Dar múltiplos significados às roupas que confecciona e transformar a passarela em um palco de contar histórias talvez sejam os dois maiores talentos do estilista Ronaldo Fraga. Mais uma vez, o mineiro teve a capacidade de tirar o fôlego e provocar o choro naqueles que assistiram ao desfile realizado no início da noite dessa quinta-feira (26), último dia da São Paulo Fashion Week (SPFW).

Nessa oportunidade, Fraga tratou de parte da maior tragédia ambiental da história do Brasil: o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Passados quase três anos do ocorrido, o mineiro teve o auxílio do coletivo "As meninas bordadeiras de Barra Longa", uma das cidades atingidas pela lama, na confecção das peças.

O coletivo é constituído por 32 mulheres de 17 a 80 anos que trabalham com peças únicas bordadas em técnicas denominadas "richelieu" e "livre", com formas, cores e estampas diferentes. 

"A cidade foi reconstruída, embora tenha um 'sem lugar' ali que vai ficar durante muito tempo. Diante daquilo, eu as convidei a bordar as plantas dos jardins que um dia foram cobertas pela lama", explicou Ronaldo momentos antes do desfile.

Para ele, passada a tragédia ambiental, uma outra pode também acontecer. "A gente corre risco de cair em uma tragédia cultural, um desaparecer de saberes e fazeres importantíssimos na formação desse povo. Quando fui convidado para conhecer essas bordadeiras de Barra Longa, eu investiguei que esse bordado chegou lá no século 18 pela mão dos portugueses, é história daquele lugar", explicou.

Ronaldo Fraga SPFW abril 2018

Ronaldo Fraga emocionou a todos com desfile e nova coleção

Coleção

Nas peças da coleção intitulada "As mudas" - em referência às plantas -, Ronaldo Fraga utilizou linho em quase 100% delas, que é um tecido natural. Além disso, "uma cartela de cores que começa no terra, passa pelo marfim profundo e termina no luto, no gosto amargo, no preto", disse o estilista.

Como não poderia deixar de ser, a apresentação do mineiro contou com performances. A musical ficou a cargo de Lívia Nestrovski e Fred Ferreira que executaram, ao vivo, fortes canções populares que remetiam ao sofrimento e à resiliência daquelas comunidades. 

A teatral foi realizada pela apresentadora e atriz Marilia Gabriela no início e no fim do desfile. As modelos também participaram da encenação no término da apresentação.