Para formar adultos com maior consciência sobre consumo e melhor relação com o dinheiro, muitos pais e escolas têm investido na educação financeira das crianças. Além do investimento no futuro, hoje, os pequenos têm, cada vez mais, um papel ativo na economia das famílias, uma realidade recente.

“Antigamente os pais decidiam e os filhos acatavam. Agora, elas pedem para ir na lanchonete, no cinema. Têm demandas”, explica o economista e consultor do site de educação financeira do Mercantil do Brasil, Carlos Eduardo Costa.

Para Costa, que é especialista em educação financeira infantil, é necessário que os pais ensinem os filhos a ganhar, gastar, poupar e doar. O processo deve ser iniciado assim que a criança comece a mostrar interação com dinheiro, desde que seja respeitada a maturidade e a capacidade de compreensão dela.

No colégio Conviver, no Sagrada Família, a educação financeira é um processo linear do 1º ao 5º ano, no qual os alunos são ensinados a empreender e a adotar um consumo saudável. Também são abordadas questões práticas como comprar e vender, através de feirinhas e atividades externas.

“Quando a gente trabalha o consumo saudável é para a criança aprender a se questionar ‘preciso disso?’ ‘para quê?’, ‘vai fazer parte da nossa vida?’”, explica a diretora pedagógica da instituição, Márcia Ferreira.

Para a professora de matemática Thaís Lopes, que também leciona educação financeira no colégio Magnum, o importante é que os meninos e meninas entendam que o ser é mais importante do que ter. Ela trabalha com os alunos o conceito de que usar corretamente o dinheiro é fazer escolhas conscientes.

“O padrão de consumo deles muda quando eles entendem esses conceitos. Eles percebem que conseguem realizar sonhos maiores, começam a conquistar e estabelecer metas. Muitas vezes, eles mudam o padrão de consumo de todos em casa”, afirma a professora Thaís.

Inversão

A servidora pública Denise Viegas e a família passaram por essa mudança graças à filha Manuela, de 10 anos. A pequena tem aulas de educação financeira no colégio e, muitas vezes, surpreende a mãe com uma postura contra o consumismo desenfreado.

“Às vezes, no shopping, por exemplo, eu chamo a atenção dela para algum produto e ela diz que não está precisando. A gente (os pais) é muito consumista, mas ela tem dado toques, me fazendo pensar se eu realmente estou precisando daquela coisa pela qual me interessei. Achei que eu estava educando, mas se inverteu: ela que está pontuando a maneira de gastar dinheiro aqui em casa”, diz Denise.


Falar mal do trabalho e exagerar nos presentes são atitudes condenadas pelos especialistas

O processo de educação financeira de crianças pode ser feito de várias formas. O economista Carlos Eduardo Costa, especialista no assunto, afirma que as crianças de hoje estão mal acostumadas a ganhar presentes a todo momento. Ele sugere como ação prática a criação de um calendário mostrando as datas especiais, como Natal, aniversário e Dia das Crianças, nas quais os pequenos serão presenteados.

Além disso, Costa sugere a desmistificação de que o trabalho é algo chato, o que muitos pais fazem mesmo inconscientemente.
“A gente passa um sentimento muito ruim do trabalho para as crianças. Muitas vezes chegamos em casa reclamando e elas percebem. Uma ideia é levar o filho no escritório ou na empresa para ele começar a entender, ter dimensão do que é o trabalho”, diz ele.

Dar uma mesada (ou semanada) para as crianças também é uma sugestão dada pelos especialistas para que elas comecem a se relacionar com o dinheiro de forma responsável. Para que isso aconteça, é preciso deixar claro, ao dar o dinheiro, qual a destinação que ele deve ter.

“Se acabar o dinheiro, acabou. Não pode dar mais para trabalhar a responsabilidade na criança. Não dá para fazer tudo o que a gente quer na vida e os meninos e meninas têm que aprender isso, a fazer escolhas”, afirma Costa.

No colégio Conviver, a experiência dos alunos com a poupança é positiva. A diretora pedagógica Márcia Ferreira diz que as crianças aprendem a poupar para comprar algo mais caro. “Também ensinamos a importância de doar, para trabalhar o desapego”, diz Márcia.

O educador financeiro Carlos Eduardo Costa também é a favor de estimular a doação, para que os pequenos aprendam a fazer as coisas sem expectativa de troca. Além disso, é importante que eles entendam que muitas vezes o dinheiro é até desnecessário.
“Os pais podem pedir as crianças que separem os brinquedos que não usam mais para doar. Ir a uma praça ou parque e mostrar ao filho que dá para se divertir sem gastar também é uma excelente opção”, afirma Costa.