Em tempos de pós-verdade, em que a "narrativa" vale mais que os fatos, são raras, raríssimas, as produções nacionais que retratam momentos marcantes da história do País, sem um viés de esquerda nem apoio oficial. Neste cenário desequilibrado, o filme Real: o plano por trás da história, do diretor Rodrigo Bittencourt, que chega aos cinemas na próxima quinta-feira, 25, é uma agradável surpresa.

Com um custo total de R$ 8 milhões, captados da iniciativa privada e complementados por uma pequena parcela de crowdfunding, o filme revela os bastidores do Plano Real, que debelou a hiperinflação no País, sem ufanismo, sem a carga ideológica habitual do cinema brasileiro. Por meio de uma trama envolvente, baseada no livro 3.000 dias no bunker (Ed. Record, 332 pág., R$ 74,90), do escritor e jornalista Guilherme Fiuza, o mesmo autor de Meu nome não é Johnny, o filme faz o público quase esquecer de que o pano de fundo é o mundo esotérico da economia.

Embora seja uma ficção, o filme ilumina um capítulo crucial de nossa história recente, que muitas vezes é minimizado pelas esquerdas, por ter sido idealizado durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda, no governo de Itamar Franco. Ainda hoje, 23 anos depois, o Plano Real continua a provocar reações apaixonadas, inclusive no campo do cinema, como se não fosse uma conquista de todos os brasileiros, mas apenas da corrente política que o criou.

Recentemente, o filme foi alvo - ao lado de O jardim das aflições, um documentário centrado na figura do filósofo conservador Olavo de Carvalho - da patrulha ideológica de um grupo de cineastas de esquerda selecionados para participar do festival Cine PE, que estava marcado para ocorrer entre os dias 23 e 29 de maio, no Recife. Num incidente que revela muito sobre o momento delicado por que passa o País, de forte polarização política, o grupo decidiu retirar seus filmes do festival, provocando o seu adiamento por tempo indeterminado, sob a alegação de que a programação deu espaço a produções "claramente alinhadas a uma direita extremista".

O episódio, segundo informações extraoficiais, levou ao desligamento do cineasta Cacá Diegues e da Globo Filmes como produtores associados da fita. "Há um movimento neofascista no Brasil que deseja impor uma hegemonia cultural com viés marxista", diz Ricardo Fadel Rihan, da Lightouse House, um dos produtores do filme.

Com a pretensão de ser um thriller político, embalado ao ritmo de ópera rock, o filme tem como personagem principal o economista Gustavo Franco (interpretado pelo ator Emílio Orciollo Neto), integrante da equipe que idealizou o real e depois nomeado diretor da área internacional e presidente do Banco Central (BC). Também faziam parte do grupo os economistas Pedro Malan, Persio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha, Winston Fritsch e Clóvis Carvalho, todos presentes no filme.

A história se desenrola basicamente, num bunker localizado no prédio do Ministério da Fazenda, em Brasília, protegido de pressões políticas, no qual o grupo recrutado por Fernando Henrique forjou o real, em meio a fortes discussões, e nas salas e corredores do BC, onde Franco definia as estratégias destinadas a "peitar" os especuladores e evitar a desvalorização da nova moeda, durante as crises da Ásia e da Rússia, em 1997 e 1998.

Para os mais jovens, que não viveram os tempos da hiperinflação, o filme oferece uma oportunidade de conhecer um pouco melhor os momentos dramáticos vividos pelo Brasil naquela época, sem ser professoral, nem exagerar no economês. Para os mais velhos, que sofreram os males da superinflação na pele, é uma chance de relembrar o quanto era difícil a vida com uma desvalorização da moeda de 2% ao dia.