Pelo menos 600 mil brasileiros deixaram suas casas e famílias para tentar a sorte no exterior nos últimos três anos e meio. O montante é quase o mesmo que a população total de Contagem, na Grande BH, que atualmente abriga 648 mil pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A estimativa do aumento do número de brasileiros emigrantes é do Ministério das Relações Exteriores, com base em relatórios dos consulados e embaixadas ao redor do mundo. No entanto, o levantamento pode estar subestimado, pois considera os brasileiros em situação regular e não incorpora dados de 2015.

Quem está querendo entrar para essa estatística é a advogada Renata Tavares de Siqueira, 34 anos. Nos últimos meses, ela e o marido começaram a executar o plano de morar no Canadá, levando as filhas de 4 e 6 anos. Ambos ficaram sem trabalho em 2014 e, desanimados com a economia do país, com a quantidade de impostos – e a falta de retorno em serviços públicos de qualidade –, resolveram buscar uma alternativa no exterior.

Renata Tavares trabalhava em um escritório de engenharia fazendo atendimento jurídico, e o marido, com vendas de sistemas mecânicos de ar comprimido. Com o desaquecimento na economia, foram dispensados.

A escolha pelo Canadá se deve ao fato de o país oferecer uma série de vantagens a pessoas com alto grau de instrução, além de dar suporte aos filhos. No entanto, os diplomas brasileiros não valerão lá. Por isso, terão que estudar novamente para conseguir trabalhar nas áreas em que são formados.

“No site da imigração, tem um quadro falando de quais as profissões estão precisando. Querem uma pessoa qualificada, porque precisam que assumam cargos de qualificação. Mas isso não significa que vai chegar lá e vai ser gerente, diretor. Você vai ter que se qualificar e correr atrás de trabalho, igual a gente faz aqui no Brasil. Só que a chance de conseguir trabalho com remuneração maior e ter qualidade de vida é maior”.

Comparação

Levantamento da Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revela que os brasileiros com mais anos de estudo emigram 2,4 vezes mais do que os não altamente qualificados.

Mas essa não é uma tendência apenas brasileira. Em comparação com o Brics – grupo de países emergentes que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – e com países vizinhos, ficamos atrás apenas da Índia e da África do Sul.

“Interessante que no Brasil, até 2014, tem uma diferença enorme entre a taxa de emigração total e a de pessoas qualificadas. Isso me parece explicável pela desigualdade do país. Para muitas pessoas, é até difícil pensar em ir embora. De forma geral, emigram os ricos e os pobres: os ricos porque têm mais condições, e os pobres porque são os mais desesperados e têm pouco a perder”, avalia o professor de Ciência Política do Ibmec, Adriano Gianturco.

Segundo ele, a taxa de emigração do Brasil é baixa. “Comparativamente com outros países, não me parece que tem muitos brasileiros que vão embora. Há países que têm uma taxa de emigração muito maior. Historicamente, até 2014, a taxa total é 0,7%. Tem países que é de 40%”