O filme “Pelé – O Nascimento de uma Lenda” pode até abusar da fantasia, forçando certos elementos dramáticos para contar a história de um dos maiores jogadores de futebol da história, mas não como há duvidar de sua eficiência narrativa ao repetir a abordagem heroica dada pelo cinema mainstream a figuras dessa relevância.

 

De produção inglesa e já em cartaz nos cinemas, “O Nascimento de uma Lenda” justifica o seu subtítulo, perfazendo a jornada típica do herói, desde a formação, em que herda uma missão de seu pai, passando pela necessidade de devolver o orgulho abalado de sua pátria, até enfrentar vários obstáculos para mostrar o seu valor.

 

A história começa em 1950, justamente no ano em que o Brasil perdeu para o Uruguai a final da Copa do Mundo dentro do Maracanã, com o pai Dondinho ouvindo do garoto de dez anos que iria trazer a taça para o Brasil. A relação entre os dois é importante para espelhar os desejos e temores de Dico, como era chamado antes de virar Pelé.

 

Vestindo a camisa do Atlético, Dondinho machucou o joelho e não pôde prosseguir com a carreira, indo para Bauru, interior paulista, onde trabalhou como faxineiro e viu Pelé dando os seus primeiros chutes na bola. Essa dúvida, entre estudar e tentar a sorte como jogador, ronda permanentemente a infância e adolescência do protagonista.

 

Quando ele se lesiona na véspera da Copa de 1958, ainda com 16 anos, a questão do joelho machucado do pai ressurge com força, alertando para uma história que repetiria como uma sina familiar – e, por consequência, do homem pobre e negro, cujas dificuldades se tornam mais evidentes numa sociedade racista.

 

Ideia que está estampada na criação do antagonista, Mazzola, filho arrogante de uma família endinheirada para quem a mãe de Pelé trabalha. De extratos sociais diferentes, os dois medem forças desde os campinhos de Bauru até chegarem à Seleção Brasileira e disputarem a atenção do rígido técnico Vicente Feola.

 

Somos apresentados ao personagem a partir desse conflito social, quando ele e sua turminha brincam de dar passes em meio a ruelas de um bairro pobre, chamados de “pés descalços” pelos meninos de melhor condição. Talvez nessa parte é que se encontre os instantes de maior exagero, ao enaltecer a força “selvagem”, termo muito usado no filme.

 

Pode soar como um reforço ao estereótipo de imagem do Brasil, especialmente quando Dico/Pelé relembra dos treinamentos com frutas, origem de sua habilidade com os pés, nos momentos em que precisa vencer seus obstáculos, como o garoto de “Karatê Kid” que encera carros e pinta cercas para ganhar humildade e força nas cenas decisivas.

 

E é importante que os roteiristas tenham vinculado, baseando-se em algumas teses, a ginga do jogador brasileiro à capoeira, aos elementos ancestrais de uma raça e de um povo, que também aparecem na trama como um significativos de uma época de transição no país, ansiando por ser moderno como os europeus.

 

A segunda etapa de “O Nascimento da Lenda” trabalha com intensidade essa questão, a partir da Seleção Brasileira. Feola recebe a missão do presidente da República de apagar o vexame de 1950, cortando aquilo que o futebol brasileiro tem de mais natural e espelhando-se no jogo compacto dos europeus.

Aspectos que, possivelmente, seriam difíceis para um filme feito no Brasil abordar, pois pareceriam ingênuos se não lastreados por aspectos políticos e históricos, de um país colonizado por portugueses que só queriam tirar nossas riquezas. A diferença está aí, na maneira como justificar certas mazelas sociais.

 

Os ingleses optaram por exibir um herói que venceu todos os desafios, interiores e exteriores, como se ele fosse destinado à eternidade. Assim que são construídos os mitos, como um Bruce Wayne que presenciou os seus pais serem assassinados e jurou fazer justiça na pele de Batman, entre tantas outras histórias de conquista e redenção.