Foi em junho de 2017 que Thaynara Pacheco, 22, perdeu o emprego de auxiliar de dentista, que mantinha havia dois anos com um salário de R$ 1.300. Desde então, a moradora do bairro Guarani, região Norte de BH, tem se virado como pode. São os “bicos” em produção de eventos ou no comércio, como os 17 dias como caixa no fim do ano, que a ajudam a pagar as contas. Na falta de opções, surgiu uma ideia: produzir chup-chup caseiro. “Dá pra ganhar cerca de R$ 700 por mês”, conta.

Na busca diária por uma vaga, seja na internet ou no posto do Sine/BH Uai da Praça 7, ela já reduziu as expectativas. O salário anterior virou miragem. “Agora, procuro vagas até com um salário-mínimo”, admite.

Thaynara é parte de uma estatística que afetou, entre os terceiros trimestres de 2016 e 2017, só em Minas, uma população maior que a da cidade de Divinópolis. Segundo o IBGE, no intervalo de um ano foram fechados, no Estado, 244 mil empregos formais, 10 mil a mais que o número de habitantes do município do Centro-Oeste. O total de 3,55 milhões trabalhadores com carteira chegou, nos últimos três meses de 2017, ao menor patamar de Minas Gerais na série histórica iniciada em 2012.

Por outro lado, o que se viu foram 105 mil pessoas a mais no mercado informal (veja infográfico) e mais 51 mil registrados como conta própria – categoria que inclui profissionais autônomos, como advogados, mas também trabalhadores informais, como vendedores ambulantes. 

Somados, os trabalhadores mineiros sem a cobertura da CLT atingiram a marca de 3,465 milhões no terceiro trimestre de 2017. 

Na luta

Sem carteira assinada desde agosto, Alexandre Medeiros, 27, perdeu o emprego na construção civil depois de três anos. O trabalho lhe rendia um salário e meio. Agora, o morador de Contagem se segura com bicos de pedreiro e carpintaria, que não geram mais de R$ 1 mil por mês. “Os salários estão menores e a exigência dos empregadores é maior”, diz o morador ele, que sonha com uma vaga formal.

A informalidade atinge também quem acabou de chegar no mercado. Lorran Eduardo, 18, terminou o 2º grau no final do ano passado e, com o fim da ocupação como aprendiz, consegue cerca de R$ 400 com manutenção de computadores. Mas o emprego, além da renda, tem um objetivo maior: ajudar na qualificação. “A meta é poder pagar uma faculdade de computação”, diz.

No Brasil, o número de pessoas trabalhando por conta própria ou ocupando vagas informais já ultrapassou o de homens e mulheres com carteira assinada. Segundo o IBGE, 2017 terminou com 34,31 milhões de pessoas sem empregos formais, contra 33,32 milhões regularizadas

Vagas pós-recessão têm como característica salários menores 

Herança da crise econômica, a explosão da informalidade no mercado de trabalho pode significar, por outro lado, um sinal da recuperação econômica após dois anos (2015 e 2016) com PIB negativo e crescimento abaixo de 1% em 2017. 

“É o retrato que uma crise aguda deixa sobre o mercado de trabalho”, analisa Márcio Salvato, coordenador do curso de Economia do Ibmec/MG. Para o especialista, apesar de o desemprego ter caído no país – a taxa anual, que chegou a 12,7% em 2016, fechou 2017 em 11,8% –, o consolo é que a criação de vagas informais vem sempre antes dos postos formalizados.

“O primeiro mercado que aponta para o crescimento é o informal. O formal precisa de expansão de investimento, de uma expectativa bem melhor para o futuro”, acrescenta Salvato.

Os primeiros empregos com carteira a serem criados, continua o economista, têm como característica salários menores e maior qualificação.

Crise deixa como herança 3,465 milhões de trabalhadores fora da CLT em MinasLorran Eduardo sonha com um emprego com carteira assinada para ajudar a pagar a faculdade

Reforma

Já o professor de economia do Centro Universitário Una, Paulo Roberto Bretas, não é tão otimista. “Na hora que as empresas voltarem a comprar máquinas e equipamentos, isso vai reduzir ainda mais a mão de obra”, opina ele, que acredita que a reforma trabalhista “facilita muito empregar pessoas sem carteira”.

Além disso, o Estado também sofre por ter uma arrecadação menor, já que não há formalização nesses postos de trabalho. “As pessoas recebem seus salários, gastam, poupam e esse dinheiro volta para alimentar o sistema. Quanto menor o salário, menos a economia gira”, diz.

Crise deixa milhões fora da CLT em MinasClique para ampliar