Com a crise política ditando o ritmo da economia brasileira, e os efeitos já perversos de indicadores econômicos ruins sendo potencializados por um ambiente pessimista, o horizonte que chegou a revelar um 2016 de início de recuperação, agora desenha um cenário oposto, de aprofundamento da crise econômica, cada vez mais entrelaçada com a crise política. A depressão econômica é onde leva esse caminho, alertam economistas.

O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do país, divulgado nessa terça (1º) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou queda de 1,7% no terceiro trimestre comparado o trimestre anterior, e retração de 4,5% comparado com o mesmo trimestre do ano passado, o pior desempenho desde o início da série histórica, em 1996.

Tanto pela vertente do consumo como pelo lado da produção, a crise na economia se espalhou (veja infografia). E se mudanças radicais em Brasília podem gerar efeitos imprevisíveis para o país, seguir na rota atual vai gerar o aprofundamento da crise, e os efeitos de uma conjuntura onde não há crescimento econômico, mas a inflação é alta, é perigoso.

Governo

“Estamos e continuaremos em 2016 em uma fase mais branda, anterior à depressão econômica, andando para trás e com inflação alta”, afirmou o economista e integrante do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Luiz Alberto Machado.

“Uma mudança de rota depende do que não temos, que é um governo forte para bancar medidas de aumento de receita, como taxar grandes rendas e o lucro de capital. Sem mudança de direção chegaremos a depressão”, emendou o conselheiro do Cofecon.

Ranking

Dentre 42 países que já divulgaram o resultado do PIB relativo ao terceiro trimestre, o Brasil fica na frente apenas da Indonésia, o maior arquipélago do mundo, localizado entre o Sudeste Asiático e a Austrália, que registrou retração de 7%. O levantamento, realizado pela agência Austin Rating, indicou um crescimento médio desses países de 3,1%.

O Brasil também teve desempenho da economia inferior a de vizinhos da América do Sul, como o Peru, que cresceu 2,9%, e o Chile, 2,2%.

Dentro dos Brics, grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, países que há alguns anos eram considerados como de alto potencial de desenvolvimento, a média de crescimento no terceiro trimestre foi de 3,3%. Os dados comparam o PIB do terceiro trimestre deste ano com igual intervalo de 2014.

“A palavra expectativa é muito forte na economia. Quem vai investir precisa de expectativa de crescimento para avaliar o retorno que terá. Na situação do Brasil, primeiro temos que resolver a questão política para pensar em expectativa de economia forte”, disse a professora de Economia da FGV/Faculdade IBS, Nora Raquel Zygielszyper.

Para a especialista, o desemprego pode chegar a dois dígitos, reduzindo ainda mais o consumo. “E ainda tem a inflação diminuindo o poder aquisitivo – outro impacto no consumo. Sair dessa situação requer ações duras”, afirmou Nora Zygielszyper.

Agro

A queda de 1,7% do PIB veio um pouco acima do que previam os economistas, em virtude de um desempenho aquém do esperado na agricultura. O economista do IBGE, Rodrigo Ventura, lembra que a safra do terceiro trimestre tem como produtos mais relevantes o café, a laranja e a cana.

“São todos produtos que têm previsão de produção menor este ano, o que explica o resultado negativo. Também é um trimestre sem safra de soja, produto mais importante da agricultura do Brasil”, disse.

Dentro da indústria, segmentos como a indústria extrativa e a construção civil também apresentaram variação negativa do PIB, em relação do segundo trimestre, de 0,2% e 0,5%, respectivamente. A queda mais acentuada foi na indústria da Transformação, de 3,1%.

Indicador revela queda na capacidade de produção interna

A queda da taxa de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) no terceiro trimestre deste ano, de 15%, é a maior para o período desde o início da série histórica, em 1996. Em relação ao trimestre anterior, a retração foi de 4%, e nesta base de comparação são nove trimestres consecutivos de queda.

A FBCF é um indicador que mede o volume de investimentos das empresas em bens de capital. São investimentos que geram o aumento da capacidade de produção do país.

“Sua queda significa uma redução na produção interna e na importação de máquinas e equipamentos, além de um desempenho ruim da construção civil”, disse o economista do IBGE Rodrigo Ventura.

Um outro desdobramento de resultados negativos consecutivos da FBCF é a redução da participação do investimento no PIB, que no terceiro trimestre foi de 18,1%a. O mesmo indicador era de 20,2% há um ano.

“Matematicamente, a falta de investimentos determina porque não crescemos”, disse a professora da FGV, Nora Raquel Zygielszyper.

O desemprego continuará ganhando força enquanto as taxas de investimentos não reagirem, avalia o economista e conselheiro do Cofecon, Luiz Alberto Machado. “Pode gerar um efeito em cadeia. Aumenta o desemprego, e quem está empregado perde força. O sindicato passa a lutar para manter o emprego, e não mais por conquistas, como as salariais. Aí é um processo de ir perdendo o conquistado em muitos anos”.

Fazenda

Em nota, o Ministério da Fazenda admitiu que o resultado do PIB veio abaixo das expectativas. “O desempenho do PIB tem sido de modo geral afetado pela incerteza de natureza econômica e não econômica que persiste há vários meses no Brasil, além do natural processo de reequilíbrio pelo qual passa a economia brasileira em consequência da queda dos preços das commodities e do fraco nível da atividade econômica mundial, com a decorrente queda da confiança de empresas e consumidores”, diz trecho da nota.

Crise política cria risco de depressão econômica