vidas passadas, a mãe, que havia morrido, as relações dela no trabalho e mais uma série de outras questões, me mostrou como posso fazer da minha própria vida algo muito mais leve e fácil, de certa forma, torná-la também mais produtiva. É só parar de julgar!

Difícil descrever uma experiência tão transformadora, reveladora. Acho que só vivendo mesmo para entender completamente como as constelações funcionam e o que elas podem fazer na vida da gente. Para quem chegou ressabiada, mas cheia de curiosidade, a experiência não foi nada mal. Pelo contrário. Foram mais de três horas (saldo das cinco constelações daquela noite) de muito aprendizado e a certeza de que a gente só se torna melhor quando se conhece mais e respeita o outro. Se posso dar um conselho é: participe, mesmo que não seja constelando. Vale muito a pena passar por cima das desconfianças e do ceticismo, que a gente lá no fundo tem, e experienciar.