Mais do que simplesmente roupas de uma nova coleção, um desfile deve mostrar conceitos, levantar uma bandeira ou mesmo exibir o lifestyle da marca. Afinal, moda é forma de exposição do tempo, um meio para contar histórias.

No entanto, ser capaz de apresentar esse conteúdo na passarela requer não só o entendimento de que o vestir é algo além do automático e necessário, mas também experiência e coerência com aquilo que se propõe.

Dentre as mais de 30 marcas que desfilaram durante a 45ª edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), realizada entre 21 e 26 de abril, algumas propuseram reflexão, questionamento, celebraram a diversidade.

Um dos estilistas a cumprir o papel de ir além das roupas foi o mineiro Ronaldo Fraga, que expôs coleção que resgatou memórias dos atingidos pela tragédia de Mariana. 

Ronaldo Fraga SPFW abril 2018

Coletivo constituído por 32 mulheres, de 17 a 80 anos, de Barra Longa, trabalhou com peças únicas bordadas com formas, cores e estampas diferentes; itens deram vida à coleção de Ronaldo Fraga

Em parceria com o coletivo “As Meninas Bordadeiras de Barra Longa”, uma das cidades que sofreu as consequências do rompimento da barragem de Fundão, Fraga confeccionou as peças da coleção “As Mudas”.

“Passada a tragédia ambiental, a gente corre risco de cair em uma tragédia cultural, um desaparecer de saberes e fazeres importantíssimos na formação desse povo. Diante disso, eu as convidei a bordar as plantas dos jardins que um dia foram cobertas pela lama. Comigo-ninguém-pode, espada-de-são-jorge, maria-sem-vergonha...”, observa o consagrado estilista.

Um alento para gente como a bordadeira Iris Ferreira, de 60 anos, que, em novembro de 2015, perdeu todos os pertences. “Estava me preparando para a Feira Nacional de Artesanato e perdi tudo. Todos os bordados, móveis, fiquei um ano sem trabalhar. Agora tento reconquistar os clientes que perdi. Está difícil, mas com essa oportunidade dada pelo Ronaldo, vai ficar muito mais fácil, estou confiante”, relata.

Amapô

Amapô levou à passarela, ao som do pop dos anos 90 e primeira década de 2000, figuras da cena cultural paulista, LGBT e skatista


Diversidade

Mesclar o universo do brechó a novas criações, ressignificando as peças, foi ponto de partida das diretoras criativas da Amapô, Carolina Gold e Pitty Taliani, para a coleção Verão 2019, desfilada em casa de bailes de zona boêmia paulistana.

A grife celebrou a diversidade, levando para a passarela, ao invés de modelos, figuras da cena cultural e performática de São Paulo, aprontando uma verdadeira festa ao som de clássicos da música pop de artistas de grande representação LGBT como Lady Gaga, George Michael e Madonna.

Lino Villaventura SPFW abril 2018

Lino Villaventura, em desfile que celebrou os 40 anos de carreira do estilista, trabalhou pespontos nas roupas e nos rostos dos modelos

Essa posição múltipla e plural também é a proposta da LED, jovem grife mineira que, pela segunda vez consecutiva, desfilou na SPFW. Na coleção “Apocalíptica”, a inspiração foi o “caça às bruxas” contemporâneo: o que não é considerado comportamento-padrão é visto com maus olhos.

O estilista da LED, Célio Dias, comemorou a oportunidade e indica que poderá estar na próxima semana de moda mineira. “Provavelmente voltaremos ao Minas Trend em outubro deste ano, com várias questões alinhadas. Precisamos pensar que a marca ainda é pequena e que a demanda para estes eventos é grande”, coloca.

(*) Viajou a convite da São Paulo Fashion Week

SPFW abril 2018

(E) Um olhar para a sustentabilidade por meio da comunidade japonesa Yuba, no interior de São Paulo, deu vida à coleção de Fernanda Yamamoto; (D) Ensinar o crochê a detentos foi de onde partiu o projeto Ponto Firme, cujo resultado pôde ser visto na São Paulo Fashion Week