Mesmo sem concordar, o grupo ítalo-argentino Ternium, um dos controladores da Usiminas, está disposto a aceitar a alternância de poderes na siderúrgica proposta pela sócia japonesa Nippon Steel.

A aceitação, entretanto, está condicionada à inclusão de um mecanismo de medição de conflitos chamado “cláusula de saída”, de acordo como diretor de Relações Institucionais da Ternium Brasil, Glauco Sabatini, em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia. 

Em linhas gerais, a cláusula de saída abriria espaço para que um dos sócio-controladores comprasse a participação do outro. As regras ainda não foram definidas, mas o proposto é que prevaleça a norma do melhor preço.

Essa é a primeira vez que os ítalo-argentinos sinalizam uma possível aceitação de alternância em troca da inclusão da cláusula. A ideia, apresentada pela Nippon, era criar regras para remanejar a presidência entre indicados pelos dois controladores, o que não é visto como uma boa opção pela Ternium. 

“Nossa opinião sobre isso é que em uma empresa com toda complexidade da Usiminas a alternância de poder não é uma boa saída por causa da visão de longo prazo”, afirma Glauco Sabatini. 

Pressa

Mesmo assim, para acabar com a divergência, a proposta poderia ser aceita. A pressa é tanta para concluir as negociações que o presidente da Ternium, Daniel Novegil, deixou a agenda “liberada” para uma reunião com os representantes da Nippon Steel.

“Para 2017,nosso objetivo é acelerar as negociações e chegar a um entendimento o quanto antes”, posiciona Sabatini. 

Até que haja uma definição, permanece a briga judicial para a retirada do presidente interino da Usiminas, Rômel Erwin de Souza. Os ítalo-argentinos defendem uma gestão encabeçada por Sérgio Leite. Executivo de carreira, ele ficou quatro meses no poder, sendo retirado por meio de ação judicial. 

Musa

Outro ponto de relevância com uma data marcada é a definição quanto a utilização de R$ 700 milhões do caixa da Mineração Usiminas (Musa) para honrar os compromissos financeiros com os credores, conforme o combinado com os bancos para o alongamento da dívida da companhia. Está marcada para esta terça-feira (10) uma assembleia da mineradora para definir se o recurso será utilizado.

Procurada, a Nippon Steel disse, por meio da assessoria de imprensa, que não comentaria o assunto. 

 

Mini-entrevista com Glauco Sabatini, que é diretor de relações institucionais da Ternium Brasil, um dos grupos controladores da Usiminas ao lado da Nippon Steel

Glauco Sabatini
DISCORDÂNCIA – Glauco Sabatini considera a Usiminas muito complexa para haver alternância de poder

Ternium tentará chegar a um consenso em disputa acionária na Usiminas com Nippon steel ainda em janeiro

Já foi feito um contato formal com a Nippon sobre a inserção de uma cláusula de saída?
Sim. Fizemos uma comunicação formal, mas infelizmente não tivemos uma resposta. Estamos totalmente abertos e disponíveis para nos reunir no mês de janeiro e retomar as negociações.

Por que vocês acreditam que a cláusula de saída seria positiva?
Basicamente porque a resolução de conflitos cria um ambiente favorável para que os acionistas controladores cheguem em acordo para estabilizar a companhia. Caso essa estabilidade não venha a acontecer, em um segundo momento essa cláusula pode ser acionada e um dos dois controladores assumir a gestão formalmente. 

E a Ternium teria interesse em comprar a parte toda da Nippon?
O objetivo inicial não é comprar ou vender as ações. Mas, obviamente, nós temos interesse em comprar as ações da Nippon. Mas o objetivo inicial é criar o ambiente. Porque uma vez definida a cláusula, os dois controladores vão ser forçados a chegar a um acordo para gerir a empresa. Caso o acordo não aconteça, essa cláusula pode fazer com que um dos dois perda a liderança da companhia. 

Mas, se os dois lados alegam urgência na solução da disputa, qual a maior dificuldade?
É que cada um tem uma visão. Mas, mesmo reconhecendo que a alternância não é coisa boa para companhia, a Ternium poderia aceitar desde que a Nippon aceite a cláusula de negociação de conflito. Isso é um passo que a gente deu.

Quanto à saúde financeira da empresa, se não houver uma solução imediata, o que você acredita que possa acontecer com a companhia? Seria necessário, por exemplo, mais cortes ou reestruturação?
É uma empresa de capital aberto. Por isso, essa questão deve ser vista diretamente com a Usiminas. O que já afirmamos é que o Rômel é um ponto preocupante. Porque ele já mostrou uma gestão ineficiente. Estamos recorrendo no Tribunal de Justiça de Minas Gerais e pretendemos ir até as últimas instâncias para reconduzir o Sérgio Leite. A maioria dos conselheiros da empresa concorda com isso. São oito dos onze. Entramos com representação na CVM (Comissão de Valores Imobiliários).

Até que ponto os resultados negativos da empresa são em função da gestão? Se mudar a gestão os resultados melhoram, mesmo com o mercado global siderúrgico indo mal?
O Sérgio Leite mostrou em quatro meses que pode alavancar a gestão da companhia. Mas você tem parte do problema do Brasil, parte mundial e parte do problema da Usiminas. Porque o Brasil passa por uma crise longa. Mas temos vários exemplos de siderúrgicas que vão bem ou que estão em situação financeira ruim, porém melhores que a Usiminas.