O aumento contínuo dos preços dos alimentos tem pressionando a inflação acima da média. Levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, em determinados períodos, os alimentos chegaram a representar 40% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

“Desde 2008 que o preço dos alimentos vem contribuindo significativamente para essa alta. Nos últimos 12 meses as mudanças climáticas, a desvalorização cambial e a alta do dólar foram alguns do fatores que influenciaram nessa alta no IPCA”, explica Maria Andrea Parente, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea.

Em um horizonte de três meses, conforme o Ipea, aproximadamente 37% da variação do IPCA é explicada pelos choques dos alimentos no atacado, enquanto o câmbio responde por 7,6%. “Em 2016, tivemos uma situação atípica em relação a influência dos alimentos na alta da inflação. No início do ano, fizemos uma previsão de que a inflação terminaria o ano com o teto de 6,5% e, agora, já pensamos em números mais próximos dos 7%, complementa Andrea”.

Perspectivas

Que o feijão se tornou o grande vilão na mesa do brasileiro não é novidade. Mas a boa notícia é que a tendência é que, nos próximos meses, haja uma desaceleração não só na alta do produto como na de outros itens da cesta básica. “Porém, não quer dizer que os preços dos alimentos caiam. Temos que lembrar que muitos insumos usados na agricultura são comprados em dólar, e esse preço pode ser repassado ao consumidor. Mas há tendência que haja velocidade menor de elevação no segundo semestre, principalmente por questões climáticas”, dia Andrea.

Para André Braz, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas/Ibre, os alimentos comprometem cerca de 16% da renda dos brasileiros. Somente a inflação do Prato Feito, durante os últimos 12 meses, acumula alta de 16,75% - o dobro da inflação registrada pelo Índice de Preços ao Consumidor da IPC/FGV no mesmo período (8,54%). “A alimentação compromete cerca de 30% do orçamento das pessoas de baixa renda. Isso afeta diretamente em uma boa parcela da inflação”, conclui o pesquisador.

Comerciantes de Belo Horizonte seguram preços do PF

Entre janeiro e junho deste ano, os preços dos itens mais importantes do Prato Feito subiram, em média 9,03% - o dobro da inflação média apurada pelo IPC/FGV, que está em 4,5%. Neste período, os vilões foram: feijão carioca (81,89%), batata inglesa (51,65%) e farinha de mandioca (17,42%).

E quem vende PF tenta segurar os valores. “Tivemos uma queda em nosso movimento noturno em 40%. De dia, a queda foi de 25%. Por isso, resolvemos manter o preço: R$ 16,80”, conta Luiz Fernando Ferreira, dono do Café Palhares. No Amarelinho do Prado a situação não foi diferente. “Como eu mesmo cozinho, comecei a introduzir mais tutu no cardápio, feijão roxo. A gente vai criando e fazendo o que dá”, conta Adriano Braga, dono do estabelecimento.

40% é o percentual que os alimentos chegaram
a representar na alta do Índice
Nacional de Preços
ao Consumidor Amplo (IPCA)