Diz o jargão: “Quem se lembra de Woodstock, é porque não esteve lá”. A frase faz referência ao estado, digamos, alterado, do público presente no clássico evento de 1969. Pelo jeito, o bordão também faz sentido para a versão mineira do evento, o Show do Paraíso, realizado em 1977. Lô Borges que o diga.

“Não quero te decepcionar com a minha resposta, mas preciso dizer a verdade”, dispara Borges quando questionado sobre sua presença no marcante festival. “Eu recorro a minha memória e não me lembro de ter estado lá. Acho que estava em outro lugar do Brasil, infelizmente, porque gostaria de ter participado”, confessa. “Talvez se alguém me mostrar uma foto ou algo que eu tenha dito para a imprensa, eu possa acreditar”, brinca o músico.

Organizado por Milton Nascimento, em plena Ditadura Militar, o festival reuniu grandes nomes da música brasileira. Além de Bituca, representantes do Clube da Esquina como Beto Guedes, Wagner Tiso e Nelson Ângelo ( e, supostamente, Lô Borges...) subiram ao palco armado em uma fazenda em Três Pontas, que assim como na versão americana, aconteceu em uma fazenda. Além dos mineiros, Chico Buarque, Fafá de Belém e Clementina de Jesus também marcaram presença no evento.

Mas se há 40 anos Lô Borges não compareceu ao festival, agora ele tem a oportunidade de fazê-lo, já que a cidade recebe hoje a “Feira Moderna – Um Woodstock Mineiro”, que homenageia o festival de 77.

Voltar a mesma cidade que abrigou o “Woodstock Mineiro” tem significados importantes para o músico, que tanto a visitou a ao lado do amigo Milton. “Lembro de virar a noite junto do Bituca tocando o embrião da música ‘Clube da Esquina II’. Eu tocava o violão base e ele fazia a melodia”, recorda saudoso. “Três Pontas é um lugar maravilhoso para se celebrar a vida através da música”

A celebração, é inclusive, apontada por Borges como uma forma de amenizar as dificuldades cotidianas. “Em 77 a Ditadura Militar era uma barra muito pesada. Hoje, o Brasil continua assim também. É uma vida difícil, milhões de desempregados, um tumulto político. Acho que o papel da música é dar um momento de trégua, um momento de paz para melhorar um pouco uma vida que era tão tensa em 77 e que é tão tensa hoje também”.

Evento promove encontro de gerações de músicos

Além de trazer de volta à Três Pontas alguns dos artistas que fizeram parte do histórico Show do Paraíso, em 1977, o “Feira Moderna – Um Woodstock Mineiro” também leva para o palco representantes da fértil produção musical do sul de Minas.

“Os parentes, amigos e as pessoas de Três pontas, sempre comentaram com muito saudosismo sobre esse evento. É uma grande emoção estar presente entre os artistas que tocaram lá. É um sinal de reconhecimento por a gente estar na estrada dando sequencia ao trabalho que eles começaram nos anos 60”, conta Paulo Francisco Tutuca, integrante das bandas Compasso Lunnar (de Três Pontas) e do Quartetto Sentinela (de Alfenas), que sobem ao palco na homenagem ao festival de 1977.

Tiso: ‘Pensei que seria uma simples reunião de amigos’

Apesar do jargão, há quem se lembre de Woodstock, ou pelo menos do festival mineiro que ficou conhecido como tal. “Eu estava morando nos Estados Unidos, me falaram do evento quando eu cheguei e pensei que seria uma simples reunião de amigos, mas acabou se tornando algo incrível, que me marcou”, recorda Wagner Tiso, um dos representantes do Clube da Esquina naquele dia que ficaria marcado não só na história de Três Pontas, mas também na trajetória de eventos da música brasileira.

O músico que conviveu com Bituca (que chegou a ter aulas de piano com a mãe de Tiso)na infância em Três Pontas, revela a alegria de tocar na cidade e se emociona com as lembranças trazidas pelo local. “Para mim é uma alegria danada tocar lá em um grande evento. Lembro de quando o Milton e eu éramos crianças, a gente sonhava na praça com a vida artística. Para mim é um orgulho, a gente não imaginava que iríamos ser tão grandes. É difícil segurar a emoção”, confessa.