Você recebe mais críticas do que elogios? Nada do que faz é bom o suficiente para determinada pessoa, que está sempre tentando te colocar para baixo, depreciando e diminuindo seu valor? Sente que não pode ser verdadeiro para não desagradar o outro e vive pisando em ovos para manter uma convivência harmoniosa? Ligue o alerta! Situações como essas revelam mais do que problemas usuais ou a fragilidade de uma relação: escondem relacionamentos tóxicos.

Mais frequentes entre casais, podem acontecer no ambiente familiar, entre amigos e até no trabalho. Para identificá-los, ensina a psicóloga Sarita Teixeira, é preciso exercitar a auto-observação e reparar em comportamentos repetidos que denotam hostilidade, chantagem emocional, abuso de poder, repressão e conduta manipuladora. 

“São falas e até gestos que provocam culpa, submissão e, principalmente, que desqualificam o indivíduo. Relações nas quais uma pessoa desconsidera a outra e que, geralmente, acontecem com indivíduos com autoestima baixa e que vivenciaram situações traumáticas, como abuso ou rejeição não tratados, mesmo que inconscientes”, detalha.

Codependência

A autônoma Daniela*, de 33 anos, passou por tudo isso num namoro que durou 3 anos e meio e terminou definitivamente há pouco mais de 2 (leia depoimento no fim da matéria). “Os primeiros seis meses foram maravilhosos. Ele era supercarinhoso e eu estava feliz e apaixonada. Aos poucos, fui descobrindo situações que transformaram minha vida. Tudo era motivo para parar de falar comigo, me humilhar e agredir com palavras”, lembra.

Embora identificasse sinais claros de que as coisas iam mal, livrar-se daquele vínculo era mais difícil do que manter-se nele, conta a moça. “Era uma relação de codependência. Sabia que não fazia bem, mas não conseguia escapar. É como se eu precisasse estar naquele ambiente, naquela situação de conflito”, justifica. 

É justamente assim que se sentem os agredidos – forma como a psicóloga Sarita Teixeira denomina o indivíduo que exerce o papel passivo diante das agressões. “Apesar de se revelar como uma relação pautada na desvalorização pessoal, uma ou ambas as partes pode se adaptar a um sistema de compensação, que mantém a relação de dependência”, explica. 

Segundo ela, muitas vezes o indivíduo também não abre mão daquilo por medo de ficar sozinho ou de não encontrar outra pessoa que seja capaz de aceitá-lo como ele é. “Muito comum em pessoas que têm baixa autoestima”, reforça a profissional.

Ajuda

Psicóloga e coach de propósito de vida, Ana Mansur, do Rio de Janeiro, lembra que tão importante quanto buscar ajuda profissional é ficar atento ao que pessoas próximas, nas quais se confia, dizem. Ela ressalta que quem está de fora geralmente identifica com mais facilidade os relacionamentos tóxicos, que mais fazem mal do que bem. 

“Outra atitude que pode facilitar é procurar um psicólogo. Na terapia, é possível falar, se escutar e refletir sobre a situação e a forma como o relacionamento está presente na vida de cada um. Ficam evidentes também as consequências que ele traz”, afirma. 

* Nome fictício

“Não temos controle de quem chega até nós. Mas uma vez que identificamos, a decisão é nossa de permanecer ou se afastar” - Sarita Teixeira, psicóloga

Namoro da filha foi gatilho para relação doentia

Até os 18 anos, a relação entre Fernanda*, hoje com 27, e a mãe era perfeita. Melhores amigas, faziam tudo juntas, eram confidentes e se bastavam, já que formavam, sozinhas, uma família. Foi só entrar na faculdade e conhecer o primeiro namorado para que a filha notasse os sinais da perversidade materna. Nascia ali uma relação tóxica.

A história da jornalista ilustra situações sobre as quais pouco se fala, mas nem por isso incomuns. Segundo o psicólogo clínico e neurocientista Julio Peres, quando a mãe (ou o pai) sai da condição natural de provedor de afeto para o desenvolvimento saudável do filho e torna-se um competidor vem o problema. 

Fernanda conta que a mãe “pirou”. “Ela o odiava. Eu até tive problemas com ele, mas nunca compartilhei com ela. O ódio era dela e não por minha causa”, diz. Em função dos inúmeros conflitos e até de ameaças, como a de suspender o pagamento da faculdade (o que acabou se concretizando), mãe e filha se afastaram. Hoje, praticamente não se relacionam. 

“Cheguei a ficar dois dias no quarto para não ter que vê-la. Não dormia, não queria sair nem comer. Coloquei um balde no quarto para fazer xixi. Se não fosse um amigo ou o namorado ir me buscar, iria morrer vegetando” - Fernanda*, 27 anos, sobre um dos episódios vividos com a mãe

“Ficamos dois anos sem nos falar, morando na mesma casa. Mas quando tinha alguém por perto, eu era a melhor filha do mundo, e ela me tratava superbem. Mudei de lá há um ano e a única coisa que ela disse é que não tinha dinheiro para cuidar do meu gato”, revela Fernanda, que hoje se divide entre o “ódio mortal” pela mãe e a pena. 

Agressões verbais ou físicas, menosprezo, cobranças descabidas e falta de carinho são alguns dos sinais das relações tóxicas entre pais e filhos. Segundo Julio Peres, situações que implicam em herdeiros que se julgam sem beleza, competência e inteligência – qualidades que, acreditam, poderiam lhes garantir amor e reconhecimento.

“Venho tentando sair do papel de vítima. Dói menos. Mas não sou um poço de pessoa bem resolvida. No fundo, é nisso que tento acreditar e seguir. Mas tem dias que vou para o chuveiro e saio inchada de tanto chorar”, diz Fernanda.

* Nome fictício

Além disso

Relações emocionalmente desgastantes podem deixar sequelas na parte passiva do relacionamento, ou seja, no indivíduo que é energeticamente “sugado” pelo outro. “Essas pessoas acabam desacreditando no seu potencial e valor, passam a ter dificuldade de se valorizar, de ter um olhar positivo e de carinho sobre si mesmas. Além disso, podem não conseguir estabelecer novos relacionamentos saudáveis”, detalha a psicóloga e coach Ana Mansur.

Pessoas que se sujeitam a esse sistema de compensação também deixam de se posicionar e de tomar atitudes para romper o círculo vicioso da codependência e podem acabar fisicamente doentes, caso de Daniela e de Fernanda. A primeira desenvolveu um hipotireoidismo (doença autoimune), a segunda tinha crises constantes de enxaqueca, que desapareceram com o fim do contato com a mãe. 

“A pessoa começa a se anular, a perder seus valores e a passar por cima de princípios e acaba se perdendo nessa relação. Começam a surgir questões emocionais mais sérias, como depressão, síndrome do pânico e transtornos de ansiedade, e o corpo acaba manifestando doenças autoimunes, psicossomáticas”, diz Sarita Teixeira. 

“Uma criança que sofreu pode inconscientemente repetir com os filhos a mesma conduta. Uma vez sou vítima, outra, algoz. Resolver o tema envolve enxergar o passado e o agora. É preciso seguir sem traços traumáticos” - Julio Peres, psicólogo e neurocientista 

Relacionamentos tóxicos