Dermatologista com quase 40 anos de trabalho na área pública, o secretário municipal de Saúde, Jackson Pinto, está menos otimista desde que tomou posse, em janeiro deste ano. Nesta entrevista, ele admite que promessas como colocar o Hospital do Barreiro em pleno funcionamento até agosto e a inauguração de uma nova UPA em poucos meses deram lugar à realidade, onde a falta de recursos é o principal desafio. Para driblar a crise financeira e diminuir a fila para cirurgias eletivas, uma das ideias é colocar em prática o “Corujão da Saúde”, em que os pacientes são operados na madrugada. O projeto é similar ao implantado pelo prefeito João Dória (PSDB) em São Paulo.

Qual cenário o senhor encontrou?

A saúde de Belo Horizonte é muito organizada. Já foi inclusive modelo para o Brasil. Mas por conta das dificuldades financeiras, a qualidade do serviço prestado foi caindo devagarinho até chegar ao que a gente vê hoje, com falta de insumos e medicamentos nos centros de saúde. Mas os servidores são muito compromissados. Então, não posso dizer que foi uma impressão ruim quando cheguei aqui, mesmo porque eu já tinha contato pela minha atividade médica.

Qual foi a primeira medida que o senhor adotou?

Por causa do tamanho da estrutura e da dificuldade de conhecê-la toda, senti necessidade de ter uma avaliação, principalmente das estruturas que estão mais próximas da prestação de serviço ao povo. Designei três pessoas para fazer o primeiro contato com todos os 150 centros de saúde e avaliar um por um, tanto no que se refere a equipamento humano quanto à estrutura física e equipamentos médicos. Foi feito o levantamento e as necessidades de obras já foram encaminhadas para a Sudecap. Esse contato foi importante para que a gente definisse prioridades relacionadas a obras e distribuição de pessoal.

E que obras são essas?
Pequenas rachaduras, parede que está com infiltração, uma telha que está quebrada, pintar um centro de saúde, fazer uma capina. São pequenos reparos que farão com que tanto o belo-horizontino que usa o serviço quanto os servidores possam se sentir melhor.

O que mais precisa funcionar melhor?

Temos quatro grandes prioridades. A primeira de todas é melhorar a cobertura das unidades básicas de saúde. Ou seja, facilitar o acesso de um cidadão qualquer ao centro de saúde da região onde ele mora. Mas, para fazer isso, precisamos do levantamento da área física de cada um deles, precisa ter o número de médicos, dentistas, assistentes sociais, psicólogos, em cada unidade, se a unidade está capacitada para acolher o cidadão da forma como ele merece. A segunda grande prioridade é o acesso da pessoa que está doente ao medicamento.

“A saúde de Belo Horizonte é muito organizada. Mas a qualidade do serviço prestado foi caindo devagarinho até chegar ao que vemos hoje, com falta de insumos e medicamentos nos centros de saúde”

E quais as outras duas prioridades?

A terceira é a questão das filas para as cirurgias eletivas. E a quarta é a fila para consultas de especialidades. Mas a grande prioridade é mesmo a primeira porque, se conseguirmos fazer com que as unidades básicas de saúde tratem bem as pessoas, elas vão ficar cada vez menos doentes e vão precisar cada vez menos de entrar em uma fila para consulta especializada ou em uma fila para cirurgia.

Qual a extensão das filas para cirurgias? Está sendo feito um recadastramento?

Na Inglaterra, o tempo de espera por uma cirurgia eletiva no serviço público é de seis meses. Aqui, nós temos cirurgias que aguardam seis meses, dentro do padrão inglês. Mas temos cirurgias que demoram 12, 13, 19 meses. Mas a gente não sabe se essa fila é real. Temos que ver quais dessas pessoas ainda precisam operar, porque muitas já foram operadas, muitas desistiram da fila, outras não têm mais indicação de operar. Por isso, é preciso fazer o recadastramento. Uma vez estabelecido isso, vamos tomar providências para que elas sejam atendidas.

Mas quantas pessoas aguardam hoje? E quais providências são essas?

A nossa estimativa é a de que das 29 mil cirurgias eletivas que estão na fila, precisamos atender 16, 17 mil. Mas o recadastramento já está sendo realizado. E, simultaneamente, já estamos conversando com hospitais 100% SUS e nossos próprios hospitais para que eles possam suprir essa demanda. O hospital Ciências Médicas, por exemplo, pode se preparar para fazer atendimentos noturnos, criar um turno à noite.

SAÚDE2

 


É como funciona o corujão da saúde implantado pelo prefeito João Dória em São Paulo?

Sim. Isso já foi feito em Belo Horizonte em outras épocas. E pode ser feito em vários hospitais. O único que mencionou esse turno noturno foi o hospital Ciências Médicas. Mas já conversei com a Santa Casa, com o pessoal do Hospital São Francisco, e todos estão dispostos a aumentar a oferta de cirurgias. Só a Santa Casa tem um potencial de 2 mil cirurgias a mais por mês. Então, se a gente pensar se a Santa Casa fosse a única, em sete meses, oito meses, zeraríamos essa conta, que ainda não é real, de 17 mil cirurgias.

A negociação com o hospital Ciências Médicas já está avançada?

Está avançada. O que precisamos agora é fazer o cadastramento para saber quais são essas cirurgias, se é ortopédica, geral, retirada de vesícula, hérnia, varizes, cirurgia oftalmológica. Precisamos saber, porque cada hospital tem uma especialização maior. Quem mais opera cirurgia ortopédica pelo SUS é o hospital São Francisco, mas Santa Casa e Ciências Médicas fazem muito. Cirurgia geral todos fazem muito. O levantamento vai mostrar a quem essas cirurgias serão dirigidas.

“As pessoas precisam incorporar o controle do mosquito, olhar o quintal, se não tem lata cheia de água, se não tem criadouro em casa. Se as pessoas não fizerem isso toda semana, a guerra vai ser perdida e o Aedes vai ganhar da gente”


Quando o recadastramento ficará pronto? E quando o corujão da saúde pode começar?

Talvez nos próximos 30 dias já tenhamos uma noção exata de quantas e quais cirurgias precisamos viabilizar. De posse disso, fica fácil. Basta pactuar com os hospitais com quem já temos conversas preliminares, e eles já estão dispostos a adequarem a equipe e fazerem essas cirurgias.

Dengue, zika, chikungunya e agora febre amarela. Em meio à crise e orçamento cada vez mais apertado, o que tem sido feito para conter o avanço das doenças?

Com relação à dengue, zika e chikungunya, mantemos um projeto que se chama LirAa, que é como uma armadilha que captura os mosquitos e vemos quais estão infectados e qual o potencial de transmissão daquela determinada doença. Para se ter uma ideia, a porcentagem do LirAa, média de Belo Horizonte, é de 1,3%, o que é muito bom. Na semana passada, Venda Nova e Barreiro tiveram porcentagens próximas de 4, o que nos traz alguma preocupação. Então, nossos esforços maiores estão sendo dirigidos a essas regiões porque parece que a população desses bairros não tem tido tanto cuidado em retirar os criadores do mosquito.

Há motivo para pânico com relação à febre amarela?

Não existe surto de febre amarela em Belo Horizonte. Não tem nenhum caso de febre amarela em habitante de Belo Horizonte que tenha contraído a doença aqui. Existem casos de belo-horizontinos que viajaram e foram a áreas onde a febre amarela está epidêmica, contraíram a doença lá e foram internadas em Belo Horizonte. Estamos absolutamente tranquilos.

Quando o Hospital do Barreiro estará com 100% de funcionamento?

Esse é um imbróglio grande. Estamos fazendo muita conta. A nossa preocupação é tão grande que o prefeito criou um grupo para fazer um projeto de governança, compliance, com presença do Ministério Público e Ministério da Saúde. O que esse grupo vai fazer é estudar as contas dos hospitais públicos e dos hospitais 100% SUS pra melhorar a gestão, economizar na atividade-meio, para que a atividade-fim seja viabilizada. Quando estiver plenamente funcionando, e acredito que até esta semana isso aconteça, esse grupo vai trabalhar prioritariamente na elaboração de um cronograma de ativação dos leitos do Hospital Metropolitano que ainda não estão ativados. Hoje não é um dia bom para você me fazer essa pergunta. Mas, acredito que daqui a três semanas vou conseguir responder isso.

No dia da posse do secretariado, o senhor estava mais otimista...

A ignorância às vezes nos faz ficar mais otimistas do que deveríamos. Eu não estava completamente a par das implicações jurídicas, dos contratos que foram feitos. Para implantar 100% dos leitos do hospital do Barreiro precisamos de recursos que ainda não temos disponíveis. E esses recursos o Ministério da Saúde só envia depois que o serviço começa a funcionar. Então temos que ter alguma bala na agulha para manter o serviço funcionando até que venha o recurso. E nesse momento a gente não tem.

“A ignorância às vezes nos faz ficar mais otimistas do que deveríamos. Eu não estava completamente a par das implicações jurídicas, dos contratos que foram feitos no Hospital do Barreiro”

Naquele mesmo dia, o senhor falou sobre a expectativa para inauguração de uma UPA na regional Nordeste. Vai dar para fazer isso?

Existe um projeto arquitetônico para transformar um equipamento que já temos em UPA. Mas, depois fomos estudar o projeto com mais cuidado e vimos que as intervenções que seriam necessárias nesse prédio iam ser de uma monta tão grande que não compensaria. Então optamos por adiar a inauguração da UPA até vislumbrar a possibilidade de um outro prédio nessa mesma região.

Qual o principal pedido que o senhor ouviu do prefeito Alexandre Kalil?

Faça o que puder para amenizar o sofrimento das pessoas. E é isso que estamos procurando fazer o tempo todo.