Esta semana, o CSEM Brasil deve iniciar o seu ano de ouro. A filial do Centre Suice d’Electronique et Microtechnique, um centro de pesquisa aplicada fundado em 2006, em Belo Horizonte, começará a produção piloto, mas já em boa escala, na capital mineira. Haverá duas linhas distintas de produtos. Uma é a de circuitos e sensores cerâmicos. A outra é de eletrônica orgânica. “Estamos colocando o Brasil na vanguarda da tecnologia”, diz Tiago Maranhão Alves, CEO do CSEM Brasil.

Não é exagero. Poucos países, entre eles EUA, Coreia e Japão, dominam a tecnologia da plataforma orgânica, base para diversos produtos.
Por enquanto, a plataforma orgânica do CSEM tem como principal aplicação os painéis solares para produção de energia elétrica. Eles são de baixo custo (em dois anos, garante Tiago, o preço será de menos da metade dos painéis tradicionais), muito leves – cada painel pesa poucas gramas –, têm transparência maior, baixo impacto ambiental e consomem 20 vezes menos energia do que a tecnologia tradicional, de silício. “Nossos painéis são superorgânicos. Usamos um plástico especial sobre os quais são impressos as células solares orgânicas. Ou seja, material biodegradável”, afirma Tiago.
Por ano, o CSEM Brasil poderá originar painéis numa quantidade cuja capacidade somada equivale à de uma usina elétrica de 200 MegaWatts, suficientes para os gastos de uma cidade de aproximadamente 200 mil habitantes. É muito. E é pouco: a Konarka, um dos players mundiais, inaugurou uma fábrica de células fotovoltaicas orgânicas capazes de gerar 1 gigawatt.

Há muito mercado potencial: só no Brasil ainda há 1 milhão de residências sem energia – sem falar na possibilidade futura de exportação. “Imagine o valor dessa tecnologia para uma região como a Amazônica, onde não existe fartura de eletricidade”, diz Tiago. O centro não venderá a produção diretamente, mas a parceiros que se encarregarão de fazê-la chegar aos usuários finais. “Os parceiros estão sendo desenvolvidos”, afirma Tiago. A área envidraçada de cada uma das janelas de apartamentos e prédios comerciais é a maior oportunidade de uso e pode virar uma microusina de eletricidade a ser consumida por moradores e funcionários. Na visão de Tiago, dentro de dois anos, no máximo, isso será cada vez mais comum.

Pensamento no futuro

O papel do CSEM Brasil, uma associação do CSEM da Suíça com a Fir Capital, com apoio do BNDES, do Governo de Minas (via Fundação de Apoio à Pesquisa de Minas Gerais, Fapemig) e Federação das Indústrias do Estado de Minas ( Fiemg) vai muito além de produtos: pensar o futuro e desenvolver soluções capazes de garantir competitividade econômica para o Brasil e maior qualidade de vida às pessoas. Em outras palavras: inovar. “São coisas plausíveis, que podem mudar o futuro”, diz Tiago Maranhão Alves.

Empresa importou time de doutores para BH

O que dá juntar, numa mesma sala de produção, um músico/técnico, um químico e um engenheiro? Samba dos bons. Enquanto os mais graduados cuidam da qualidade intrínseca dos materiais, o músico, só pelo som da impressora de circuitos eletrônicos do CSEM Brasil, sabe em que parte da máquina tem de mexer para afiná-la.

“É gente assim que faz a diferença, que nós procuramos contratar”, diz Tiago Maranhão Alves, CEO do CSEM Brasil.
Ele, pernambucano de nascimento e engenheiro eletrônico com MBA em Cambridge, arrigementou um time multinacional de doutores. São 11, todos envolvidos no desenvolvimento e aprimoramento constante dos produtos. Nele há físicos, engenheiros e químicos. É gente da Europa, Ásia, Américas e África.

“Conosco só trabalham bambambãs, gente realmente top, pois temos de seguir aprimorando a nossa tecnologia”, diz Tiago.
A habilidade para coordenar esse time Tiago adquiriu no exterior. Nos Estados Unidos, ele trabalhou na equipe de Robert Merton, Nobel de Economia de 1997 por ter aperfeiçado, em 1986, uma fórmula capaz de prever o valor futuro das ações, dando origem aos fundamentos técnicos do mercado de derivativos. Depois, em Londres, Tiago foi trabalhar em um escritório especializado em propriedade intelectual. “Eu ia todo mês ao Japão e à Coreia”, relata ele.

“Fiquei conhecendo assim muita gente ligada à área de pesquisa e desenvolvimento”.

Em Londres, Tiago também auxiliava um sócio da Fir Capital, por sua vez um dos sócios do CSEM Brasil, em questões de propriedade intelectual. Soube, por meio dele, que procuravam alguém com suas qualificações para dirigir o centro de pesquisas. “Aceitei porque já era hora de voltar ao Brasil”.

Aplicações Se estendem à indústria automotiva

Outra grande aplicação para os painéis solares está na indústria automotiva. Por serem mais leves, em breve o teto de automóveis e ônibus, prevê Thiago, será recobertos com eles – os contatos da CSEM Brasil com algumas montadoras já estão avançados. Hoje você deixa o seu carro debaixo do sol e, depois de alguns minutos, não aguenta entrar. “Em mais alguns meses isso vai virar coisa do passado”, diz Tiago. A energia será usada a fim de movimentar um exaustor dentro do carro. Ou ligar o ar condicionado. Por menor que seja, nos ônibus, grandes consumidores diários de diesel, essa economia será preciosa e poderá significar alguns bons milhares de litros a menos por ano.

Já na plataforma de circuitos e sensores cerâmicos, que exige robustez e miniaturização e cuja tecnologia é conhecida como LTCC (Low Temperature Co-fired Ceramics), o CSEM Brasil visa os setores automotivo, de óleo e gás, aeroespacial, comunicações e defesa.