Projeto de melhoramento genético realizado em animais da região de Mariana, a 115 quilômetros da capital mineira, promete aumentar em 50% a produção leiteira das fazendas. A iniciativa, cujo foco são propriedades rurais atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, emprega técnicas adequadas de manejo e inseminação artificial.

O objetivo, conforme a Fundação Renova – responsável pelo programa –, é atender às 253 propriedades rurais mapeadas. As fazendas estão localizadas entre Fundão e a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves. Desde janeiro, quando o Renova Rebanho entrou em vigor, 48 propriedades aderiram ao programa, totalizando 255 vacas inseminadas e 87 prenhezes confirmadas. 

Líder de Operações Agroflorestais da Fundação Renova, Giorgio Vieira Peixoto reforça que a adesão é voluntária. Produtores interessados selecionam animais, que passam por triagem antes de serem submetidos ao tratamento de reprodução assistida. 

“Após um mapeamento, a fêmea que mais se destacar é selecionada para cruzamento com touros à escolha do produtor”, detalha Peixoto. 
Dentre as raças de machos disponíveis estão holandês (caracterizada pela alta produção e facilidade de manejo), girolando (resultado do cruzamento entre holandês e gir), jersey (mais completo leite produzido entre as raças leiteiras) e gir (originária da Índia). 

Não há limite de animais por propriedade, nem de produtores atendidos no programa, que é gratuito.

Inicialmente, o Renova Rebanho se concentrará no território que vai de Barra Longa a Rio Doce (divisa com Espírito Santo) – dois dos municípios atingidos pelo desastre ambiental, em 2015. A expectativa, porém, conforme o Líder de Operações Agroflorestais da fundação, é que a assistência técnica rural seja fornecida a produtores de toda a área atingida.

Linhagem

A inseminação dos animais vem sendo realizada nas próprias fazendas sob vigilância profissional. Todas as etapas, da pré à concepção são acompanhadas. Giorgio Peixoto explica que o objetivo é criar uma linhagem de descendentes com maior capacidade leiteira apta a produzir leite de melhor qualidade. “Na geração seguinte, a qualidade da genética do rebanho será notadamente melhor”, afirma.

A expectativa é a de que em até dois anos, as propriedades envolvidas tenham a capacidade leiteira aumentada em 50%. Atualmente, quase todas as áreas com gado no entorno de Mariana destinam-se à produção leiteira.

Além de terem os animais submetidos à técnica de reprodução assistida, produtores rurais que aderirem ao Renova Rebanho serão contemplados com assistência de manejo racional do gado. “O Renova Rebanho integra um conjunto de ações para melhorar a produtividade das áreas atingidas. Além da inseminação das vacas, vamos implementar um projeto de rotação de pastagens e orientar os produtores sobre as melhores condições de criação”, diz Peixoto. 

Produtor rural em Ponte Nova, Ricardo Savio tem boas expectativas. “Estou otimista e colhendo bons resultados com confirmação de duas prenhezes. É uma iniciativa que vai além da questão econômica”, comemora. 

De Barreto, distrito de Barra Longa, Leonardo de Castro espera aumentar a produção em 20%. Das 30 matrizes escolhidas, nove poderão ser inseminadas.

Triagem avalia saúde e capacidade reprodutiva

Antes de serem levadas para a inseminação, as vacas eleitas por cada produtor rural passam por uma triagem, cujo objetivo é atestar a boa saúde do animal. Além de avaliação morfológica, os exemplares selecionados são inspecionados quanto à capacidade reprodutiva. 

“Fazemos uma avaliação bem criteriosa da morfologia do animal e ainda avaliamos a capacidade leiteira dele. Vacas lactantes, por exemplo, só podem entrar no programa se tiverem mais de 45 dias de pós-parto”, esclarece o veterinário Hugo Tavares de Castro, do Renova Rebanho. 

Ele explica que o projeto utiliza a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), técnica que promove a sincronização da ovulação das fêmeas após administração de medicamentos em dias predeterminados. O objetivo é promover a sincronia entre os cios, inseminando vacas paridas e novilhas em um mesmo dia.

2 anos é a idade média em que as vacas começam a produzir leite; projeto inclui a inseminação das novilhas

Condição superior

A taxa de prenhez dos exemplares selecionados para a reprodução assistida gira em torno de 54%, ou seja, de cada dez vacas assistidas nas propriedades, mais de cinco darão à luz bezerros com condição genética superior à da matriz. Fêmeas nascidas de vacas inseminadas artificialmente passarão pelo mesmo procedimento. O objetivo é criar gerações geneticamente melhoradas, aptas a produzir mais leite. 

Somente animais a partir de dois anos podem ser submetidos à técnica de reprodução assistida.

“Antes de mais nada, é imprescindível que o animal esteja em boas condições nutricionais, sadio, e que a propriedade esteja em dia com o calendário sanitário. Só manipulamos animais em boas condições de saúde”, reforça o veterinário Hugo de Castro.

Projeto Renova Rebanho de inseminação artificial em Mariana

Animais precisam estar com a saúde em dia para serem inseminados

Seleção genética

A seleção genética de animais também foi o caminho encontrado, recentemente, por pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, para produzir leite menos alergênico. 

O trabalho consiste em selecionar animais com genotipagem favorável para a produção de leite sem algumas das proteínas que mais causam alergia nos humanos. 

Além de benéfico para alérgicos, o leite A2, como é chamado, mostrou-se importante também para pessoas com doenças cardiovasculares. No Brasil, a produção desta variedade da bebida ainda é pequena.

235 propriedades foram mapeadas na região atingida pelo rompimento da barragem de Fundão; 20% aderiram ao programa, iniciado em janeiro