O empresário mineiro Bernardo Paz, idealizador do Museu Inhotim, ofereceu ao governo de Minas obras de arte de artistas renomados, alocadas na instituição, para saldar uma dívida milionária da época em que ele ainda estava à frente do grupo de empresas Itaminas. As conversas também preveem que o Estado se comprometa, caso haja acordo, em manter as obras dentro do museu, localizado em Brumadinho, na Região Metropolitana, para que não sejam vendidas a colecionadores externos ou se tornem alvo de penhora.

O diretor-executivo do Instituto Inhotim, Antonio Grassi, disse que, apesar de as negociações entre Bernardo Paz e o governo estarem sendo feitas sem a participação da instituição, ele torce para que haja um consenso nos termos propostos pelo empresário.

“Algumas obras pertencem a ele, e, para nós do Inhotim, pode ser muito positivo porque essa negociação pode garantir a perenidade delas no museu”, afirmou Grassi ao Hoje em Dia.

Segundo o diretor-executivo, o maior museu de arte contemporânea a céu aberto da América Latina atrai 1,5 milhão de visitantes por ano. “É um patrimônio, com uma importância grande não só para Minas, mas para a imagem do Brasil no exterior”, ressaltou.

Em nota, o Instituto Inhotim informou que a quitação do passivo de Bernardo Paz será feito dentro dos moldes do Programa Regularize, espécie de Refis do governo do Estado. Segundo dados preliminares da Secretaria de Estado da Fazenda, o programa deste ano já arrecadou cerca R$ 4,3 bilhões.

Crimes

De acordo com o jornal “Valor Econômico”, a dívida de Paz com a Fazenda estadual chega a R$ 500 milhões. Com o repasse das obras e o abatimento das multas no Regularize, o empresário quitaria todos os débitos.

Entre as obras oferecidas estão “Celacanto Provoca Maremoto”, da artista Adriana Varejão, ex-mulher do artista, “Glove Trotter”, de Cildo Meireles, e “Gigante Dobrada”, de Amílcar de Castro.

bernardo paz

O criador do Inhotim, Bernardo Paz

Com mais de 30 processos, que vão de cobranças de dívidas a crime ambiental, o empresário foi condenado recentemente a 9 anos e 3 meses de prisão, em primeira instância, por lavagem de dinheiro e simulação da origem e natureza de recursos provenientes da sonegação de contribuições previdenciárias. O advogado de Paz, Marcelo Leonardo, disse que já recorreu da sentença. Sobre a entrega das obras, Leonardo declarou desconhecer os termos da negociação.

O Hoje em Dia também apurou que, em outubro deste ano, o empresário foi indiciado por crime ambiental na comarca de Sete Lagoas, conforme pode ser constatado em andamento processual no site do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). O advogado Geraldo Magela confirmou que Paz responde ao processo, mas disse que não sabe sobre o indiciamento. “Não posso dar informações”, disse.

AGE
Os trâmites da negociação entre Paz e o governo de Minas estão com a Advocacia-Geral do Estado. A Secretaria de Fazenda não comentou o assunto.
 

 

PERFIL
Bernardo Paz, 68 anos, é dono de diversas empresas. A maior delas a mineradora Itaminas, na região de Sarzedo, foi vendida aos chineses em 2010, por US$ 1,2 bilhão.

Em entrevistas, o empresário afirma que a ideia da construção do Inhotim veio quando, aos 45 anos, ele se recuperava de um AVC e teve a visão de um grande jardim de um hotel no qual havia se hospedado no México. Apesar do instituto ter sido criado em 2002, só passou a receber visitas a partir de 2005, sendo aberto ao público em 2006. O acervo partiu da coleção de arte contemporânea de Paz e, com o tempo, passou a contar com doações financeiras de grandes empresas nacionais e recursos de isenção fiscal para a expansão.

A convivência com artistas renomados como Tunga (seu grande amigo, morto em 2016) e Adriana Varejão (com quem foi casado), se traduz nas obras expostas no museu. Tunga e Varejão têm galerias exclusivas no local.

Nos últimos anos o empresário tem buscado outras formas de viabilizar a sustentabilidade de Inhotim, como a construção de um grande hotel de luxo operado pela Rede Txai, bem como de uma pista de pouso de aeronaves para facilitar a chegada de endinheirados ao museu.
Bernardo é irmão do Cristiano Paz, ex-sócio do publicitário Marcos Valério e condenado no caso mensalão.