Os alimentos, que têm sido vilões da inflação em 2016, chegam bem mais caros à mesa dos mineiros do que saem das fazendas. A alta de preços depois que passam pelas porteiras pode ultrapassar a 200% em alguns casos. Custo do beneficiamento, do transporte e reflexos do mercado internacional são algumas das justificativas para a diferença. Mas há também um componente especulativo. Ou seja, alguns elos da cadeia produtiva acabam se beneficiando com altas margens de lucros em detrimento de outros.

Para se ter uma ideia da disparidade, dá para tomar como base o café. Para começar, o produto em grão tem barateado enquanto o beneficiado, que é vendido pelo varejo, segue no sentido contrário com alta de 5,8% entre janeiro e junho deste ano. Isso sem contar que os produtores venderam o quilo do café por R$ 8,16 em junho, enquanto no varejo ele foi encontrado pelo dobro (R$ 16,38).

A coordenadora da assessoria técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Aline de Freitas Veloso, explica que existe a influência dos custos do beneficiamento do grão, da logística envolvida para que ele chegue ao consumidor final e o impacto do mercado internacional, uma vez que a maior parte do café mineiro é exportado. Mas ela concorda que existe um movimento especulativo. Aproveitando a tendência de alta, parte dos envolvidos no processo, seja na indústria, no transporte ou no varejo, acaba aumentando os preços além do necessário.

“Quem forma o preço final são os industriais e atacadistas. Se o consumidor compra, o preço continua subindo, mesmo que além das necessidades reais”, afirma o superintendente de política e economia agrícola da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa), João Ricardo Albanez. A única pressão contrária às altas é a redução do consumo.

Produto de primeira necessidade, o leite tem um acréscimo de 114,6% quando chega ao consumidor. “Não tem justificativa uma diferença tão grande de preço. É fato que, em alguns casos, são acrescentados diferenciais pela indústria como tornar o leite zero lactose, que é moda agora, mas o preço deveria ser mais equilibrado”, afirma o presidente da Comissão Técnica de Pecuária de Leite da Faemg, que é produtor em Lavras , Eduardo Pena. Segundo ele, entre os produtores, as margens estão tão apertadas que muitos deixaram de investir na atividade leiteira. O resultado foi uma redução da oferta, que tende a pressionar os preços ainda mais para cima, além de servir como justificativa para aumento dos ganhos em outros elos da cadeia.

O arroz também tem apresentado uma diferença considerável entre o preço no campo e na cidade, com o consumidor final pagando 243,7% mais caro do que o cobrado pelos produtores. Além da especulação, que também reflete nessa cultura, a redução da oferta por causa de problemas climáticos no Sul do país -maior produtor do grão- também teve influência, segundo a coordenadora da Faemg.
 

“O café sofre influência do mercado externo já que mais de 90% da produção mineira é exportada”
João Ricardo Albanez
Superintendente de política e economia agrícola da Seapa

 

Preços do arroz e do feijão ainda têm potencial de aumento

A base da alimentação dos brasileiros – arroz e feijão – deve manter a escalada de preços nos supermercados. Levando em conta o comportamento dos demais produtos, que encarecem nas gôndolas pelo menos na mesma proporção de alta do campo, o potencial de elevação do arroz é de 15,7% e do feijão, de 41%.

Em junho, o quilo de feijão nas fazendas custava R$ 7,81. O valor é 136,9% superior aos R$ 3,28 que custava em janeiro deste ano. Mas o repasse para o consumidor final não aconteceu na mesma proporção. A alta no varejo foi de 68%, fechando em R$ 8,55 em junho. Para igualar a alta, ainda pode ocorrer uma elevação de 41%.

Da mesma forma, o arroz encareceu mais no campo, passando de R$ 0,72 para R$ 0,90 o quilo. Nos supermercados, a alta de 5,26% no mesmo período abre espaço para um encarecimento de, pelo menos, 15,7%. Isso se o verificado com leite, açúcar e café, por exemplo, for seguido. No caso dessas outras culturas, a alta para o consumidor foi ainda maior.

Estoques

O diretor comercial e de marketing do Mart Minas, Filipe Martins, explica que existe uma defasagem na alta de preços nos supermercados por causa dos estoques. “Às vezes, nós temos o produto por R$ 5 e compramos por R$ 7 e acabamos vendendo por um valor intermediário. Por isso, o repasse não é na mesma velocidade. Mas sempre acontece”, afirma. Segundo ele, levando em conta as negociações com fornecedores, o ciclo de alta do arroz deverá prosseguir pelos próximos dois meses.

Da mesma forma o feijão, segundo o superintendente de política e economia agrícola da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa), João Ricardo Albanez. O produto deve seguir com preços altos até o início de janeiro, quando será colhida a primeira, das três safras que a cultura possui no ano.

 

“A indústria está testando o consumidor com os altos preços do leite”
Eduardo Pena
Presidente Comissão Técnica da Pecuária de Leite da Faemg

Produção  de arroz, feijão e café em Minas

A produção de arroz em Minas Gerais tem ficado menor a cada ano devido a dificuldade de concorrência com o Rio Grande do Sul, que detém 72,3% da produção brasileira. A expectativa é que as terras mineiras tenham uma produção de 7,9 mil toneladas neste ano, segundo dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa). O volume é quase quinze vezes menor do que as 115,4 mil toneladas registradas em 2010 pelo Estado.<

Apesar de ter apresentado ligeiro crescimento frente ao ano passado, ao passar de 333,5 mil toneladas para 334,6 mil toneladas, a produção de feijão no Estado também tem reduzido. Em 2014, por exemplo, chegou a 573,2 mil toneladas. Mesmo assim, Minas Gerais é o segundo maior produtor brasileiro, atrás apenas do Paraná.

No caso da produção de café, Minas Gerais é destaque nacional. Neste ano, o Estado deverá produzir 28,5 milhões de sacas. No Brasil, o esperado é uma produção de 49,7 milhões de sacas, fazendo com que o Estado fique com uma representatividade de 57,4%.

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