Se nos últimos anos o acesso dos brasileiros às viagens aéreas impulsionou o crescimento do setor no Brasil, a recessão econômica já está promovendo o efeito contrário. Mais do que isso, está levando viajantes a optarem novamente pelo ônibus enquanto a procura por voos domésticos está voltando aos níveis de 2013.
 
Dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) mostram que a demanda doméstica caiu 7,9% em novembro de 2015 na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Foi o quarto mês consecutivo de quedas. Os números são relativos a estatísticas fornecidas pelas companhias TAM, Gol, Azul e Avianca.
 
O recuo é reflexo direto do enfraquecimento da economia, que está reduzindo a frequência das viagens corporativas e de turismo ao mesmo tempo em que o dólar em alta eleva custos de itens essenciais para a aviação, como o querosene, que é cotado na moeda americana.
 
O presidente da Abear, Eduardo Sanovicz, explica que as reuniões de negócios e eventos corporativos – que eram motivo de dois terços das viagens domésticas no país – caíram pela metade em 2015, devido à desaceleração econômica. Em 2016, com a projeção de novas quedas, as companhias serão obrigadas a reduzir o número de voos para destinos domésticos.

“Um determinado destino que hoje é servido por nove voos, por exemplo, vai passar a ter sete, por exemplo. Isso porque, com a redução da demanda, o custo fica insustentável. No Brasil 40% do valor de cada passagem que é paga é destinado ao custo do querosene de aviação. Para se ter uma ideia, no mundo, essa media é 28%”, explica Sanovicz.

Tributação

Outro problema apontado pelo presidente é a cobrança de tributos regionais sobre o querosene da aviação. Ele explica que o Brasil é o único país onde o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de 12% incide nos voos domésticos.

Como há acordos signatários do Brasil com outros países e as companhias brasileiras não pagam esse imposto no exterior, as companhias internacionais também não são taxadas aqui. Com isso, as empresas internacionais acabam tendo vantagens competitivas.
 
“Por esse motivo, é comum o consumidor pagar mais caro quando voa de Confins para Fortaleza do que quando voa para Buenos Aires. A aviação é uma atividade global e concorremos globalmente. No ano passado, o custo no Brasil subiu cerca 30% e as receitas apenas 3%. No longo prazo, isso pode ser comprometedor”, conclui Sanovicz.
 
Estabilidade de preços e ‘encurtamento’ das viagens favorecem o transporte rodoviário

Sondagens de consumidores, feitas pelo Ministério do Turismo em parceria com a Fundação Getúlio Vargas em dezembro de 2015, apontam que a escolha do ônibus como meio de transporte aumentou cerca de 7% na comparação com o mesmo mês de 2014. Já a demanda dos que querem viajar de avião no mesmo período caiu 20%.

O diretor do Departamento de Estudos Econômicos e Pesquisas do Ministério do Turismo, José Francisco de Salles, explica que a opção por viajar de ônibus pode ser influenciada, além das questões econômicas, pela sazonalidade.

“As viagens mais curtas tendem a ser feitas por ônibus e carro. São os deslocamentos de até 600 quilômetros, onde há preferências até mesmo pela hospedagem em casas de amigos”, explica.

O construtor Edi Pereira Brito vai de ônibus com toda a família para Ribeirão Preto, em São Paulo. Ele confirma que o preço das passagens é o principal motivo. “Na minha última viagem saí de ônibus da cidade de Cajazeiras, na Paraíba, rumo a Belo Horizonte. Foram três dias de viagens e mais de 1.900 quilômetros percorridos. Ainda assim valeu a pena”, explicou.

Os estudantes Fernanda Bottega e Maurício Godoy, que na última quinta-feira estavam a caminho de Viçosa, avaliam que dependendo da distância, pode ser vantajoso ir de avião. “Para um deslocamento menor, só se a passagem estivesse mais barata”. A abrangência dos serviços prestados pelas companhias de ônibus, as melhorias no conforto e segurança e os reajustes menores nos preços das passagens estão entre os atrativos que influenciam o crescimento do setor.

Perfil

O co-presidente do site de vendas de passagens on-line ClickBus, Cesário Martins, destaca que os preços das passagens de ônibus não são tão sensíveis a mudanças de mercado como acontece com as passagens aéreas. “Apenas na plataforma ClickBus são 60 empresas de ônibus que representam mais de 80% da cobertura nacional. São 120 milhões de passagens interestaduais vendidas por ano. Para 2016 esperamos crescer 100%, como aconteceu no último ano”, explica.
 

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