Quando o assunto é trabalho, o sonho de consumo de muita gente é abandonar a mesa do escritório e migrar para o conforto do lar. Na cabeça dessas pessoas, nada mais prazeroso do que ter liberdade para definir a agenda, conjugando tarefas laborais às domésticas. O que poucos sabem é que para aderir ao home-office é preciso, antes de mais nada, ter perfil. Ignorar as particularidades do novo regime é erro na certa. 

Sob pena de ver a produtividade ir por água abaixo, o trabalhador pode acabar também desestimulado pelo isolamento e, mais do que isso, cair no esquecimento. Diretora da Link Me In, em Belo Horizonte, a coach e headhunter Luciana Andrade passou pela transição há cerca de 2 anos.

Ela afirma que, sem dúvida, existem inúmeras vantagens na modalidade de teletrabalho, tais como economizar tempo com deslocamento e ter autonomia para programar-se e definir horários e tarefas. Avaliar o perfil do profissional, entretanto, é dever primordial na lista do que fazer antes de tomar a decisão. 

“Tem gente que não consegue ter disciplina nem organização e que se perde se fica ‘solta’ demais. Cabe à empresa avaliar as competências comportamentais do funcionário. Se ele tem necessidade de reconhecimento, se precisa de interação. Muita gente precisa disso para manter a produtividade”, alerta. 

Coloque limites

Outro cuidado importante – aliás, fundamental – é deixar claro para a família ou para quem mais dividir a casa que o fato de o “funcionário” estar ali o dia todo ou grande parte dele não significa disponibilidade o tempo inteiro. 

No caso de Luciana, por exemplo, que mora com os pais, foi preciso fixar uma plaquinha na porta do “escritório” – montado no antigo quarto do irmão – para que eles respeitassem o momento do trabalho. “Em atendimento. Favor não interromper. Se for urgente, mande um WhatsApp”, diz o aviso, que vem funcionando, garante a coach e headhunter.

Abstrair as interferências externas, tais como a visita que chegou em casa, o telefone que não para de tocar ou o barulho da televisão também é fundamental para centrar-se no trabalho e manter a agenda em dia. Importante ainda delimitar a estrutura que será usada com exclusividade pelo trabalhador do home-office, incluindo linha telefônica e sinal de internet. 

Se o trabalho exigir visitas esporádicas ao escritório para reuniões, por exemplo, vale a pena ficar de olho no contato e não descartá-lo. “OK também fazê-las por teleconferência ou combinar um dia da semana e estar presente”, diz Luciana. 

Além disso

Além de preocupar-se com o perfil pessoal e com expectativa e resultados do trabalho feito em casa, é preciso ficar de olho também na rotina para evitar o isolamento total após a transição para o home-office. Presidente da Odgers Berndtson, consultoria estratégica de capital humano, em São Paulo, Luiz Wever destaca a perda da convivência intelectual direta como uma das principais desvantagens. “No escritório, os colegas estão em volta, há troca de ideias, de planos e as estratégias são criadas em conjunto”, diz. Diante desse cenário, é importante, segundo ele, pesar o que agrada e desagrada para ter certeza de que a escolha fará bem e não irá interferir negativamente no desempenho.

A questão é reforçada também pela diretora da Link Me In, em BH, Luciana Andrade, que criou estratégias para incluir na rotina a convivência com os colegas. “Gosto muito de socializar e, para mim, era muito solitário ficar só em casa. Atualmente, duas vezes por semana tenho contato com colegas de trabalho, nos encontramos num coworking. Apesar de cada um ter a própria empresa, ainda existe esse senso de coletividade e isso supre um pouco a carência de não haver um espaço em comum, de tomar um café ou sair para almoçar”, comenta. 

Até 2020, quando Tóquio sediará as Olimpíadas, cerca de 60 mil trabalhadores que vivem na região metropolitana da capital japonesa serão convidados, uma vez por ano, a deixar os escritório e trabalhar em casa. A ideia é desafogar o trânsito e o transporte público

ENTREVISTA:

Antônio Queiroz Júnior, advogado, diretor-executivo da escola da Associação Brasileira de Advocacia Tributária (Abat), membro da Comissão de Direitos Sociais e do Trabalho da OAB/MG

O que muda com a nova lei trabalhista em relação à estrutura necessária para as atividades serem executadas na casa do trabalhador? 
Embora o risco do negócio seja do empregador e, em razão disso, ele deva arcar com os custos, a reforma permite que ambos partilhem esses custos. Ao empregador cabe colocar no contrato quais custos serão suportados pelo empregado e por ele. Se o empregador não discriminar a divisão dos custos no contrato, é ele quem terá que arcar com os valores. 

De que forma é possível comprovar o tempo trabalhado e requerer, por exemplo, horas extras? 
Todas as regras e determinações deverão ser informadas ao empregado antecipadamente, em contrato, de modo claro e objetivo. A lei diz que caso não exista controle da jornada, empregados em regime de teletrabalho não farão jus a qualquer espécie de prorrogação de trabalho. Entendo, no entanto, que o controle pode ser feito. Diferentemente de um tempo atrás, é possível, por uma série de instrumentos, controlar a jornada de alguém. E se há o menor dos controles, entendo serem devidas horas extras, intervalos laborados, domingos e feriados.

É permitida a elaboração de contratos híbridos, com trabalho executado no escritório e em casa?
Não. Esse tipo de contrato cria um passivo trabalhista sem precedentes.

E os gastos com a manutenção dos equipamentos e materiais utilizados? A quem cabe?
Importante que o empregador discrimine todo e qualquer tipo de gasto, desde equipamento para o trabalho a eventuais despesas com transporte, energia elétrica e internet. 

Confira dicas para acertar na escolha:

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