Depois de cinco anos estacionada em cerca de 4,5 milhões de bicicletas, o que ainda assim rendeu ao Brasil o título de terceiro maior fabricante do mundo, a produção de “magrelas” no país deve subir a ladeira em breve.

A expectativa do setor é a de que a construção e expansão de ciclovias, o incentivo à prática de esportes e o crescimento das campanhas pelo uso da bicicleta como meio de transporte abram caminho para aumento da frota, hoje estimada em 70 milhões, de acordo com dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo).

“Diante do incentivo promovido pelas ciclovias e ciclofaixas, as bicicletas estão saindo mais de casa. Todavia, a conscientização de que a circulação deste veículo deve ocorrer com segurança e comodidade para seus condutores é o fator que, decisivamente, levará as pessoas a utilizarem as bicicletas cotidianamente”, diz o diretor-executivo da Abraciclo, José Eduardo Gonçalves.

É como se a “magrela” estivesse sendo redescoberta. Atualmente, segundo Gonçalves, o mercado de bicicleta no Brasil é autossuficiente. “Consumimos o que produzimos”, afirma. Mas há novas fabricantes se instalando no polo industrial de Manaus, como a Houston, segunda maior do país, e a Sense Bike, que produz exclusivamente bicicletas elétricas, a nova febre entre ciclistas. No ano passado, juntos, os fabricantes instalados na zona franca faturaram aproximadamente R$ 314 milhões, um aumento de quase 6% em relação a 2012.

Ainda de acordo com o presidente da Abraciclo, um novo Processo Produtivo Básico (PPB) – conjunto de regras que estabelece os níveis de nacionalização dos produtos fabricados no parque amazonense – está prestes a ser aprovado.

A mudança possibilitará a fabricação de bicicletas brasileiras de alto valor agregado, capazes de competir com as asiáticas, porém com preços mais atraentes. Já a importação de bicicletas, pelos dados oficiais, é de 300 mil unidades por ano.

Extensão põe BH na lanterna do ranking

Apesar dos avanços, Belo Horizonte ainda está na lanterna quando o assunto são ciclovias. Atualmente, a capital mineira possui apenas 70,42 quilômetros de percurso especialmente voltados para ciclistas. É muito pouco na comparação com outras grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.

Por meio da BHTrans, a Prefeitura de Belo Horizonte criou o programa Pedala BH, com o objetivo de promover o uso da bicicleta, meio de transporte não poluente.

Segundo a BHTrans, até o final de 2014, a meta é alcançar a marca de 100 quilômetros de ciclovia. O planejamento para 2020 é concluir 380 quilômetros. O número se aproxima de cidades pioneiras como Bogotá e Paris, onde as ciclovias, atualmente, já possuem 359 e 394 quilômetros, respectivamente.

Modelo dobrável cabe debaixo da mesa

Se as fábricas ainda estão na torcida para acelerar a produção de bicicletas, no varejo a mudança no comportamento do brasileiro já começa a ser sentida no caixa registrador. O empresário Sérgio Campos de Paiva, proprietário da rede Global, com sete lojas especializadas na Grande BH, além do canal de vendas online, diz que as vendas estão 5% maiores neste ano, na comparação com 2013.

“A procura, tanto para lazer quanto para meio de transporte, já melhorou. É fato que a demanda aumentou. Mas só vai realmente crescer quando as ciclovias estiverem interligadas. Hoje, infelizmente, na capital elas ainda começam e acabam de repente”, observa.

Para dar a largada no esporte, muitos clientes optam por uma bicicleta básica, com preços a partir de R$ 989. Já para o lazer, as preferidas são as importadas, comercializadas entre R$ 2 mil até R$ 40 mil. “O céu é o limite”, diz o empresário.
Mas as campeãs de vendas na Global são as elétricas e dobráveis, que exigem investimentos de R$ 3,6 mil.

“Tem muita gente usando esse modelo pela praticidade, pois cabe em qualquer lugar e é muito silenciosa. E engana-se quem pensa que não é preciso fazer exercício físico. Tem que pedalar para funcionar”, explica ele, que conta com 70 funcionários.

O gerente financeiro Felipe Martins, 26, é um dos novos adeptos da bicicleta dobrável. Desde que apostou na praticidade da “magrela” e passou a deixar o carro na garagem, há cinco meses, economizou dinheiro e tempo e ganhou saúde. “Só com estacionamento parei de gastar R$ 600, fora o gasto com combustível e desgaste do automóvel”, compara.

A rotina de Martins, hoje, inclui a ida de bicicleta de casa, no Santo Agostinho, até o trabalho, na Praça Sete. Com o novo meio de transporte dobrado, ele sobe o elevador e chega até o escritório. Lá, é só guardá-la debaixo da mesa. Após o expediente, ele pedala até a Fumec, no alto da avenida Afonso Pena, onde estuda. E de “bike” retorna para o lar. “Já recuperei os R$ 1.700 investidos na bicicleta e ainda ganhei preparo”, comemora.

Na Inter Trilhas, na Savassi, cuja especialidade são mountain bikes, nunca antes na história tantas bicicletas dobráveis foram vendidas. “Jamais vendemos este modelo urbano como agora”, revela a proprietária Graziella Pimenta Tomich. A loja oferece quatro tipos dobráveis diferentes, com preços entre R$ 1.100 e R$ 8 mil.

Amante do esporte, o consultor de vendas Anderson Costa, 37 anos, pedala todos os dias de sua casa, em Contagem, até o serviço, na Savassi. Na sua mountain bike, com 30 velocidades, percorre 25 quilômetros ida e volta. “Não sei o que é mais gripe nem remédio”, diz.

Ciclovias turbinam demanda por magrelas