Os dois são conhecidos pela personalidade forte, discurso inflamado, traços carismáticos e prontidão para o debate. Além disso, Áurea Carolina (Psol) e Gabriel Azevedo (PHS) estão na casa dos 30 anos, se elegeram pela primeira vez vereadores em Belo Horizonte e, como se fossem artistas, são abordados nas ruas por pessoas comuns. O entusiasmo com as duas figuras vem à esquerda, com Áurea, e à direita, com Gabriel, que no entanto rejeita o rótulo.

Peça importante na eleição de Alexandre Kalil (PHS) à PBH, Gabriel – jornalista, publicitário e advogado – foi um dos fundadores da Turma do Chapéu, o grupo de jovens engajados numa renovação política conservadora. Antes ligado aos tucanos, apoiou Antonio Anastasia (PSDB) para o governo de Minas e foi subsecretário da Juventude. Agora, tem se destacado nas sessões da Câmara pela artilharia contra o vice-prefeito e secretário de governo Paulo Lamac (Rede) e as nomeações para cargos de confiança na administração municipal. Chegou a travar sérias discussões com o colega Gilson Reis (PCdoB) sobre este assunto.

A educadora social e cientista política Áurea Carolina (Psol), por sua vez, tem investido na ampliação do papel da Comissão de Participação Popular da Câmara e atuado em agendas de direitos de jovens, mulheres e da população de periferia. Divide gabinete com a vereadora Cida Falabella, também do Psol e do coletivo ‘Muitas pela Cidade que Queremos’.

Como boa parte da Casa, os dois garantem manter boa interlocução com o prefeito Kalil. Também aguardam o desfecho da reforma administrativa e a definição do novo líder do governo na Casa, o que deve clarear o cenário entre Legislativo e Executivo.

Áurea vê duas tensões em jogo. “Existe a questão das indicações para os cargos, e não há muita clareza sobre as reais intenções por parte das pessoas que as questionam. Por outro lado, o governo não se apresentou de fato aos vereadores. Ele precisa da reforma administrativa para tocar a relação com a Câmara”, analisa. Sobre como a relação deveria ser, ela diz que com “independência e complementaridade”.

Gabriel afirma que o município precisa entender que os questionamentos feitos não necessariamente refletem demandas pessoais dos parlamentares, mas do conjunto eleitores que eles representam e defende autonomia. “Ainda há quem acredite que para os vereadores serem da base de governo, precisam ser fiéis a qualquer custo. Às vezes até abrir mão de algo que pensam para votar a favor da Prefeitura”, diz.

 

Conexão direta com eleitores é marca dos dois vereadores

Áurea Carolina e Gabriel Azevedo, cada um ao seu modo, tentam manter a conexão com os eleitores. Querem sustentar a aura de alternativa à política tradicional que os levaram a Câmara com votações surpreendentes - Áurea, com mais de 17 mil votos, a mais votada nas últimas eleições, e Gabriel, com seus mais de 10 mil votos.

Gabriel faz postagens constantes nas redes sociais e utiliza um aplicativo de celular que o conecta diretamente com seus eleitores, que podem opinar sobre os projetos e discussões políticas (é preciso enviar a cópia do título, que é conferida no TRE, para participar).
Já Áurea, ao lado da companheira de partido Cida Falabella, fez da “Gabinetona”, o gabinete unificado das duas vereadoras, base de interlocução com movimentos sociais e de reuniões com ativistas da cidade.

Para Gabriel, o resultado da comunicação eletrônica é impressionante. “As pessoas me param e dizem: ‘olha, nunca acompanhei atividade da Câmara, mas como você posta tudo que acontece por lá, pela primeira vez eu tô acompanhando”, diz, apontando na tela para um projeto no qual quase 1.800 eleitores opinaram antes dele votar.

“Um dos principais papeis do meu mandato é aproximar o cidadão da política. A descrença na política, com a crise nacional, é muito nociva para as instituições”, continua Gabriel.

Representação
Áurea, por outro lado, pontua a importância de representar parte significativa da população, identificada com bandeiras como participação popular, ocupação do espaço público, mobilidade, feminismo, combate ao racismo e defesa LGBT, entre outros .

“Muita gente quer tirar foto (comigo). Acabo canalizando expectativas e desejos das pessoas que vivem uma desesperança com a política formal. A gente não têm representatividade de mulheres, negras, pessoas da periferia. E quando alguém com esse perfil entra, é um feito. Há várias lutas organizadas que não chegam aos espaços de representação formal por conta da barreira do poder econômico e político tradicional”, diz.
 

Além disso

DIREITA X ESQUERDA
Gabriel Azevedo refuta o rótulo de novo ícone da direita. “Essa divisão caiu há muito tempo, com a derrubada do Muro de Berlim”. E enumera posicionamentos que, para ele, desmontam o argumento. “O que vale são posicionamentos para cada assunto. Se você me perguntar se sou a favor do casamento entre homossexuais, sou a favor. Sobre pena de morte, sou contrário. Se me perguntam se o Estado deve participar da vida das pessoas, vou dizer que sim. Mas se me falam que a carga tributária é alta, vou concordar, e vão me chamar de direita por isso”. Na última semana, Azevedo se posicionou a favor da Reforma da Previdência, despertando reações quentes no Facebook.

LABORATÓRIO DE PROJETOS
Com cerca de 1.400 projetos de lei para analisar da legislatura anterior, Áurea Carolina recorreu a um mutirão de voluntários, no primeiro mês de mandato, para definir posicionamentos e emendas. “Só pela equipe do mandato não teríamos condição. E ainda assim só conseguimos priorizar a análise de cerca de cem deles, com agendas próximas à nossa área”, diz.