Governo ajuda ou atrapalha o crescimento econômico? Governo deve ser protagonista ou apenas regulador do mercado? O dilema que divide economistas entre liberais e desenvolvimentistas vem impingindo uma dinâmica pendular ao Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). A depender de quem está na direção, ora sua atuação segue um modelo mais próximo aos dos bancos comerciais, ora se converte de fato em banco de desenvolvimento.

Desde a posse do novo presidente, o economista Marco Aurélio Crocco Afonso, indicado pelo governador Fernando Pimentel, o BDMG vem tomando esse perfil de planejador e executor de políticas de desenvolvimento industrial e econômico. Segundo Crocco, o banco está recuperando o ‘D’, da sigla do BDMG.

Na entrevista que segue, Crocco explica porque acredita na ação do Estado e o que está mudando na atuação do banco estatal.

Com a troca de governo, o que mudou na linha de atuação do BDMG?
Conseguimos fechar o Planejamento estratégico do BDMG, que mira os próximos quatro anos, no fim do ano passado. Estamos agora na fase inicial de implementação. Fizemos o diagnóstico do histórico recente de atuação do banco e definimos que o principal, o ponto central da virada na condução do banco, é recuperar o “D” da sigla BDMG, que é desenvolvimento.

O banco não estava voltado para o desenvolvimento?
Não faço juízo de valor sobre as políticas passadas do banco, mas a consta-tação é que se optou por uma horizontalização da atuação do banco. O que importava era volume e se vendia para todos os clientes como se fossem iguais. Fossem eles micros, médios ou grandes, fossem eles de um setor estratégico ou não para o desenvolvimento do Estado. O negócio do banco se descolou de uma política de desenvolvimento porque se acreditou que o Estado não era fundamental para a economia. Estamos retomando agora esse tom direcionador do desenvolvimento, que sempre foi o papel dos bancos de desenvolvimento.

Qual era, então, o papel do banco?
O papel de desenvolvimento do banco era unicamente vender crédito a preço mais baixo que o mercado. Mas, na verdade, não é esse o papel de um banco de desenvolvimento. O ponto central é planejamento e objetivo.

O que mudou?
Nosso objetivo é fomentar em Minas uma economia com indústrias do século XXI, modernas e intensivas de tecnologia. Vamos financiar prioritariamente a inovação, o aumento da produtividade e projetos de baixo carbono. Queremos ser reconhecidos como ‘banco verde’, o ‘banco da inovação’. Vamos também priorizar, logicamente, a atração de empresas em setores estratégicos e estruturantes.

Como se faz isso na prática?
O que queremos é qualificar os desembolsos do BDMG. Para isso, estabelecemos critérios. Um deles são os projetos de inovação, de modernização. Outro são os projetos de sustentabilidade ambiental. E o terceiro, os projetos com impacto no desenvolvimento de regiões e municípios com IDH abaixo da média do Estado. E elegemos alguns setores estratégicos, que acreditamos estruturantes de uma nova economia.

Quais são eles?
Decidimos atuar fortemente em três setores da economia que consideramos prioritários e estruturantes de cadeias que são tecnologicamente sofisticadas. O primeiro é o de fármacos, onde temos a Biomm, única fabricante de insulina do país, e uma série de universidades que desenvolveram processos e patentes que podem ser aplicados com rapidez. O segundo, o de semicondutores, onde temos a Unitec, que é a maior e mais moderna fábrica do hemisfério sul. E o terceiro, o de energias renováveis, que tem a Cemig por base, uma cadeia bastante estruturada e grandes perspectivas.

Esse papel do Estado é realmente relevante?
Veja bem. O último salto qualitativo que a indústria mineira deu foi nos anos 70/80, com a Fiat e a atração das indústrias de autopeças e criação do polo metal-mecânico. Depois disso, foram criadas algumas ilhas de excelência, por conta de algumas indústrias que se instalaram ou se desenvolveram no Estado, mas que não compõem o tecido industrial de Minas. O que precisamos é induzir um novo salto da indústria mineira. Todos os grandes processos de industrialização do Estado foram pensados, planejados e induzidos pelo governo. E o BDMG teve um papel relevante nisso, seja na atração da Fiat, seja financiando o Projeto Jaíba, para citar dois exemplos.

Estamos falando de uma política de governo ou de um programa circunscrito ao BDMG?
Temos um excelente diálogo com a Codemig, que é uma espécie de braço de equity do Estado. Tanto que ela criou a Codespar, para investir em projetos que sejam estratégicos para a economia estadual. Estamos estabelecendo uma relação mais inteligente do que apenas repassar os royalties do nióbio (da CBMM, da qual a Codemig é sócia) para o caixa do Estado. A Codemig usa esse dinheiro para atrair indústrias e o BDMG entra com o crédito. Também estamos refazendo nossos laços e articulações com o Indi. No âmbito da parceria com a Cemig, estabelecemos recentemente uma cooperação técnica com a sua subsidiária integral, a Efficientia. Vamos atuar em conjunto nos projetos de eficiência energética para as empresas mineiras, o que deverá ajudar a alavancar financiamentos públicos e privados nessa área. Outras iniciativas em conjunto também estão em andamento.

O banco consegue atender toda a demanda por crédito?
A verdade é que no momento estamos tendo pouca demanda por investimento e muita para financiamento de capital de giro. Não vamos fugir dessa realidade. Vamos fazer. Hoje, 50% da nossa carteira é composta de crédito para capital de giro.

Quanto se emprestou?
No ano passado perfazemos quase R$ 2 bilhões em desembolsos, que são investimento efetivo na economia mineira. Isso é mais que Cemig, se tirarmos as compras de concessão. É mais do que fez qualquer estatal do Estado.

Você falou de investimentos sociais...
A ideia na área social é apoiar as micro e pequenas empresas em cidades pobres, onde o IDH é menor que a média estadual. Nessas cidades, são as pequenas empresas que geram emprego e movem a economia. Estamos trabalhando também a criação de linhas especiais para hospitais filantrópicos.

O que aconteceu com os fundos de desenvolvimento que eram operados pelo banco?
A verdade é que os fundos zeraram. Aqueles grandes fundos de desenvolvimento industriais ou setoriais existem apenas formalmente. Não têm dinheiro nenhum. O BDMG chegou a administrar R$ 5 bilhões destes fundos, isso há cinco anos. Todo esse dinheiro foi sendo tirado para custeio da máquina pública. Foi quando Minas deixou de fazer política industrial.

Como, então, o banco está se capitalizando?
Quando o governo deixou de ter capacidade de subsidiar (o crédito para desenvolvimento), o banco teve que ir a mercado buscar recursos. Estamos tomando recursos a juro de mercado e emprestando a juro de banco de desenvolvimento. Remontar os fundos com a atual situação fiscal de Minas e do Brasil é difícil. Por isso temos uma lucratividade muito pequena. Tivemos também o aumento da inadimplência, o que gera provisões que vão afetar nosso resultado.

Mas quais as fontes?
Temos as captações internas, que se dão basicamente pelo lançamento de letras financeiras que são compradas pelos bancos comerciais. Mas estamos apostando forte nas captações externas, junto a bancos de fomento e bancos comerciais. É um trabalho que requer esforço, viagens e road shows. Mas que dá resultados, como os contratos de crédito junto à Corporação Andina de Fomento (CAF), a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Tóquio.

Quanto se emprestou em 2015?
Foram R$ 1,936 bilhão em desembolsos. Poderia ser mais, mas com a crise não tivemos demanda.

Como ex-presidente da Fundep, o sr. sempre defendeu o aproveitamento do conhecimento das universidades...
Até o meio do ano teremos uma linha para startups geradas dentro das universidades, frutos de produtos ou processos desenvolvidos nas pesquisas acadêmicas. Temos pelo menos 200 centros de conhecimento estruturados no Estado. Seria um desperdício não apoiar essa estrutura.